Passagem para a 2ª classe (poema)

(…)

– Que métodos é que a professora…ou, lembra-se, como é que ela ensinava? O que é que ela fazia para dar apoio? Se é que o fazia aos alunos que tinham necessidades, ou que não conseguiam aprender…

– Isso não me lembro. 

– Não se lembra se ela tinha algum…sistema, que a Ilda se recorde…um hábito qualquer ou…

– Não. Só me lembro que ela tinha o hábito de bater. Isso é o que me lembro. 

– O hábito de bater… 

– De bater com a cana, ou com a régua. Quando as coisas não corriam lá ao jeito dela… 

– Lembra-se de algum livro em particular ou alguma história…ou um personagem? Não tem memória?

– Histórias…lembro-me muito. Portanto, quando eu fiz a passagem da 1ª para a 2ª fui recitar um poema, tipo um poema…lá no salão paroquial…que ela ensinou a várias, mas essa nunca mais me esqueceu. Nós íamos ao palco, cada um por sua vez, e o meu era este: “Sinto-me feliz e contente, tão ditosa que nem sei. Pois na luta fui valente, e até pasmei muita gente, da coragem que mostrei. Fui hábil, nunca errei, tive calma e fui prudente. Mas a vitória foi tal, que embora isso confunda, é notória em Portugal. Já passei para a 2ª!…” (risos). Nunca mais me esqueceu este poema…

(…)

Excerto de entrevista a Ilda Cardoso da Silva Verissimo, 73 anos (em 3 de Dezembro 2019, Vila de Rei)

Conto do menino Manuel

– Então vai contar…ou vai cantar, uns versos que o seu pai dizia…

– Vou contar uns versos que o meu pai dizia:

.

Manuel era um petiz de palmo e meio

Pouco mais teria na verdade

Rosto moreninho, olhar cheio,

Inteligente e de enérgica bondade

Orgulhava-lhe dele o professor

Fazia contas que nem um banqueiro

E lia nos livros como um doutor

.

Certo dia Manuel passando

Junto ao adro da igreja

Aproximou-se e viu um bando de homens

A olhar o que quer que seja

Interrogavam-se todos em dispel

Ansiosos por saberem cada qual

O que havia em certo papel

Pregado com o brejo no portal

.

É para as contribuições! Supunham uns

É para as sortes, talvez! Outros volviam

Quantas disposições!

Porém nenhum sabia ao certo o que o Edital continha

Nenhum, e eram vinte os assistentes

Vinte homens e talvez inteligentes

Mas todos, que tristeza, analfabetos!

.

Furou o Manuel

Por entre aquela gente ansiosa, comprimida, amalgamada

Como formiguinha diligente

Pelo maciço de erva emaranhada

Furou e conseguiu chegar adiante

Ergue-se nos pézitos para ver

Mas o Edital estava lá tão em cima e tão distante

Que não o pôde ver

.

Então um dos do bando agarra-o

Com suas mãos possantes e calejadas de cavarem pão

Houve um silencio entre os circunstantes

E numa clara voz melodiosa

A alegre e insinuante criancinha

Põs-se a dizer àquela gente ansiosa

Correntemente, o que o Edital continha

.

Regressava o abade do passal

A caminho da sua moradia

Como era já idoso e via mal

Apressou-se e veio ver o que haveria

E deparou com aquele quadro lindo:

Uma criança a ler a homens feitos

.

Um pequenino cérebro, fachinho de luz

No meio daqueles cérebros imperfeitos

Transpareceu do rosto do bom abade

Um doce e espiritual contentamento

E da sua boca brotou de verdade

Disse estas frases com brando assento

“Olhai amigos, quanto pode o ensino

Sois homens, alguns pais, e até avós

Pois só por saber ler, este menino

É já maior que nenhum de vós!”

.

Versos recitados, de cór, por Ana Cristóvão Afonso, 92 anos (em entrevista cedida a 3 de Outubro de 2019), segundo o que aprendeu com o seu pai João Cristóvão (nascido em 1892, na aldeia de Roda – Cardigos, Mação)