Personalidades

BIOGRAFIAS – Pessoas notáveis da região do Pinhal Interior Sul

(em construção)

Apresentação

Homens de cultura / Eclesiásticos / Missionários/ Militares / Exploradores/ Cientistas / Investigadores / Juristas / Professores / Médicos / Empresários

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ALVES, Sebastião (Comendador)

ANDRADE, António de

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ANTUNES, Manuel (1918-1985)

Nascimento: Sertã (03/11/1918)

Morte: Lisboa (18/01/1985)

Biografia

Manuel Antunes nasce numa família muito humilde da Beira Baixa, filho de José Agostinho Antunes e Maria de Jesus, assalariados rurais. Em 1931 ingressa no Seminário Menor da Companhia de Jesus, que então se situava em Guimarães, onde começou a revelar grandes dotes e aplicação ao estudo. Com 18 anos de idade, dá entrada no noviciado da companhia de Jesus em Alpendurada (Marco de Canaveses), onde faz a primeira profissão religiosa e se torna membro oficial da Congregação de Santo Inácio de Loyola. Em seguida, completa os estudos humanísticos, tendo-se dedicado durante três anos, de modo especial, à Literatura e Cultura Grega e Latina, em que no futuro se haveria de notabilizar. Depois, matricula-se no Instituto Superior Beato Miguel de Carvalho, hoje Faculdade de Filosofia de Braga, onde, em 1943, se licencia em Filosofia, com uma dissertação sobre o “Panorama da filosofia existencial de Kierkegaard a Heidegger”. Terminando com distinção o curso de Filosofia, e dada a sua inclinação para os estudos clássicos, durante três anos foi chamado a ensinar Língua e Cultura Latina e Grega aos jovens estudantes da sua Ordem Religiosa, constituindo esta a sua primeira actividade docente. Frequenta, de 1946 a 1950, a Faculdade de Teologia de Granada (Espanha), onde obtém a licenciatura em Teologia, completando, por fim, a sua formação religiosa em Namur (Bélgica). Foi ordenado sacerdote ainda antes de concluir Teologia, como era hábito na Companhia de Jesus. No ano lectivo de 1951-1952, começa a ensinar Língua e Cultura Grega e Latina no Curso Superior de Letras da Companhia de Jesus. Em 1955, desloca-se para Lisboa, a fim de trabalhar na redacção da revista Brotéria, de que era colaborador desde 1940. Dedica-se a temas culturais, pedagógicos e filosóficos, bem como à crítica literária. Muitos dos seus artigos estão assinados com pseudónimos. Contámos mais de 120 pseudónimos com que assinou a sua profícua produção de textos editados na revista Brotéria, entre os quais Horácio Alves, Licínio Alves, Carlos do Amaral, Luís Dias Bivar, Jorge de Castro, Santana Claro. Em 1965, assume a direcção da Brotéria, que manteve até 1982, com uma breve interrupção entre 1972 e 1975. Entretanto, já em 1957, tinha sido convidado pelo professor Vitorino Nemésio, então director da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a leccionar as cadeiras de História da Cultura Clássica e de História da Civilização Romana. Mais tarde regerá também a cadeira de Filosofia Antiga e Ontologia. Participa na vida da comunidade académica, em Portugal e no estrangeiro, sendo admitido como sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. Em 1981, recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Lisboa e, dois anos mais tarde, a condecoração de Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada. 

Testemunhos de alunos e condiscípulos referem a sua vasta cultura, o seu poder de síntese, a clareza e o vigor da exposição, bem como um comportamento afável, acolhedor e de diálogo. Era considerado um autêntico pedagogo humanista que primava por uma arguta atitude crítica do passado e do presente e aplicava com sabedoria as lições da História do homem. Comenta Joaquim Coelho Rosa, assistente de Manuel Antunes na Faculdade de Letras, que dos fecundos anos de docência universitária ficaram, para as várias gerações de alunos seus, “a sabedoria”, “a afabilidade humana” e “o brilho humilde” de um professor cativante: “uma obra-prima de história e filosofia da cultura […], onde, a respeito de Gregos e Romanos, o leitor e o aluno é reenviado a si mesmo, à sua identidade de herdeiro de uma tradição milenária e multifacetada, aquilatada no verso e reverso das realizações Do espírito do tempo […]; a mestria irrepreensível da língua e o uso rigoroso e belo das palavras por alguém que viveu e chamou os seus contemporâneos Ao encontro da Palavra” (1989, p. 319). Entre diversos artigos, opúsculos e obras-síntese publicados ao longo da sua vida académica, podemos auscultar uma fecunda e original filosofia pedagógica, na qual sobressai uma teoria da educação baseada num personalismo humanista cristão militante. Segundo Manuel Ferreira Patrício, o pedagogo Manuel Antunes afirma a necessidade de fazer assentar uma teoria de formação do homem, numa antropagogia, ou seja, numa antropologia: Que podemos esperar? Que devemos fazer? Que podemos saber? (1985b, p. 540). Manuel Antunes entende que só “uma visão global do ser humano, retrospectiva e prospectiva, passada e antecipante, permitirá a organização de um sistema educativo digno desse nome” (1973, p. 43), um pouco na linha da filosofia pedagógica portuguesa contemporânea, de que são mestres Pascoaes, Leonardo Coimbra e Delfim Santos. Escreve Manuel Ferreira Patrício, que se considera um dos seus discípulos, que toda a obra do P.e Manuel Antunes é pedagógica, ou melhor, antropagógica: “Com efeito, o homem está no centro das suas preocupações. A vida de Manuel Antunes foi habitada pelo cuidado pelo homem. Ele não quis, no entanto, apenas conhecer e compreender o homem. Ele quis, com efeito, ajudar o homem a ser homem, a formar-se tão plenamente quanto possível como homem, a viver a sua vida de homem sob o signo do contínuo e exigente movimento do aperfeiçoamento” (1985a, p. 297).

Mais do que um humanista, Manuel Antunes era um personalista cristão. Defendia que o que deveria estar em causa eram os homens entendidos “como seres de carne e osso que não estruturas impessoais, seres com direitos e deveres recíprocos que não apenas abstractos”, “seres solidários de um mesmo destino terrestre e ultraterrestre”. A sua reflexão pedagógica insurge-se contra os homens esvaziados de humanidade, contra o “homem-máquina”, aquele que não é capaz de liberdade e responsabilidade, contra os “homens-espuma”, alucinados e alheios de si próprios. Manuel Ferreira Patrício (1986) acrescenta que “há todo um programa pedagógico transpositivista […], todo um programa de acção antropagógica no pensamento educativo deste pedagogo”. Neste sentido, defende o “primado das ciências do homem sobre as ciências da natureza”, contra a utopia do “cientismo míope” que distanciou o homem da sua interioridade, para que possa novamente caminhar no sentido de se conhecer melhor a si mesmo. Para Manuel Antunes, o fim da educação deve visar a entrega do homem a si próprio, a educação deve conduzir ao pólo oposto da alienação: homem sujeito e não objecto; pessoa em vez de coisa. Deve, portanto, combater o homem serial, que constitui a “multidão solitária”, o homem multidinário. Em sintonia com a doutrina do magistério eclesiástico, tal como é exposta nas encíclicas Pacem in Terris e Populorum Progressio e na Constituição Conciliar Gaudium Spes, do Concílio Vaticano II, bem como com a filosofia educativa expressa na Declaração Universal dos Direitos do Homem no tocante à educação e à cultura, acentua Manuel Antunes os traços salientes do personalismo cristão, onde a dignidade da pessoa constitui o leitmotiv de toda a acção educativa e cultural (Patrício, 1985b). Entende que uma teoria da educação tem de conter, necessariamente, uma teoria do Estado. Rejeitando todas as modalidades do Estado totalitário, argumenta, na sua obra Repensar Portugal (1979), que o Estado democrático, plural, tolerante é o único que é compatível com a liberdade e dignidade da pessoa humana. Na sua óptica, o Estado não deve ser o único, nem sequer o principal docente da Nação, mas sim um Estado aberto, que deve garantir a educação numa sociedade aberta. Mais: considera não ser possível uma verdadeira revolução política sem esta ter sido antecipada e preparada por um projecto educativo, ou seja, por uma teoria e uma práxis pedagógicas.

A sua obra mais importante, que condensa as reflexões mais significativas sobre a educação, reúne e aprofunda um conjunto de artigos compilados sob o título de Educação e Sociedade (1973). Aqui repensa a educação no plano dos princípios e dos fins, não deixando de adiantar sugestões práticas. Considera que “no contexto que é nosso, o sistema de educação, que se torna necessário redefinir, deveria girar em torno de dois pólos que mutuamente se atraíssem e influenciassem: a ciência e a sabedoria, os factos e os valores” (1973, pp. 13-14). Na educação pela ciência, qualquer que seja o ramo, valoriza o método em relação ao conteúdo propriamente dito: “Infelizmente, no ensino liceal entre nós vigente como, por vezes, no ensino superior, o que […] parece promover-se é a aquisição de dados e de conhecimentos, sem levar em suficiente linha de conta, nem a sua compreensão em profundidade, nem o caminho como a eles se chegou. Menos ainda parece exigir-se a sua integração numa totalidade mais vasta” (1973, p. 14). A ciência, no seu entender, deve ser fomentada com todo o empenho, mas deve essa dedicação ser acompanhada de sabedoria, de sensatez, de valores, de um sistema ético. Manuel Antunes foi também um pedagogo “prospectivista”. Nesta linha, entendia que a educação do futuro deveria ter em conta três vectores fundamentais – “fé na Ciência; confiança na Imaginação; abertura à Transcendência” (Patrício, 1986, p. 164) – para que todas as dimensões do homem sejam valorizadas e seja possível levar a cabo o seu programa ideal de educação: “a educação do homem todo e de todo o homem”, como projecto existencial de toda uma vida e da vida toda, de toda a sociedade e da sociedade toda. Nesta base teórica se funda a sua reflexão sobre a educação permanente. Considera que a educação deve ser enraizada na matriz cultural dos educandos; daí que ao repensar a educação em Portugal, repense na linha da sua integração valorizante da cultura portuguesa para que “a educação portuguesa seja educação e seja portuguesa” (Patrício, 1986, p. 181).

Manuel Antunes concebe o processo educativo como intrinsecamente relacional e dialógico entre o educador e o educando, e entre este consigo mesmo, de modo a conduzir a um aperfeiçoamento humano, a que ele designa de “capacidade educacional do homem” (1973, p. 139). De acordo com o seu pensamento, a teoria da educação deve fundar-se numa teoria da cultura, reivindicando uma ligação íntima entre ambas. Neste sentido, entende por educação “não o simples processo da didáctica escolar, mas, no sentido mais largo, toda a aquisição, transmissão, renovação e criação de ideias, de comportamentos, de formas e de símbolos expressivos”, ou seja, “mais sinteticamente: a educação é a reflexão e o projecto de uma cultura” (1973, p. 11). A sua filosofia educativa discerne a educação como um processo de humanização e de regeneração social, o meio certo para fazer face às crises inevitáveis da sociedade humana: “na crise radical que atravessa o mundo e à qual nenhuma nação e mesmo nenhum indivíduo escapam ou sequer, no limite, podem escapar, a educação constitui um dos básicos elementos salvadores” (1973, p. 35). Isto porque a “noção de educação remete, desde logo, para as concepções últimas do Homem, do Mundo e da Vida, para a questão dos fins e dos meios, para a floresta altamente embrenhada das implicações da natureza na cultura e da cultura na natureza, para o universo, mais delicado e embrenhado ainda, das relações entre indivíduo e sociedade, e, entre estrutura e génese, entre essência e história” (1973, p. 35). A filosofia e a teologia têm, na classificação e possível resolução desses problemas, uma posição fulcral. Mas, para o mesmo efeito, contribuem necessariamente tanto as ciências da natureza como as humanas. Na verdade, a totalidade do saber sobre o Homem, o Mundo e a Vida. Para tal, considera o método lexiológico insuficiente e também não é satisfatório o da “circum-navegação” pelas teorias e definições que da educação têm sido dadas e formuladas. A metodologia que se lhe afigura mais apropriada é a de “tentar relacionar certos temas que a educação implicar ou tentar justificar uma definição escolhida entre as várias possíveis” (1973, p. 38). O pedagogo entende que nada é mais perigoso do que orientar a educação por ideias incompletas, assumidas com cariz dogmático e totalizante. Neste sentido, escreve: “Uma educação ou é total ou simplesmente não é. Uma educação ou tem em conta todas as aspirações do homem ou não passa de um logro” (1973, p. 38). O seu pensamento pedagógico é essencialmente axiológico, isto é, pensa a missão da educação como uma acção promotora e instauradora de valores, pois o valor é entendido como o pólo aglutinador de tudo o que é educativo. A educação é um projecto construído a partir de uma relação interpessoal. A essência dessa relação é “nos seus termos mais simples uma consciência e uma liberdade” (1973, p. 39).

O autor escreve ainda sobre outras áreas temáticas no campo da educação, levantando questões e apontando sugestões. A sua grande preocupação consiste, sempre, em integrar criticamente os conceitos e as suas inter-relações significativas. Os seus diversos artigos publicados na Brotéria apresentam reflexões sistemáticas sobre problemáticas que vão desde a “Reforma do ensino superior” (1971) até às questões da “Educação Permanente” (1977). A sua análise aponta insistentemente para a necessidade de fomentar um espaço de participação alargada e crítica dos vários intervenientes na “empresa” da educação, para o incremento de uma criatividade aberta que promova e eleve o homem e coloque as estruturas acessórias ao serviço de uma maior eficácia e proficuidade de resultados. Isto porque tinha a intuição que o homem contemporâneo possui a consciência de que, actualmente, tudo está em questão: princípios e preceitos, formas e conteúdos, estilos e modelos de vida. Logo, os caminhos que se abrem ao homem são, como nunca foram, “impressionantemente numerosos e labirínticos”. Por isso, entende ser uma tarefa “fundamental e urgente, pensar a educação” (1973, p. 33).

Bibliografia

Ao encontro da palavra, Lisboa, 1960. Do espírito e do tempo, Lisboa, 1960. Educação e Sociedade, Lisboa, 1973. Repensar Portugal, Lisboa, 1979. Brotéria. Presença.

Trabalhos sobre o(a) autor(a)

António Leite, “Padre Manuel Antunes, S. J. (1918-1985)”, Brotéria, vol. 120, 1985, pp. 243-252. 

Manuel Ferreira Patrício, “Notas sobre o pensamento pedagógico de Manuel Antunes”, Brotéria, vol. 121, 1985a, pp. 297-316. 

Manuel Ferreira Patrício, “A antropologia de Manuel Antunes”, Brotéria, vol. 121, 1985b, pp. 540-554. 

Manuel Ferreira Patrício, “A educação para amanhã na pedagogia de Manuel Antunes”, Brotéria, vol. 122, 1986, pp. 163-181. 

Joaquim Coelho Rosa, “Manuel Antunes”, in Enciclopédia Logos, Lisboa-S. Paulo, 1989, pp. 318-320.

Biógrafo(a): José Eduardo Franco

FONTE (Texto): NÓVOA, António & BANDEIRA, Filomena (coord.). (2005). Dicionário de Educadores Portugueses, Biografia 64 [CD-ROM]. In A. Nóvoa, Evidentemente: Histórias da Educação. 2ª ed. Lisboa: ASA Editores. 

FONTE (Retrato): Toponímia de Lisboa: Rua Padre Manuel Antunes

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APARÍCIO, Sebastião

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BARRADAS, António de Matos Pereira

BERNARDO, Joaquim Nunes

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CASQUILHO, João de Oliveira

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CASTANHEIRA, Acúrcio (1895-1979)

Nascimento: Pedrógão Grande (05/11/1895)

Morte: Queluz (13/06/1979)

Biografia

«Cabeça bem mobilada

A do Dr. Castanheira!

Em Proença, outra não houve

Que lhe tomasse a dianteira.»

Padre Paixão

Acúrcio Gil Carvalho Castanheira, nasce em Pedrógão Grande no dia 5 de Novembro de 1895, em casa já desaparecida do Adro da Igreja Matriz. A mãe, Maria Júlia Farinha de Carvalho Castanheira, era doméstica como todas as mulheres do seu tempo. Seu pai, Manuel Simões Castanheira, era farmacêutico pela Escola Médica de Lisboa e foi por largos anos, até 1934, o proprietário da farmácia de Pedrógão Grande. Sendo o mais novo de três irmãos (sobreviventes), Acúrcio foi o único a acolher como herança, pelo lado paterno, o gosto nato pela medicina. Já seu avô havia exercido, na freguesia da Graça (Pedrógão), a missão de cuidar de doentes: era “médico-barbeiro”, conforme se dizia naquele tempo.  Acompanhado por sua mãe, foi viver para Coimbra aos nove anos, para frequentar o segundo grau da instrução primária, na escola da Sé Velha. Nessa cidade cursou o Liceu e a Universidade, tendo concluído a formatura em medicina em 1919 com a classificação de 15 valores, nota pouco comum à época. Durante o curso universitário fez “sebentas” (textos de estudo para os colegas), e começou a ajudar os pais no suporte das suas despesas, dando explicações. Nascido e criado em tempos difíceis, desde cedo Acúrcio transpôs para a sua prática médica aquilo que aprendera pelo exemplo paterno: na farmácia de seu pai, ninguém ficava sem medicamentos mesmo que os não pudesse pagar (como ainda hoje o testemunham os mais idosos de Pedrógão Grande). 

Em 1919, após a conclusão dos seus estudos médicos, casou com Regina de Andrade Nogueira, também natural de Pedrógão Grande. Deste casamento nasceram três filhos, um, também de nome Acúrcio, falecido de acidente aos onze meses, e uma filha. Ficou viúvo em 1934. Contraiu segundo matrimónio, em 1935, com Lídia Antunes, natural de Crujeira, Proença-a-Nova, de cuja união nasceram cinco filhas. Toda a sua carreira profissional decorreu em Proença-a-Nova, exercendo funções de 1920 a 1976 como médico de província. Tomou posse do Partido Médico em 22 de Janeiro de 1920 tendo sido Médico Municipal e Subdelegado de Saúde do Concelho durante 45 anos, até à aposentação em 5 de Novembro de 1965, data em que, para funções oficiais, atingiu o limite de idade: 70 anos. Trabalhou, no entanto, mais uma década, afastando-se do exercício da medicina após ter completado 80 anos de idade. Por ocasião da sua aposentação, terá dito aos seus filhos: “Reformo-me, antes que os doentes me reformem” (Janeiro de 1976).

Num livro dedicado à vida e obra de seu pai, Maria Albertina Castanheira Batista recorda-o nos seguintes termos: 

“Era homem de baixa estatura. O seu Bilhete de Identidade registava um metro e cinquenta. Cabelo escuro, por fim grisalho, liso e sempre bem penteado em marrafa, sobre testa ampla, emoldurava um rosto simpático e expressivo iluminado por dois olhos grandes, castanho esverdeados, que alternavam entre o alheamento e a perspicácia, doces e meigos, autênticas janelas do seu estado de alma, riam ou choravam sem pedirem licença. As mãos, brancas e esguias, suaves e delicadas, não passavam despercebidas aos olhos dos doentes, que alguns ouvi recordarem-nas com ternura e mistério. Aspecto geral agradável e desenxovalhado, cuidava a imagem e a saúde com o ritual de quem precisa sentir-se bem na sua própria pele. (…) Prezava o conforto do vestuário e do espaço em que vivia; principalmente o gosto de possuir o que lhe proporcionava saúde ou satisfação, em detrimento do luxo, da propriedade, ou da conta bancária que nunca teve. Fora de casa ou do consultório, à sua pequena estatura, estava sempre associado o chapéu, a maleta e, no Inverno, o capote ou o sobretudo conforme o transporte, cavalo ou, mais tarde, carro. Do tempo do cavalo recordo, como sinal certo de saída para longe, os safões e os polainitos que tirava enlameados quando chegava a casa. Pelos caminhos, a pé, levava outro acessório: uma varinha de cana, já escura e polida pelo uso, porque tinha medo dos cães.” (BATISTA, 1999a: 16-17).

Segundo o próprio testemunho de Albertina Castanheira, em 1920 chegava-se a Proença-a-Nova por meio de “estradas de Mac-Adam: estreitas, sinuosas, medonhas”, sendo “lentos e rudimentares” os transportes que a ligavam ao mundo através de Castelo Branco, Sertã e Abrantes. Nesse tempo, poucas eram as casas que, fazendo jus a um progresso desejado, mostravam fachada caiada. Assim, triste e morena, a Vila aninhava-se junto à Igreja Matriz, Igreja da Misericórdia e Câmara Municipal, fechando o Largo Pedro da Fonseca com a “casa grande”, decadente, a Casa dos Minas. Com centro nesse espaço, a que se chamava Praça, por ser lá que se vendiam e trocavam os produtos da região em dias de mercado ou feira, os proencenses encontravam, em harmonia e simbiose perfeitas, respostas para as suas mais prementes necessidades. Na Igreja fortificavam a fé e buscavam consolo para as agruras da vida; no pequeno hospital da Misericórdia, na farmácia Roda, onde, na falta do mesmo, se improvisava o consultório, procuravam a cura para os males do corpo. Era junto à Igreja, na Pensão Condessas (propriedade das Senhoras Prudências), que se hospedavam os viajantes e funcionários que a esta terra vinham parar. Foi também aí que se instalou e deu consulta, o médico novo: Acúrcio Castanheira, quando em Janeiro de 1920, com apenas 24 anos, chegou a Proença-a-Nova. Tempos mais tarde, uma casa para habitação do médico havia de ser providenciada por um conterrâneo, o Sr. Francisco Luís da Silva, “pessoa com instrução e posses, muito generoso e amigo da sua Terra”. Á falta de outras casas disponíveis para alugar, e conhecendo as necessidades e limitações existentes no meio, foi o próprio Sr. Chico (como era conhecido localmente), quem facilitou a conclusão de um dos seus prédios, junto a S. Sebastião, para que o médico tivesse condições, trouxesse a família e se fixasse na Vila, para o lado das Azinheirias. O médico Acúrcio Castanheira habitou-a ainda sem estar rebocada por fora. Fez-lhe alguns melhoramentos com autorização do senhorio e, durante trinta anos foi abrigo do seu lar, espaço de consultório, cenário inesquecível da infância dos filhos.

Nos 23 anos que se seguiram viveu (e também teve consultório) no primeiro andar do prédio cor de rosa da Rua das Pereiras cujo senhorio era o Sr. Simão do Caniçal. Nos últimos dois anos que viveu em Proença habitou o rés do chão da casa de uma das filhas, no Bairro das Tílias. A Subdelegação de Saúde e, por alguns períodos o consultório, foi na Devesa, casa que faz esquina com a Rua das das Pereiras e que era propriedade do Sr. Fernandes do Galisteu. Aquela Proença-a-Nova dos anos vinte, marcada por um notório isolamento ao qual não foram alheias a instabilidade da Primeira República e as consequências da primeira Grande Guerra, não viria a modificar-se, significativamente, nas cinco décadas de vida activa de Acúrcio Castanheira. O progresso chegava lento. As receitas da Câmara eram irrisórias, as benesses do Poder central raras, os responsáveis políticos cristalizavam no Poder e a riqueza humana, principal alavanca do desenvolvimento, procurava noutras paragens o que ali não havia.

Poucas foram as obras de interesse público a marcar estes tempos, naquela região. As duas vilas do Concelho, Proença-a-Nova e Sobreira Formosa, adormeceram dentro de limites quase ancestrais e imutáveis. A indústria, caseira, ficou-se por uma fábrica de cortiça, outra de rolhas, poucas serrações de madeira e alguns lagares. As actividades culturais tinham fraca expressão. A capacidade de iniciativa não era apoiada. O crescimento urbano não existia. O analfabetismo era uma constante. Já nos anos sessenta, obrigou-se ao levantamento das estrumeiras, mas não se pavimentaram as ruas, não se fez o saneamento nem se deu energia eléctrica. As ligações com a Vila, só pontualmente, receberam beneficiação e a desertificação foi acontecendo, lenta e sorrateiramente, até à flagrante evidência dos dias de hoje.

Acúrcio Castanheira, sendo um médico e um homem do seu tempo, não se coibiu, apesar  disso, de constituir um exemplo de excepcional singularidade no meio socio-cultural onde habitou e onde foi um influente participante, quer como médico, quer como cidadão. A sua visão esclarecida e nítida sobre o futuro, bem como o alcance e persistência do seu legado nos dias de hoje, não poderá ser compreendido sem uma análise histórica das estruturas organizacionais do serviço de saúde de então – os Partidos Médicos – e os seus meandros sociais (naquele meio rural da província do interior-centro de Portugal). 

Os Partidos Médicos eram determinadas áreas geográficas com as respectivas componentes sociais, atribuídas aos cuidados de um médico. Criados pelas Câmaras Municipais, às quais cabia a responsabilidade pela assistência médica dentro dos respectivos concelhos, formavam-se baseados em critérios lógicos como área territorial, densidade populacional, distâncias, acessos e condições de fixação e sobrevivência para o médico. Ao titular de um Partido Médico chamava-se Médico Municipal. Os Partidos Médicos eram postos a concurso através do Diário do Governo, sendo as nomeações da competência das próprias Câmaras. A estas, cabia ainda, estipular e atribuir os vencimentos dos Médicos Municipais, determinar tabelas de preços para os diversos serviços clínicos, fixar tabelas de deslocação e contribuir com subsídios para o tratamento de doentes pobres que, por indicação do médico, necessitassem recorrer aos serviços dos Hospitais distritais ou centrais. Cabia, por sua vez, aos Médicos Municipais, o dever de prestar cuidados médicos na área do seu Partido – grátis às pessoas sem recursos – estar de serviço 24 horas por dia e não se ausentar sem autorização da Câmara e sem deixar assegurado o serviço por um colega, sob a sua responsabilidade material. De comum acordo e sem encargos entre si, acontecia substituírem-se, voluntária e mutuamente, dentro do concelho, os médicos dos vários Partidos.

O Concelho de Proença-a-Nova tinha, no início dos anos vinte, dois Partidos Médicos, o de Proença-a-Nova, vago, por ter pedido exoneração o Dr. José Pinto da Silva Faia, que compreendia as freguesias de Proença, Peral e S. Pedro do Esteval, e o de Sobreira Formosa, cujo titular era o Dr. Manuel Ferreira de Matos, na altura sem exercer funções, devido ao desempenho de cargo político distrital e que compreendia apenas a freguesia de Sobreira Formosa, cuja área era a mesma que viria a englobar, mais tarde, as freguesias de Alvito da Beira e Montes da Senhora. Em 1935 o Partido Médico de Proença-a-Nova foi dividido em dois, pela criação do Partido Médico de S. Pedro do Esteval.

Toda a área pertencente ao Partido Médico de Proença-a-Nova era, com excepções menores, de uma pobreza acentuada para os padrões da época e de miséria. Os caminhos íngremes, mal abertos, poeirentos ou enlameados, ligando as povoações entre si e à Vila, tornavam as distâncias penosas para quem tinha que as vencer. Homens, animais e carroças eram os meios de transporte que, por essas dolorosas vias, mantinham ligadas, para sobreviverem, as terras e as gentes. Vivia-se, quase exclusivamente, da agricultura familiar e de subsistência. Os cereais eram a principal moeda de troca para aquisição de outros bens essenciais, incluindo os serviços do médico.

Das hortas, da matança anual do porco e da capoeira alimentavam-se as famílias que, ciclicamente, tinham ou não para comer, conforme a terra, bem regada com o seu suor, se abria em colheitas férteis que até para o gado chegavam, ou se fechava adormecida na dança das estações, não restando para pôr na panela mais que as batatas, guardadas no palheiro, e as folhas de couve ratinha que resistiam às invernias rigorosas, “adubadas” com toucinho da salgadeira, se era ano de não haver azeite.

A generalidade da população vivia em casas pequeníssimas, escuras, sem conforto algum nem as mínimas condições de higiene. Nos quartos, onde a inexistência de janela era regra, cabiam apenas os bancos que suportavam a enxerga de palha centeia ou o colchão de capuchas de milho, arremedo de cama, sem lençóis, cujo único agasalho eram as mantas de trapos que as mulheres sabiamente rasgavam, torciam com o fuso e juntavam no tear. Nas cozinhas, térreas ou de lage, onde o castanho acinzentado do xisto das paredes, dava lugar ao negro retinto, provocado pelo fumo das lareiras, sem chaminé, fazia-se a vida social das famílias. Nas longas noites de Inverno só ali se acendia a candeia, única luz de toda a casa, que a mãe, sempre a última a ter direito ao descanso, apagava antes de se deitar.

Em cada povoação, uma ou duas casas sobressaía do conjunto nivelado pela pobreza. Maiores e mais arejadas, com vidros nas janelas, quartos com cama e lavatório de ferro, já tinham lençóis e toalhas de tear em linho ou estopa; na sala havia um relógio, de pé ou de parede, um louceiro, mesa e cadeiras. Foram as cozinhas destas casas que primeiro tiveram chaminé. Eram as residências de quem tinha mais propriedade, um criado, uma junta de bois, dois ou três porcos, um rebanho e um pastor.

Embora cada família trabalhasse e vivesse dos seus dispersos retalhos de pequeníssima propriedade, por ocasiões de tarefas específicas que requeriam mais braços, fazia-se vida de entreajuda nas ceifas, malhas e debulhas, na apanha da azeitona e matança do porco, nas festas de cada lar, no nascimento, na doença e na morte todos eram solidários. 

Para os mais abastados trabalhavam, à jorna, os que menos tinham. Porém, patrões e jornaleiros, dobrados à terra, curvados sob o mesmo sol, mourejavam, num esforço hercúleo, para conseguirem o pão de cada dia. Aos primeiros, sobrava-lhes o suficiente para porem alguns filhos a estudar num Seminário. Aos segundos restava-lhes a porta da emigração. O que a terra dava não chegava para as numerosas proles de cada família que, por isso, nem mandavam os filhos à escola primária, porque pô-los a servir, como criados ou pastores, era uma fonte de receita necessária ao agregado familiar, ajudando ao sustento dos mais novos.

As sopas de vinho, tão ironizadas hoje, como sinónimo de ignorância das gentes, eram, quantas vezes, recurso único para matar a fome aos que ainda não comiam da bacia comum, as couves, o toucinho, a farinheira e a broa de milho. Mergulhar bem nas dificuldades desse tempo, só superadas na crença profunda em um Deus-Pai que ampara e ajuda, é compreender como só vocações sacerdotais, de fora aqui chegadas, podiam ganhar raízes, quer fossem médicos, professores ou simples artesãos.

Mais desafogados viviam os poucos comerciantes que acumulavam a actividade com a sua casa agrícola e, podiam ajudar os que menos tinham, vendendo fiado em troca do cereal ou do azeite que lhes era entregue no tempo das colheitas. Eram como uma verdadeira banca de crédito, indispensável àquela gente pobre, mas lucrativa como toda a banca e, sem regulamentos definidos ou controlos, apenas dependente da boa consciência dos “banqueiros”.

Outra autêntica instituição financeira, verdadeira Bolsa de Valores, nesses tempos em que não havia pinhal, era a criação familiar de juntas de bois e o seu mercado mensal. Os bezerros adquiridos ajudavam na lavoura enquanto cresciam e engordavam para, meses depois, voltarem ao mercado e deixarem de lucro algumas notas. Tão importante este negócio para os pequenos lavradores que até tinham organizada uma mútua de seguros para as perdas por doença. Era esta a moeda que circulava na região, além dos magros ordenados dos poucos funcionários públicos.

Em cartas datadas de 21 de Abril e 2 de Junho de 1920, já Acúrcio Castanheira, ainda na descoberta de si próprio e do meio, levanta o véu às precárias condições do espaço físico e social em que trabalhava:

“Este mez não tem sido de muitos lucros, por enquanto, apesar de algum trabalho. Nem sempre podemos trabalhar para quem pode e às minhas obrigações não gosto de faltar. Não é meu feitio desprezar o pobre e como tal algumas sahidas tenho feito sem remuneração. Há dias deram-me duas perdizes, pagando serviços grátis. Eram do primeiro doente pobre que tive de socorrer fora da vila. Mesmo pobre conseguiu uma oferta!” (BATISTA, 1999a: 27).

“Se te disser que sahi de casa às seis horas da manhã. Fui ao Pergulho e d’ali até à Moita e depois Proença. Calculo ter andado umas cinco léguas, a cavalo claro está, tudo isto por causa das malditas dysenterias de sangue. Tenho tido sorte com elas. Já visitei dois doentes depois de sacramentados e bastante aperriados, mas com um bocadito de sorte salvei-os. Isto dá lugar a que não fique um dia em casa. Este caso de hoje, isto é, o pior, tenho também esperança em salvá-lo. Correndo-me as coisas assim ando bem disposto, embora com algum trabalho.” (BATISTA, 1999a: 27).

Vivia-se na época a dura realidade das consequências da pneumónica. Não havia família que não estivesse de luto. Ainda se choravam os mortos e rezavam Ofícios pelos que a epidemia ceifara, fora o número impressionante dos que, à parte os surtos epidémicos, morriam dos pulmões. Convivendo com a doença profissionalmente, já no último ano do seu curso – pois na fase mais grave da epidemia foram os finalistas de medicina que auxiliaram os médicos da província no combate ao flagelo – indigitado para prestar serviço na zona de Figueiró dos Vinhos, viveu impotente tragédias humanas terríveis. Famílias inteiras deixaram de existir. Ao longo da vida, Acúrcio nunca esqueceu esse tempo pandémico que marcou a sua iniciação na vida profissional de médico. A esses respeito contou aos seus próprios filhos como, para proteger uma mulher em plena doença, tratou do funeral do marido, morto no quarto ao lado, cujo corpo fez sair pela janela, sem que a doente se apercebesse da viuvez e continuou a fingir visitá-lo até que ela ficou fora de perigo. Também, como acompanhou a loucura do médico local que, não conseguindo dominar o pânico, se recusava a sair do quarto, trabalhar e receber visitas para não ser contaminado. Era o colega a única pessoa consentida junto de si. Foi ele, por isso, que um dia, na visita regular da manhã, o encontrou sem vida. Tinha posto fim à angústia pelas próprias mãos.

As doenças virais de contágio respiratório foram desde sempre o grande problema e o objecto maior da sua causa científica e humanística. Mas eram também um inimigo muito pessoal. Ora, a tuberculose não era uma epidemia passageira mas sim doença terrível, altamente contagiosa porque podia transmitir-se por muitas vias incontroláveis, desde o ar aos alimentos e, ao tempo, sem vacina nem antibióticos, o ano inteiro dizimadora da juventude desses tempos. Perdera um irmão muito querido que tratara, em Figueiró, vitimado pela pneumónica e, em 1920, já vira falecer de tuberculose dois cunhados e sabia outros dois doentes, que vieram igualmente a falecer, sendo a própria esposa uma esperada sobrevivente. Estes casos são uma forte amostra do drama real que foi a sua vivência das doenças pulmonares. O seu interesse nesta temática era de tal ordem que decidiu dedicar-se ao estudo da sua profilaxia e cura, tendo subordinado a este tema a tese de licenciatura: Tuberculose Pulmonar (Sua história e profilaxia), 1919. De tal modo se sentia preparado para o seu acompanhamento e tratamento possível que, no seu primeiro papel timbrado para receitas, podia ler-se: “Doenças pulmonares; Partos; Sífilis”. Um dia, ao ser confrontado com a pergunta da sua filha Albertina “Porquê Proença?”, Acúrcio Castanheira não hesitou em responder: “Pelo excelente clima. Quis o melhor para minha mulher e meus filhos. Tu sabes que os tios de teus irmãos sucumbiram a doenças pulmonares”. O micro-clima de altitude, caracterizado por ar seco e muito oxigenado, como definiu o clima de Proença, foi o álibi que fez dela terra de eleição para, por amor aos seus, em primeira instância, se fixar.

“Médicos a trabalhar em idênticas condições houve muitos por este país fora! Júlio Dinis, ele próprio médico, em As Pupilas do Senhor Reitor pintou o seu imortal João Semana. Mas criou-o seguramente à imagem de todos os que conheceu. E a verdade do retrato permitiu reconhecê-los por toda a parte neste país. Figuras de João Semana dispersas do Minho ao Algarve, passando talvez, sobretudo, pelos pobres Trás os Montes, Beiras interiores e Alentejos, desconhecidas a maior parte, não são tão escassas como distraídamente se imagina. Acúrcio Castanheira é um desses. Na terra que lhe aconteceu, Proença-a-Nova, trabalhou cinquenta e cinco anos, sem férias, vinte e quatro horas de serviço por dia, sem horários no consultório ou de visitas ao domicílio na Vila ou por caminhos, debaixo de chuva ou neve, fustigado pelo vento ou sob o calor de sol ardente, de dia ou na escuridão da noite para chegar às povoações, toda a vida mantendo o seu caracter pessoal: nem a pobreza e a falta de condições do meio, nem o isolamento, nem as agruras, nem o magro pão de cada dia, o fizeram demitir-se do dever, ou descair da Esperança!” (BATISTA, 1999a: 33).

“Na medicina acompanhou tudo: dos chás às papas de linhaça, das ventosas às sangrias e às pontas de fogo, das recomendações de ovos, de leite, de ares, de banhos, de longos repousos e de medicamentos receitados para aviar na oficina da farmácia – misture e mande, mais doze iguais; percorreu as vacinas sucessivamente descobertas, rejubilou com as sulfamidas e novos medicamentos que a química foi proporcionando; recebeu, feliz, a penicilina e todos os antibióticos que a seguiram. Usou os avanços dos meios auxiliares de diagnóstico. Tudo acompanhou, tudo desejou e com entusiasmo festejou, quando com o tempo iam chegando, e tudo usou, continuamente actualizado: pela sua biblioteca ao longo do tempo renovada – na Livraria Moura Marques de Coimbra teve sempre conta aberta – mas também, pelo relacionamento assíduo com problemas médicos e cirúrgicos através de contactos com professores e colegas amigos, indo ao seu encontro quando acompanhava doentes a Coimbra. A Ciência para ele era uma segunda religião. Acolhia as novidades com confiança total. Já não pôde conhecer grandes progressos na cura do cancro, mas acreditava que ela ia acontecer. No caminhar do mundo, a chegada da rádio, da televisão e a ida do Homem à Lua, no plano material tanto como no espiritual, o acontecimento religioso do Concílio Vaticano II, ou a esperança de progresso que poderia advir da mudança do 25 de Abril, mesmo quando o apanharam já na década dos seus setenta anos, foram vividos com exuberante alegria. Nos últimos tempos dizia um dia: ‘Não vou viver muito mais tempo e tenho pena. Porque vêm aí muitos prodígios da ciência e eu não vou ver!’ Tudo o que era para bem – crescimento e dignidade do Homem e da sociedade – tinha nele um estudioso, um entusiasta, um apoiante.” (BATISTA, 1999a: 33-34)

Durante toda a sua vida Acúrcio Castanheira foi um fiel apóstolo e combatente pela causa da Saúde Pública. Foi Subdelegado de Saúde do Conselho de Proença-a-Nova desde que tomou posse como Médico Municipal, embora a nomeação oficial para o cargo só tivesse sido publicada no Diário do Governo de 17 de Maio de 1920, até à aposentação em 1965. Foi devido à sua extremosa dedicação e zelo profissionais, nomeadamente, na aplicação exigente de medidas de prevenção, que desde a sua chegada ao Concelho de Proença (e não obstante a miséria e a ausência prolongada de hábitos e condições de higiene que ali persistiam), foi possível ver erradicadas do seu território, doenças mortíferas ou que deixavam marcas, como as (bexigas) varíola, o tifo (febre tifóide), o garrotilho (difteria) e a tuberculose. De 1920 até à criação do Centro de Assistência Social em 1947, realizou, sozinho, periódicas e diversificadas Campanhas de Vacinação que, ano após ano, empenhadamente solicitava e executava, quase que ao domicílio, por todas as freguesias e aldeias maiores ou mais distantes do concelho. Tinha apenas a colaboração dos párocos e dos professores primários. Os primeiros liam, nas Missas dominicais, os avisos à população. Os segundos, cediam as instalações das escolas e ajudavam incentivando as pessoas e fazendo o registo dos vacinados. Também o Sr. António Inácio, barbeiro de profissão e zelador da Câmara, foi seu “assistente e escriturário” nestas assíduas andanças profiláticas pelo concelho. Quando começou a ser necessário elaborar, em triplicado, mapas do serviço realizado, ao serão, a família ajudava, escrevendo dois, o que um terceiro ditava, porque não havia fotocopiadoras e o papel químico era manhoso e caro.

Em cartas datadas de Abril de 1920, Acúrcio Castanheira relata à família que só numa escola vacinou oitenta e cinco rapazes e raparigas e que no dia seguinte a vacinação continuaria, prevendo muito que fazer. Referia-se à vacina, já obrigatória, contra a varíola sobre cuja erradicação António Castanheira (irmão mais velho de Albertina, e médico também) comentava: “Não me lembro de ouvir falar de bexigas, desde criança, e quase desafio quem me desencante proencenses bexigosos.” Outros males como a lepra e o bócio, lhe mereceram igual atenção e acompanhamento na prevenção e extermínio. Segundo a sua filha Albertina: “ainda recordo a regularidade com que, os poucos que nos anos quarenta sofriam de lepra, iam ao consultório buscar os medicamentos que o Hospital Rovisco Pais de Coimbra enviava para tratamento ambulatório, sob responsabilidade do Subdelegado de Saúde. Conhecia-os porque, só a eles, a criançada da casa não devia abrir a porta, sem a presença de um adulto.”

Ainda segundo testemunhos de António Castanheira, (memórias dos seus vinte anos quando, com os estudos interrompidos, foi funcionário da Tesouraria de Finanças em Proença e, colaborador interessado e crítico do trabalho e das condições físicas e psicológicas em que o Pai o exercia): “existia lepra mas não era um flagelo na zona. Mesmo assim, o medo dela assustava a população perante a suspeita. Sobretudo depois da bem intencionada Leprosaria Rovisco Pais, as populações denunciavam os suspeitos. Lembro-me que fui um dia aos Carregais, serra fora, por causa de uma pelagra. Acompanhado pelo António Inácio, para impor respeito. Toda a gente fugia à nossa aproximação!”.  A pelagra é uma doença com manifestações nervosas e cutâneas nas áreas expostas ao sol, logo aparecendo no Verão Verão, em pessoas com avitaminose provocada pela exclusiva ingestão de pão de milho. A boroa era a dieta anual, lá vinha o calor e… mais lesões da pele. “Era preciso conhecer a lepra, mas também o que ela não era e Acúrcio Castanheira sabia-o.”

O bócio também afligia as comunidades locais com relativa frequência, especialmente na área sudeste do concelho. Principalmente mulheres, com um grande papo no pescoço, visível quando o calor as obrigava a desatar o lenço, era imagem muito comum até aos anos cinquenta. Foi por intermédio do Subdelegado de Saúde, através dos Serviços distritais, que nos anos sessenta chegou às escolas primárias das zonas mais atingidas o suplemento alimentar para as crianças que, com a melhoria das condições económicas, ajudaria a eliminar o problema. 

Porém, flagelo maior que os antes citados era o tifo, a febre tifóide, porque profundamente instalado como doença endémica, com seus picos sazonais, que, sem escolha de idades, matava todos os anos numerosas pessoas de entre as muitas dezenas de doentes. Vítimas do tifo eram, em primeira instância, as mesmas que no dia a dia sofriam de um cortejo de males provocados pelas más condições higiénicas gerais, do ambiente e dos costumes. Em segunda instância aqueles que, por se movimentarem no mesmo labirinto social, nomeadamente crianças, eram contagiados. “No tocante à febre tifóide, sou testemunha da calamidade da doença quando entre 1938 e 1942, depois de sair da Tesouraria, prestei cuidados de enfermagem por todas as aldeias dos arredores de Proença, a vigiar doentes, a dar injecções e administrar balões de soro e a assistir a grandes ansiedades, ver morrer jovens e velhos e saber que se contribuía para salvar mais alguns que os valentes, todos múmias vivas escapadas, viravam fomes sôfregas, quantas vezes sem terem com que as saciar!” – assim recorda António Castanheira.

Perante quadros tão comuns e desumanos, Acúrcio Castanheira não se coibiu de fazer sua  a missão de lutar contra o flagelo da febre tifóide em toda a área do concelho de Proença. Enquanto   Subdelegado de Saúde colocou em marcha uma Campanha de Vacinação, pesasse embora, sobre ele, uma grande responsabilidade e maiores trabalhos. A febre tifóide era endémica e, no começo das chuvas, muitos poços eram inquinados pela infiltração das águas poluídas pelas fezes depositadas em todos os terrenos e caminhos. Não existiam casas de banho, as pessoas faziam as necessidades em qualquer recanto e nos currais, cujo estrume servia para adubar as terras. Então, brotava o pico anual da endemia, que fazia doentes em várias casas em cada povoação e, muitas vezes, vários doentes em cada família. Não havia sulfamidas eficazes e estávamos ainda muito longe de chegar à cloromicetina.

Mas Acúrcio Castanheira sabia que na Grande Guerra de 1914-1918 a vacinação nas trincheiras tinha evitado já muitos mortos. Porém, apesar da eficácia ser conhecida, a vacina continuava a não ser ainda obrigatória. O Subdelegado de Saúde de Proença aproveitando o empenho e apoiando o Delegado de Saúde do Distrito, Dr. Lopes Dias, requisitou e obteve da Direcção Geral de Saúde de Lisboa, as doses de vacina necessárias para uma campanha concelhia. A vacina era injectável, e eram precisas duas inoculações, a meses de intervalo, para obter eficácia completa. No primeiro ano as pessoas não acreditavam, muitos fugiram ao incómodo ou ao desconhecido. Mas, no segundo ano da Campanha, não faltou ninguém. No fim do pico epidémico seguinte à primeira vacinação, só os não vacinados adoeceram. Todo o povo ficou rendido a este milagre da medicina. Passando até, nomeadamente, o ciclo da propagação pela conspurcação das terras e estrumeiras pelas fezes de infectados, o seu número reduziu-se e o grau da endemia caiu abruptamente. Estávamos nos anos da Segunda Guerra, por volta de 1943-1944, quando se fizeram estas campanhas de vacinação da febre tifóide. 

Quanto à tuberculose, nunca foi na zona, problema de maior. Salvo alguns casos isolados, apareciam para se tratarem “a ares”, alguns emigrados adoecidos pelas “Lisboas”. Acúrcio Castanheira acompanhava-os como a medicina dos tempos aconselhava. A sua sensibilidade para este terrível mal era não só profissional mas também sentimental. Diz Albertina Castanheira: “Estremecia quando ouvia alguém tossir!…E as crianças, no primitivo Centro de Assistência, foram sua particular atenção, na detecção das primo-infecções.” Para a cura de tosses persistentes, recomendava boa alimentação: ovos e gemadas diárias. Quando a vacinação com o BCG apareceu, empenhou-se nas campanhas de cobertura total da população infantil, como o fizera com outras doenças, nesses tempos já com a ajuda das funcionárias do Centro de Assistência.

A sua filha Albertina recorda esses tempos de grande azáfama no combate às doenças pulmonares: 

“Épocas houve em que as Campanhas de Vacinação lhe exigiam tantas deslocações pelo concelho que a Câmara lhe atendia o pedido de atribuição de subsídio para fazer face às despesas acrescidas com transportes, quer fosse cavalo ou carro. Carro e cavalo eram seus e essas ajudas, para desgaste, gasolina ou palha, eram “pequenas rações” que, logo a seguir eram cortadas, como se constata pelas actas das reuniões da Câmara próximas àquelas em que tinham sido concedidos, como suplemento adicional ao vencimento, ficando como sempre por sua conta as despesas com transportes ao longo dos tempos, porque estas, contabilizadas, teriam exigido certamente mais e maiores subsídios. Pela sua natureza, não raro, estas funções oficiais lhe acarretaram contrariedades devido à pouca instrução do povo aliada a interesses particulares que nem sempre coincidiam com a defesa da saúde pública e com a legislação em vigor que entendia dever cumprir. Lembro a falta de higiene pública, as fontes de mergulho, as estrumeiras nas ruas, os currais dos animais paredes meias com as habitações, as moscas e as doenças de Verão que elas transmitiam, como as disenterias e, consequentes desidratações, que muitas vidas de crianças ceifaram na primeira infância. Mas também o descontrolo no licenciamento da abertura de tabernas e ausência de horário de encerramento das mesmas, o mercado dos bois dentro da Vila, a urgência de saneamento público, foram questões quentes que se arrastaram por muitos anos, entre ele, as autoridades locais e alguma população. Oficiava, falava, fazia pedagogia formativa no jornal local e junto das populações, promovia palestras, propunha soluções de remedeio – baratas para evitar a desculpa de falta de verbas – como a construção de nitreiras, higiénicas e produzindo adubo de qualidade, melhor que o das estrumeiras e com os mesmos desperdícios deitados nelas mas, nada era ouvido.  Paciência!… Não se pode acordar antes dos outros abrirem os olhos!…Depois, até alguns voluntariamente cegos e moucos, vêm fazer, tarde demais, mas como se fossem iluminados o que há muito poderia ser orgulho seu e da Terra, tendo evitado doenças e contribuído para uma melhor qualidade de vida das populações, o que aliás, também não seria da sensibilidade geral desses tempos.” (BATISTA, 1999a: 44-45).

A Saúde pública foi para ele “um quebra cabeças – sempre!”. Mas Proença-a-Nova, neste domínio, não era um caso de excepção: era antes “o exemplo acabado daquilo que, por todo o interior do País se passava: serviços e poder enviesados, aturando-se ou ignorando-se mutuamente, adiando, voluntária ou involuntariamente, o progresso, até ao limite possível. Pelo meio, os que tinham perante a coisa pública, espírito de serviço e recta intenção, eram ignorados, perseguidos e silenciados” (BATISTA, 1999a: 47).

Acúrcio Castanheira viveu a sua profissão médica como se esta fosse uma vocação missionária. A sua própria filha Albertina reconhece que toda a carreira de seu pai se pautou por “valores vividos” que “fizeram dele um autêntico franciscano, um médico missionário, dentro dos apertados limites do Partido Médico de Proença-a-Nova, onde a pobreza era rainha e, juntamente com o analfabetismo, reduzia as pessoas à condição aparente de seres inferiores”. Entre esses valores contavam-se, por exemplo: a relutância em receber dinheiro por parte de quem não o tinha (prestava serviços médicos gratuitos sempre que suspeitava que o seu doente vivia em apuros económicos); a incapacidade de abandonar à sua sorte um doente pobre (pagava, por sua conta, medicamentos na farmácia destinados a doentes); o incómodo que sentia pelo facto de possuir bens não acessíveis a outros, pois acreditava que “todo o ser humano tem dignidade igual e o direito de a viver também materialmente”. Ao longo de toda a sua vida este médico não só limitou “voluntariamente” os proventos da sua profissão, como de facto “socializou”, a suas próprias expensas, os cuidados de saúde na região de Proença-a-Nova. Tudo lhe passou pelas mãos, e a nada ele se negou: “consultas, assistência ao domicílio, actos de enfermagem quando a não havia, tratamentos, pequenas cirurgias, partos, acompanhamento de doentes fora da terra e, nem a distância, nem o mau tempo, nem a noite, nem os maus caminhos, nem a perplexidade de uma emboscada, em tempos de ameaças, nem a certeza de que para além do serviço clínico, quantas vezes repetidamente continuado, tudo seria por sua conta, até à cura desejável, o desmotivavam”. Atendendo constantemente às emergências e condicionantes socio-económicas do meio rural e empobrecido onde vivia, durante toda a sua carreira de 55 anos Acúrcio nunca pôde, efectivamente, usufruir dos rendimentos que auferia como médico, pago pelo Estado. Se assim tivesse sido, certamente a sua existência (e a dos seus familiares) teria sido “bem mais desafogada”. Albertina Castanheira assim o relata: 

“Foi o agradecimento em géneros, pelos serviços gratuitos prestados, numa generosa reciprocidade e trilhando caminhos idênticos para socorrer ou agradecer, felizmente em grande escala, que tornou possível a Acúrcio Castanheira sustentar a família e educar oito filhos, com os sempre magros vencimentos oficiais que auferia e a soma dos valores simbólicos de cada avença, só significativa porque recebida junta. Das povoações próximas ou distantes, a pé, vinha muitas vezes em cesto carregado, feito quase sempre por quem o transportava, nele se empenhando em colocar: batatas, azeite, ovos, enchido, hortaliça ou fruta e até, no cimo de tudo, bem resguardados em folhas de couve, dois queijinhos frescos e, em guardanapo branco, as broas de mel ou as cavacas que o Sr. Doutor gostava tanto! Na mão, ainda, a cesta com uma galinha ou outro animal de capoeira!” (BATISTA, 1999a: 55).

Naquele tempo, a chamada “avença” era um sistema retributivo que permitia a alguns médicos de província (por conseguinte, residentes em meios pobres), garantirem a sua sobrevivência económica. Esta era uma solução viável para o acesso das famílias à assistência na doença, independentemente do número de pessoas do agregado familiar e das suas necessidades de saúde. Ali se incluíam os serviços prestados no consultório, ou em casa dos doentes, pelo período de um ano. Cada família contribuía com um pagamento anual único (por norma, um alqueire de trigo, mas também o centeio ou o milho, conforme a produção de cada ano e as posses de cada família). Todos contribuíam individualmente em beneficio daqueles que tivessem a infelicidade de estar doentes. Este sistema retributivo, por um lado, “tinha a vantagem de desinibir os que, por falta de meios, podiam deixar de recorrer aos serviços médicos de que necessitassem, evitando assim situações extremas, quantas vezes a morte” mas, por outro, “tinha a desvantagem de ser porta franca para se abusar do médico, muito especialmente das chamadas ao domicílio, sem justificação.” Foi no pós-Segunda Guerra Mundial (em finais da década de quarenta), numa época em que o pinhal começava a ser uma importante fonte de rendimento para a população em geral (através da exploração da resina), que esta avença passou a ser paga em dinheiro (cinquenta escudos ao ano). E assim continuou durante alguns anos. Subiu para oitenta e, à data da aposentação, o médico com setenta anos, era de cem. Com a passagem de Acúrcio Castanheira à situação de aposentado, terminou o sistema de avenças em Proença-a-Nova. Os serviços das Caixas de Previdência, já existentes, e depois da Casa do Povo, cobriram toda a população, sendo por isso desnecessária (BATISTA, 1999a: 56-58).

Na época do recém-criado Partido Médico de S. Pedro do Esteval (1935), Acúrcio Castanheira suspendeu as avenças, permitindo assim que cada família, em liberdade, escolhesse o médico que queria. O seu filho mais velho, António Castanheira, que nessa época cumpria horário na Repartição de Finanças, após encerrado o expediente ajudava o seu pai nos trabalhos de enfermagem na vila e, sobretudo, pelas povoações: dava injecções, verificava a febre e trazia referências sobre o estado dos doentes. Por este motivo estava a par de quase todo o trabalho do pai, verificando que raramente este fazia “registos”, e “muito menos cobranças”. Quando António chamou a atenção de seu pai Acúrcio para esta falta, ouviu em resposta: “A minha vida não é balcão” (BATISTA, 1999a: 58-59). Acúrcio Castanheira ainda hoje é lembrado pela filha Albertina como um “homem de fé” , “um crente nato e puro” que, não obstante, “necessitou de alguns períodos de afastamento da prática religiosa local, para marcar distância quando neles considerou haver beatismo ou clericalismo”. Proença-a-Nova, à semelhança de muitas províncias rurais portuguesas nessa época, era uma “terra de manifestações de crença”, com as suas “maravilhosas Imagens da Igreja Matriz ou da Misericórdia, tal como o Santíssimo Sacramento”, cujas procissões “eram uma ‘mó’ de povo!”. Embora ausente da prática religiosa pública, Acúrcio Castanheira respeitava e, a seu modo, integrava estes rituais simbólicos do Sagrado que marcavam o calendário e a devoção popular. Quantas vezes, do interior da sua casa, junto à janela se ajoelhou perante a passagem da “Custódia com o Santíssimo Sacramento, o Senhor dos Passos, o esquife com o Senhor Morto, ou qualquer das Imagens de Nossa Senhora”. Era devoto de Nossa Senhora, e no seu percurso das visitas aos doentes ou em família, rezava diariamente o Terço (BATISTA, 1999a: 66-69).

Albertina Castanheira testemunha os tempos difíceis vividos naquela região, e em todo o país, por todos em geral, e pelas pessoas de “fé” em particular. Relembrando os tempos que se seguiram ao seu regresso a Portugal, Albertina escreve, também a propósito de seu pai: 

“Quando em 1975 regressei de Angola, viviam-se em Proença-a-Nova e em todo o País, tempos difíceis. Quase não se sabia quem era quem e, os atropelos à dignidade, à honra, à crença e à liberdade de cada um, eram uma constante. Política e religião enovelaram-se de tal ordem que foi difícil manter equilíbrio, separar águas e ficar de pé. Noutras localidades da região teve que procurar os Sacramentos, porque aqui era incompatível ser-se cidadão livre e, simultaneamente, praticar-se a religião católica. No entanto, convicto de trilhar caminho que entendia certo, foi até onde os ideais da Revolução de Abril não colidiam com a sua convicção religiosa e Fé esclarecida. Magoado, contou-me:

– Vê tu, quiseram tirar a imagem de Nossa Senhora do átrio do edifício do Colégio. Não conhecem o Acúrcio Castanheira! Disse-lhes que isso só aconteceria se passassem por cima de mim. Escola Secundária e direitos do Povo não brigam com a Fé. É preciso ter limites. Escola de todos, para todos, sim. Banir Deus e Nossa Senhora da Escola, nunca!” (BATISTA, 1999a: 77)

(…) Alicerçado na velha máxima que assemelha o mestre-escola ao médico: Se a criança aprende – é inteligente, se o contrário se verifica – o professor não presta. Se a doença grave cura – é milagre; se o doente não resiste – a culpa é do médico.” (BATISTA, 1999a: 84)

Os aspectos da vida profissional de Acúrcio Castanheira, mais dignos de registo, estiveram sempre ligados à “coisa pública”, designadamente: a criação do Partido Médico de S. Pedro do Esteval (1935) e o Hospital de Proença-a-Nova (inaugurado em 1953), e o Centro de Assistência Social Materno-Infantil (1946). 

Quanto ao Partido Médico de S. Pedro do Esteval, importa antes de mais referir que a povoação e respectiva freguesia de S. Pedro do Esteval, situadas no extremo Sudeste do Concelho de Proença-a-Nova era, em 1930, uma das mais pobres e isoladas daquela região. 

“Os vinte quilómetros que a separavam da sede do concelho representavam, nos anos trinta, distância temível para quem tinha de a enfrentar a pé, de burro ou de carroça, por caminho mal acabado de piso irregular, poeirento ou enlameado. A aridez desta zona, a mais seca de todo o Concelho, nunca permitiu desafogos às suas gentes. Além da abundância de estevas, vegetação espontânea imortalizada na sua designação – Esteval – nada mais aparecia aos olhos do visitante, a quem, pelo caminho, forçosamente se punha a interrogação: de que vive esta gente? Era preciso embrenhar-se para as bandas da Lameira de Ordem e do Padrão para as hortas viçosas se mostrarem e as searas cobrirem outeiros, onde a esteva já não era a única planta capaz de sobreviver.  Riqueza, possuíam a mais digna: o carácter nobre e a inteligência das suas gentes. As crianças de S. Pedro distinguiam-se nos exames da quarta classe que, então, se realizavam na sede de Concelho.  Mas a freguesia era paupérrima. Na sede, uma loja onde se vendia de tudo: do bacalhau à chita, do petróleo ao açúcar, do nastro ao arame. Só dali se podia falar ao telefone, lá se bebia um copo, acolhido pela simpatia do proprietário, pessoa sempre pronta a ajudar e a resolver problemas de todas as espécies. Cedia espaço para que o médico desse consulta, fazia de enfermeiro nos serviços a prestar durante a semana e era, simultaneamente, presidente da Junta de Freguesia, apoio do professor, braço direito do pároco. Não havia: electricidade, farmácia, casas para aluguer, caminhos transitáveis a ligar as povoações… À Vila só se vinha em dia de feira e pela Semana Santa. Fora isso, só a urgente necessidade de serviços médicos fazia deslocar as pessoas. Embora todas as povoações do Concelho se nivelassem por pobreza idêntica, a verdade é que estavam mais próximo de recursos vitais e indispensáveis. S. Pedro do Esteval e, pelos mesmos motivos, a freguesia do Peral, sofriam no dia a dia, na pele, a culpa inocente de terem nascido longe. Até as tabelas, estipuladas pela Câmara Municipal, para as deslocações do médico (1º quilómetro 5$00 e os restantes a percorrer 2$50) marcavam essa culpa. Acúrcio Castanheira sempre discordou que aqueles que viviam longe pagassem mais pela deslocação do médico. Tentou, junto dos responsáveis, alterar a situação, mas nunca foi ouvido, nem por isso tendo deixado de agir segundo o seu critério, ficando ele próprio prejudicado. Sereno e convicto, punha a questão: Que culpa tem aquela gente de viver longe da Vila. Já lhes basta a distância que têm de vencer para virem chamar o médico ou comprar o medicamento, ainda hão-de pagar mais por isso?” (BATISTA, 1999a: 86-87)

Durante trinta e três anos (1920-1953), Acúrcio Castanheira dedicou-se ao exercício da medicina em todos os lugares remotos do Concelho de Proença-a-Nova, sem que existisse uma única estrutura de apoio ao seu labor. O Hospital só seria erguido já durante a segunda metade da sua carreira profissional. O Hospital, com capacidade de 21 camas e disposição preparada para mais 20, destinava-se a servir os 17000 habitantes do Concelho de Proença-a-Nova, foi inaugurado no dia 11 de Outubro de 1953 e só aberto ao público cerca de dois anos depois. O custo total da obra chegou aos 1.400.000$00. Para tal valeram os contributos de “patrícios” abastados, e então emigrados em terras de S. Paulo ao Pará, África e de todo o Concelho. Sem o auxílio destes particulares (e do Governo, na aquisição de equipamento), a obra seria “irrealizável”. O Hospital impulsionaria a criação do Centro de Assistência Social, por aprovação de 20 de Abril de 1946. 

No discurso que proferiu no dia de inauguração do Hospital, Acúrcio não se coibiu em manifestar o seu entendimento acerca daquilo que esta obra representava no quadro da assistência na doença em Portugal e, designadamente, nas regiões pobres e isoladas do interior. Perfilava-se, no seu entender, o advento de uma nova era para a realização profissional dos médicos e bem estar da população na doença. 

“A obra que acaba de inaugurar-se – o Hospital do Concelho – é o único melhoramento que na sua esfera de influência assistencial, mais de perto vem em auxílio da saúde individual e colectiva, enquanto que funcionará como instrumento de cura e de alívio ou de isolamento, como medida profiláctica, das doenças infecto-contagiosas.” (Acúrcio Castanheira, cit por BATISTA, 1999a: 102)

Porém, este feito inédito, longamente desejado e reclamado por Acúrcio Castanheira, relevar-se-ia mais uma fonte de decepção pessoal, e até desmerecimento, do que propriamente uma dignificação do médico e cidadão que, ao longo das décadas anteriores, havia servido incansavelmente, e como nenhum outro, a causa da saúde pública naquela região. No turbilhão de cenas e episódios que decorreram no antes e no depois da inauguração do Hospital, envolvendo várias instâncias de poderes locais instalados (nas suas habituais disputas por protagonismo e pelos lugares de destaque na organização e funcionamento do serviços hospitalares), Acúrcio Castanheira haveria de ser relegado para as funções de anestesista e, posteriormente, até desse cargo o haveriam de, injusta e traiçoeiramente, despojar. A longa série de eventos – dignos de “enredo de telenovela” – decorridos neste período da vida de Acúrcio Castanheira culminaria, inclusivamente, em ameaças por parte de colaboradores da PIDE em Proença. A respeito destes “maus tempos” vividos pelo seu pai, Albertina escreve:

“Se colocarmos nos pratos da balança, de um lado: o projecto inovador que Acúrcio Castanheira defendia para funcionamento do hospital, favorecendo a generalidade da população necessitada e a realização profissional de todos os médicos do Concelho, como ele refere no discurso que adiante transcrevo, mais o tempo de serviço que já contava, mais o mérito reconhecido desse serviço, mais a nota de formatura, mais o conhecimento profundo do meio, mais os cargos oficiais de responsabilidade de Saúde Pública que desempenhava na Terra e, no outro prato da balança: tudo o mais que fosse possível pesar para manter o statu quo, incluindo o pormenor de não ser Irmão da Misericórdia, fácil será concluir… Para que lado penderia ela?  (…) Seria lógico, e até justo, que Acúrcio Castanheira, como Subdelegado de Saúde e Médico Municipal, há trinta e quatro anos a exercer medicina no concelho, tivesse opinião sobre o assunto e, mais ainda, direito a expô-la e a ser ouvido. Mas assim não aconteceu. (…). Ao invés de júbilo por uma realização tão desejada, veio a frustração e o desânimo no culminar de uma bem orquestrada sequência de factos que o levaram a afastar-se e voltar a exercer clínica só no consultório e ao domicílio, com evidente dano para seu sentido elevado da profissão e claro prejuízo para si e seus doentes. Ao trabalho no hospital só voltou em 1962” (BATISTA, 1999a: 97-98, 107, 110)

Não obstante estas investidas, o seu “sentido lúcido da responsabilidade”, de quem “não se acomodava na apatia nem na indiferença”, não passariam despercebidos até nas mais altas instâncias. O seu evidente contributo no campo da Assistência Hospitalar, ao nível das regiões do interior do país, valeram-lhe “o convite que recebeu de esferas governamentais na sequência do discurso por ele proferido na inauguração do hospital, para fazer parte da Comissão de Saúde da Assembleia Nacional e mais tarde, do cartão de reconhecimento, enviado pelo então Ministro da Saúde, primeiro em Portugal – Professor Henrique Martins de Carvalho – pelo artigo sobre Assistência Hospitalar publicado no Jornal Comarca da Sertã, na sequência de outros subordinados ao mesmo tema e referentes especificamente à Beira Interior” (BATISTA, 1999a: 110-11).

Mas era o Centro de Assistência Social Materno-Infantil a “menina dos seus olhos”. Criado pelo então Subsecretário da Assistência, Trigo de Negreiros, por aprovação de 20 de Abril de 1946, iniciou as suas actividades em 16 de Abril de 1947, dependendo do Ministério do Interior e subordinado à Comissão Municipal de Assistência de que era presidente Francisco Farinha Tavares. Então Subdelegado de Saúde, com obrigações que lhe advinham do cargo, Acúrcio Castanheira conhecia melhor do que ninguém as profundas carências da população. Afligia-o desde sempre a sua incapacidade económica, e a sua falta de poder, para avançar com projectos que lhe permitissem minorar as causas do desaparecimento de tantas vidas na primeira infância. Sempre que uma lei ou decreto-lei vinha a público, “fazia-se luz no mundo contido das suas esperanças e o que lhe era possível, diligências oficiais e particulares, junto de quem detinha o poder, não o deixava por mãos alheias.” Aliás, seriam poucos, na época, os exemplos de centros sociais deste tipo em funcionamento nesta “vasta região do interior desprotegido”. O contacto assíduo com situações graves de mortalidade infanto-juvenil, agravado pela memória pessoal da infância dos seus próprios filhos, constituíram a maior motivação para que Acúrcio Castanheira pedisse insistentemente (e apoiasse, efectivamente, com trabalho e muita dedicação) a criação e funcionamento do Centro de Assistência Social. A esse propósito, confidenciou um dia à sua filha Albertina:

“- Calcorreei, a cavalo, todos os caminhos da serra que levavam às povoações mais distantes de Proença e de Oleiros, num sofrimento e angústia indiscritíveis! Dia após dia, à procura de uma mulher que amamentasse, e pudesse vir alimentar o teu irmão recém-nascido, porque a Mãe não tinha leite. Não imaginas, é um sofrimento atroz, pior que ver um filho morrer é sabê-lo com fome, dependendo do alimento, que não temos, para lhe dar.

Eu própria, de tenra idade, precisei de reforço alimentar dado por vizinha amiga que, tendo leite em excesso, ao contrário de minha Mãe, generosamente colmatava as minhas necessidades. Tal esse problema foi sentido em família que, existia lá em casa guardado como relíquia, um prato grande e bonito que pelo tamanho se distinguia da restante loiça. Era o ‘prato das amas’. Dizia-nos a Iria, nossa querida ama seca, companheira, amiga de todos nós:

– Tinham que comer bem para darem bom leite.

Tão valioso era esse bem que, quando o ordenado mensal do médico se ficava por 66$00, pagava ele a uma ama de leite 100$00, no mesmo período de tempo! A frequência com que lhe eram solicitados atestados de óbito para recém-nascidos e crianças que morriam na primeira infância, para muitas das quais nem sequer tinha sido pedida intervenção médica, era de tal dimensão, que o incomodava profundamente. Tantos ‘anjinhos’ vi passar à nossa porta a caminho do Carol! Havia dias de dois e era rara a semana em que não se enterrasse pelo menos um. De tão tenra idade que iam numa caixa, forrada de branco, à cabeça de um adulto! (…) Só mais tarde, quando a idade mo permitiu, percebi porque é que dia de funeral de anjinho era dia de Pai calado, ausente, preocupado. Andava de cá para lá e as chaves abanavam nervosamente nas mãos. Parecia que nem nos via.

– Come, homem, não remedeias nada!  Se tu adoeces ainda é pior. Animava-o minha mãe quando ele, à hora da refeição, chegava o prato para o lado dizendo:

– Não vai!

E não ia mesmo. Acúrcio Castanheira era assim: vivia e sentia o sofrimento dos outros como se fosse seu, ao ponto de perder o apetite. Ao ponto de se lhe marejarem os olhos, perante os «porquês» da minha inocência a querer desvendar problemas tão graves.” (BATISTA, 1999a: 114-115)

Com estes cenários de dificuldades evidentes, se defrontou Acúrcio Castanheira ao longo de toda a sua vida, como médico de província. Entre todas essas dificuldades, próprias do tempo e do meio sociocultural em pleno Estado Novo, a primeira e porventura a maior das quais era, precisamente, “a desmotivação das populações, anquilosadas em hábitos e tradições ancestrais”. Segundo Albertina Castanheira (evocando o depoimento da própria assistente do Centro Social, a “Menina Guilhermina”): 

“Foi necessária muita persistência, generosidade, dedicação e certeza de que valia a pena tanto esforço, para que o Centro mostrasse resultados evidentes na profilaxia das doenças e considerável redução da mortalidade infantil, para que os pais se rendessem à evidência e, voluntariamente, procurassem os seus serviços.  (…) ‘No princípio foi difícil motivar as mães. Era através de consultas regulares aos registos de nascimento, que o Registo Civil nos facultava, que se fazia a identificação das crianças nascidas e, por meio de um  bilhete postal, avisavam-se individualmente os pais para comparecerem no Centro dentro do período indicado. Fazia-se o despiste das doenças, vacinava-se as crianças, prescrevia-se a alimentação a seguir, dava-se, para uma semana, as doses individuais de leite ou farinha, embaladas manualmente, ensinava-se hábitos necessários de higiene, etc., etc., Vigiava-se a saúde das mães. Por exemplo deixou de haver peitos para lancetar, porque não chegavam a essa fase. Tudo isto sob a orientação diária e cuidada do Dr. Acúrcio que fazia as consultas, prescrevia e orientava o nosso trabalho.’” (BATISTA, 1999a: 117)

Também na sua faceta de cidadão, ativo e participativo nas coisas da comunidade local, Acúrcio Castanheira sobressaía. Para a inauguração do edifício da Escola Primária, em finais da década de 30 escreveu, musicou e ajudou os professores a ensaiar a revista que as crianças representaram, simbolizando flores, produtos hortícolas e aldeões. Cantada e dançada pelas crianças da escola, na mesma festa da inauguração, a marcha com letra da professora Leopoldina Calado, diz-se ter sido musicada por ele. Quando da criação do Grémio Recreativo incentivou e colaborou com os seus fundadores, dando-lhes entusiasmo, saber e o pouco tempo livre de que dispunha. Mais tarde, já com a casa do teatro construída, apoiou “o talento e carolice do Sr. Matos” e, noutra fase, “não regateou a sua ajuda ao Sr. Falcão” – “homens de grande valor, aos quais Proença muito deve pela sua entrega à promoção de actividades culturais e de solidariedade”.  Nos primórdios do Grémio Proencense, foi Acúrcio Castanheira o dinamizador e ensaiador da tuna e grupo cénico, que refere em artigo de sua autoria, conjuntamente assinado por mais dois dirigentes dos Bombeiros Voluntários da altura (Julho de 1968). Tanto no plano “recreativo” como no “beneficente”, “o cidadão Acúrcio Castanheira” aparece, dando brilho e incentivo a quem tem valor, nunca disfarçando “os sentimentos que nutre por Proença, pela cultura e pela promoção do meio e das suas gentes”. Para a inauguração da rede de saneamento e distribuição de água ao domicílio (1948 – 1949) escreveu estrofes e musicou-as: “foram mandadas copiar em pergaminho e entregues ao representante do governo, presente na efeméride, para serem oferecidas a Salazar, pois que a ele eram dedicadas” (BATISTA, 1999a: 125-137).

Serviu a Corporação dos Bombeiros Voluntários, como presidente da sua Assembleia Geral, durante 17 anos de 1956 a 1963 e de 1965 a 1975. Da sua autoria, em artigos diversos, é algum do historial não registado em documentos oficiais do primeiro quarto de século de vida daquela Instituição. Em Julho de 1973, na inauguração do Quartel próprio, com instalações também para as actividades culturais entendidas necessárias na Terra, referindo-se a elas na parte final do discurso que proferiu: “Tenciono doar a minha modesta biblioteca à Associação dos Bombeiros Voluntários”. E deu. Com dispêndio material significativo e muito carinho, chegou a mandar encadernar as obras de Júlio Dinis, às quais se seguiriam as de outros autores portugueses e adquiriu, propositadamente para o efeito, duas boas colecções uma da Europa-América outra da Editorial Verbo, cujas obras entendeu de interesse a uma biblioteca pública (BATISTA, 1999a: 138).

O cidadão Acúrcio Castanheira não se empenhou apenas no desenvolvimento cultural, pois “a promoção humana e social das pessoas e do meio era-lhe muito querida. Em nome delas escreveu, falou, protestou, pediu, agradeceu e rezou.” Prova disso, ao longo de cinco décadas de vida activa, proferiu inúmeros discursos, e encetou diversas intervenções esclarecidas, “sempre em ocasiões de interesse para o progresso da terra”. De variadíssimas formas exerceu os seus direitos e deveres de cidadania: “só não ia votar enquanto o regime foi de partido único.” Albertina Castanheira recorda um desses episódios:

“Num desses dias de eleições, em que só os homens tinham direito a voto, lembro-me do o ver chegar a casa irritadíssimo e desabafar:

– Isto é o cúmulo! Nem das nossa convicções somos donos… Então não veio agora além, ‘fulano’, ter comigo convencido que me tinha feito um grande favor:

– Vai para votar, Sr. Doutor?

– Não senhor. Vou para ver um doente.

– É que, escusa ter a maçada de lá ir. Já metemos o seu voto” (BATISTA, 1999a: 139).

Fez parte da Conferência de S. Vicente de Paulo, que existia na Paróquia. Tinha a convicção de que “ensinar a pescar era mais eficiente que dar o peixe”. Porém não encontrou eco. Dar 2$50 por semana ao pobre era mais cómodo. Acabou por sair, porque segundo nos dizia, até se envergonhava de levar a quem precisava tão irrisória quantia (BATISTA, 1999a: 139).

Deu apoio ao nascimento do Colégio Diocesano, desde a primeira reunião (promovida pelo Sr. Padre Alfredo Dias). Acúrcio Castanheira cedeu gratuitamente o seu diploma durante toda a vigência daquele estabelecimento de ensino particular, para colmatar a falta de professores diplomados. Além disso, deu aulas gratuitamente durante um ano lectivo, leccionando disciplina (ou disciplinas) da área das ciências, aos primeiros alunos que frequentaram o 2º ciclo. Preparava as suas aulas com o maior zelo e interesse, fazia e corrigia “os pontos”. Embora admitisse que este trabalho “o apaixonou”, dizia “não ser compatível com a vida de médico, pelas constantes interrupções que aquela obrigava”. Assim o recorda a sua filha Albertina, que seria professora: 

“Veio um dia junto de mim com um papel timbrado de receita, no qual trazia um pequeno escrito:

– Ouve lá, diz se gostas. É para rezar com a rapaziada no começo das aulas. 

– E leu: ‘A Ciência e o Bem promanam de Deus / Dá-nos, Senhor, inteligência para aprender / Coração sensível para o bem fazer.’” (BATISTA, 1999a: 141).

No dia em que se fez a cerimónia do lançamento da primeira pedra do edifício do Colégio Diocesano, redigiu e recitou um longo discurso, cuja passagem destacamos:

 “Os actos mais louváveis da governação em geral, não tenhamos dúvidas em colocá-los entre aqueles que tendam a melhorar a saúde pública e a educação popular das sucessivas gerações. Sem a esmerada educação do intelecto e da alma, impossível que vinguem grandezas ou progressos que se não afastem da Verdade. Indispensável, porém, que esta fé na educação e sua pedagogia activa se não restrinja ao ambiente colegial. Convirá que pela sua influência o meio exterior suba em cultura, bons hábitos, melhor moral e sã religião, àquele nível imprescindível ao prestígio do conjunto. Em contrapartida o esforço e boa vontade dos Proencenses ficarão esvaziados de sentido se, por seu turno, o meio exterior não colaborar condignamente com a actividade docente do ensino” (BATISTA, 1999a: 142).

Ainda a respeito de educação, naqueles tempos, Albertina Castanheira discorre:

“Quantos pais de famílias proencenses puderam, antes da existência do Colégio, dar mais que a quarta classe a todos os seus filhos? E quase todos os que o fizeram foi porque os Seminários e Colégios de Religiosas lhes facultavam condições possíveis de suporte económico. Acúrcio Castanheira, com a esposa, terão sido dos poucos que custearam sozinhos as despesas dos estudos de todos os filhos. Para além disso suportaram, como os outros, a saudade dos que só vinham passar férias, mas também a casa vazia, quando já todos rumavam às escolas que aqui não havia, a solidão conjugal, o rigor da partilha de um ‘orçamento’ minguado por duas casas durante quase duas décadas. Nesse tempo, até se pagavam propinas, e, apesar de se terem juntado quatro filhas a frequentar o mesmo liceu, quando as médias o permitiam, o pedido de isenção vinha indeferido devido à profissão do pai. Como não haveria Acúrcio Castanheira de apoiar, primeiro o possível e mais tarde o desejável, no tocante à instrução e à educação dos filhos de Proença-a-Nova?” (BATISTA, 1999a: 144-45).

O Colégio Diocesano resolvia problemas económicos e afectivos de uma parte da população Proencense. A necessidade de um ensino oficial foi-se impondo como inadiável, sobretudo ao nível do primeiro ciclo, e encontrou receptividade e vontade de concretização pelo então Presidente da Câmara, Dr. Eugénio de Matos que chegou a encetar diligências oficiais nesse sentido, mas que foram entravadas. Depois, colocou-se a necessidade da continuidade dos estudos para lá do segundo ciclo – 5º ano – que se fez sentir e, por último, esboçavam-se evidentes problemas de ordem administrativa e pedagógica que se reflectiam nos alunos e nas famílias. Chegado Abril de 1974, os ventos dessa “Primavera de mudança” soprariam em Proença, mas foram “efémeros e dolorosos.” Desse tempo, Albertina recorda:

“Ao contrário do que aconteceu por esse País fora, quem em Proença-a-Nova sofreu perseguições e vexames inconcebíveis foram aqueles, jovens, adultos ou idosos – Acúrcio Castanheira contava 79 anos – que rejubilando com os ideais de Abril, ousaram fazer escutar o que consideraram menos certo e que colidia com direitos fundamentais dos cidadãos, bem divulgados na altura nos grandes meios de comunicação social. Nomeado para presidir a Comissão Administrativa Provisória da Câmara Municipal, Acúrcio Castanheira, vê-se envolvido e responsabilizado no processo de oficialização do Ensino Secundário do qual, pelo lugar político que ocupava e pelos valores que lhe norteavam a existência, foi impossível alhear-se. Não é aqui o local próprio para historiar os factos. Os jovens de hoje, quem sabe, talvez os alunos de história da Escola E.B.2.3/S de Proença-a-Nova o devessem fazer com a isenção que lhes advém de nem sequer serem nascidos na altura e de usufruírem hoje de um benefício que tanta celeuma causou. Dariam uma visão bem mais real e interessante dos factos, nas exposições de trabalhos e nas comemorações que sobre o assunto levam a efeito, mas onde a realidade local tem ficado omissa” (BATISTA, 1999a: 145-46).

A vocação “missionária” de Acúrcio Castanheira – a sua paixão pela “coisa pública” -, estiveram igualmente inscritas na sua “faceta jornalística”, nomeadamente, nos frequentes artigos de opinião e divulgação científica que publicou com regularidade nos principais jornais da Região do Pinheiro (como então se apelidava a zona serrana da Beira-Baixa): O Concelho de Proença-a-Nova, Comarca da Sertã, Mensageiro Paroquial, Notícias da Nossa Terra, Eco de Pombal, Jornal do Fundão, Reconquista, República, entre outros. Na monografia que dedicou à vida e obra de seu pai, Albertina Castanheira compilou e publicou, em volume separado (Volume II), uma colectânea de Escritos por ele redigidos até 1974. Na introdução a este volume de Escritos, Albertina diz:

“Acúrcio Castanheira vivia a sua interioridade intelectual de forma muito intensa e solitária. Em Proença-a-Nova não havia, nesse tempo, muitas pessoas com quem pudesse repartir preocupações e saberes. Assim, a sua escrita é o resultado de vivências muito íntimas, leituras diversificadas, conhecimento do que se passava pelo mundo e profundas reflexões” (BATISTA, 1999b: 8). 

Nos seus artigos de jornal, encontram-se temas que vão desde a assistência médica, social e hospitalar, passando pelos problemas da saúde pública (salubridade, cantinas escolares, ciência da alimentação, asseio, higiene, vícios morais e sanitários, felicidade), até às questões relacionadas com o bem-estar da comunidade (emigração, associativismo, ensino oficial, discursos proferidos na inauguração de edifícios públicos). Sempre atento aos sinais do seu tempo, Acúrcio dedicou ainda longas reflexões e artigos de opinião a temáticas e problemáticas do foro espiritual: humanismo cristão, beneficência, caridade, cristandade, religião, ateísmo, milagres e aparições. 

Para além de artigos jornalísticos, Acúrcio foi um prolixo poeta e um exímio orador. São inúmeros os versos, sonetos, quadras e discursos que redigiu e dedicou a pessoas e instituições da sua estima, em ocasiões comemorativas, eventos culturais, inaugurações públicas. Nas palavras da sua filha, a escrita de Acúrcio Castanheira “é tão só outro ‘aperitivo’ para uma leitura mais completa do seu pensamento em ordem aos problemas sociais, culturais e de saúde pública de então que, além de nos legarem História, poderão servir de referencial na construção positiva e progressiva do futuro.” (BATISTA, 1999a: 131)

Bibliografia

Tuberculose Pulmonar: sua história e profilaxia (tese de doutoramento apresentada à Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra), Coimbra: Tip. Popular de J. Bizarro, 1919;

Artigos de jornal: “A propósito de assistência médica e social”, A Comarca da Sertã (10/06/1961); “Assistência hospitalar na região da Beira Serrana”, A Comarca da Sertã (24/06/1961); “Ainda a assistência hospitalar”, A Comarca da Sertã (19/08/1961); “O problema da salubridade”, Notícias da Nossa Terra (15/12/1960); “Cantinas escolares: reflexões úteis para o povo”, A Comarca da Sertã (13/10/1962)e Notícias da Nossa Terra (15/10/1962); “Cantinas escolares e ciência da alimentação”, A Comarca da Sertã (10/11/1962) e Notícias da Nossa Terra (15/11/1962); “Cantinas escolares e sua função polivalente”, A Comarca da Sertã (24/11/1962) e Notícias da Nossa Terra (01/12/1962); “Insalubridade e alcoolismo: quem nos acode?”, A Comarca da Sertã (27/01/1962); “Atenção Proença! Moral em desacerto”, Notícias da Nossa Terra (01/02/1962); “Atenção, Proença! Apontamentos para a felicidade”, Notícias da Nossa Terra (15/02/1962); “Atenção Proença! Apelo aos taberneiros”, Notícias da Nossa Terra (01/03/1962); “Atenção, Proença! Apontamentos para a felicidade”, Notícias da Nossa Terra (15/03/1962); “Atenção, Proença! Apresentação de desculpas”, Notícias da Nossa Terra (01/04/1962); “Atenção, Proença! Apontamentos para a felicidade”, Notícias da Nossa Terra (15/04/1962); “Fé e felicidade”, Notícias da Nossa Terra (01/09/1962); “Asseio sem higiene”, Notícias da Nossa Terra (15/01/1965); “Caminheiro da saudade, Benvindo sejas!”, Notícias da Nossa Terra (15/01/1961); “Emigração, problema atual”, Notícias da Nossa Terra (01/06/1971); “Divergências desconexas”, A Comarca da Sertã (04/02/1961); “Associação dos Bombeiros Voluntários de Proença-a-Nova”, Notícias da Nossa Terra (15/08/1968); “Discurso proferido na inauguração do Quartel dos Bombeiros Voluntários de Proença-a-Nova”, Conselho de Proença-a-Nova (01/08/1973); “Proença-a-Renovada?”, Notícias da Nossa Terra (01/03/1970); “Homenagem e testemunho”, Notícias da Nossa Terra (15/12/1964); “Colégio Diocesano, esperança da mocidade”, Conselho de Proença-a-Nova (15/07/1960); “Proença-a-Nova e o seu Colégio”, Conselho de Proença-a-Nova (15/10/1960); “Proença-a-Nova: epopeia do ensino oficial”, A Comarca da Sertã (27/12/1975); “Na esteira do progresso vicentino”, Notícias da Nossa Terra (15/05/1964); “Beneficiência paroquial”, Notícias da Nossa Terra (15/12/1966); “Caridade de vanguarda”, Notícias da Nossa Terra (01/12/1967); “Miragem do tempo”, A Comarca da Sertã (13/01/1962); “Política humanista em renovação?”, A Comarca da Sertã (23/06/1962); “Para os que saíram…incongruências do materialismo”, Notícias da Nossa Terra (15/07/1962) e Comarca da Sertã (16/06/1962); “O dinheiro e a nossa felicidade”, Notícias da Nossa Terra (01/11/1962); “O dinheiro e a felicidade II”, Notícias da Nossa Terra (15/01/1963); “O Natal e os nossos tempos”, Notícias da Nossa Terra (01/01/1963); “A eterna lição do Papa João XXIII”, Notícias da Nossa Terra (15/06/1963); “Amor em perigo”, A Comarca da Sertã (20/01/1968); “A Apolo XIII seu drama e meditação”, Notícias da Nossa Terra (01/05/1970); “O sentido da caminhada”, A Comarca da Sertã (24/02/1962); “No prosseguimento da caminhada”, A Comarca da Sertã (03/03/1962); “No prosseguimento da caminhada: o fenómeno humano”, A Comarca da Sertã (10/03/1962); “No prosseguimento da caminhada: Omnia Sunt Sacramenta”, A Comarca da Sertã (17/03/1962); “Cursos de cristandade”, Notícias da Nossa Terra (15/08/1962); “Vale a pena trabalhar pelo Rei Imortal”, A Comarca da Sertã (21/12/1963) e Notícias da Nossa Terra (01/03/1964); “Prévio itinerário/1”, A Comarca da Sertã (28/03/1964) e Notícias da Nossa Terra (01/04/1964); “Prévio itinerário/2”, A Comarca da Sertã (08/04/1964) e Notícias da Nossa Terra (15/04/1964); “Vivências de cursista/1”, Notícias da Nossa Terra (15/08/1964); “Vivências de cursista/2”, Notícias da Nossa Terra (15/11/1964); “A Deus pelo Saber”, Conselho de Proença-a-Nova (15/06/1960); “Deus é. Ateus nunca”, Conselho de Proença-a-Nova (30/06/1960); “Religião e amuletos”, Conselho de Proença-a-Nova (15/07/1960); “Fé por assimilação”, Conselho de Proença-a-Nova (31/07/1960); “A inteligência e a vontade no acto de fé”, Conselho de Proença-a-Nova (15 e 31/08/1960); “O Universo fala de Deus”, Conselho de Proença-a-Nova (01/10/1960); “As cifras astronómicas também falam de Deus”, Conselho de Proença-a-Nova (15/10/1960); “Os Monstros não rezam”, Conselho de Proença-a-Nova (30/10/1960); “Divagações espirituais”, Notícias da Nossa Terra (15/07/1963); “Deus infinito e o Homem imenso”, A Comarca da Sertã (07/03/1970); “Fátima incontestável – I”, Notícias da Nossa Terra (01/04/1972); “Fátima incontestável – II”, Notícias da Nossa Terra (15/05/1972).

Trabalhos sobre o(a) autor(a)

BATISTA, Maria Albertina Castanheira (1999a). Acúrcio Castanheira: O médico e o homem. Volume I. Coimbra: Gráfica de Coimbra.

BATISTA, Maria Albertina Castanheira (1999b). Acúrcio Castanheira: Escritos. Volume II. Coimbra: Gráfica de Coimbra.

Biógrafo(a): Maria Albertina Castanheira Batista

FONTE (Texto): BATISTA, Maria Albertina Castanheira (1999). Acúrcio Castanheira: O médico e o homem. Volume I. Coimbra: Gráfica de Coimbra. [Selecção e edição de textos para publicação neste website: Helena Cabeleira]

FONTE (Retrato): Fonte Própria, Espólio Particular de Maria Albertina Castanheira Batista

Referência da Citação: Quadra dedicada a Acúrcio Castanheira pelo poeta proencense, Padre Paixão (cit por BATISTA, 1999a: 48)

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DIAS, Alfredo

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FERNANDES, Alfredo (1888-1966)

Alfredo Fernandes

Nascimento: Galisteu Cimeiro (21/11/1888)

Morte: Lisboa (13/08/1966)

Biografia

Alfredo Fernandes nasceu em Galisteu Cimeiro (Proença-a-Nova) a 21 de Novembro de 1888, filho de José Fernandes e de Maria do Rosário Fernandes. Faleceu em Lisboa, a 13 de Agosto de 1966. Dedicou a sua vida ao ensino, tendo lecionado na Escola Comercial Rodrigues Sampaio, em Lisboa, e escrito vários livros de didáctica e pedagogia.

O seu livro mais conhecido, Cartilha Experimental: Processo Intuitivo, Analítico, Sintético, Inventivo, Fonomímico e Legográfico, é um pequeno e muito simples manual para ensinar crianças a ler e escrever. A primeira edição terá tido lugar nos primeiros anos da segunda década do séc. XX, mais precisamente em 1919. O autor diz  seguir o “método globalístico”, mas partindo da palavra e não da frase: “Apresento primeiro a palavra, depois a sílaba, finalmente a letra, porque a criança não começa a falar por frases mas sim por palavras.” (p. 5). O manual era acompanhado pelo Vialitra, quadro de leitura auxiliar da Cartilha, que consistia numa caixa-quadro com letras móveis, moldadas e coloridas (ver na contracapa da Cartilha, em cima da cadeira).

Sobre a Cartilha Experimental, é curioso constatar o conteúdo de uma carta enviada do interior Sul de Angola, na fronteira com a Namíbia, a 650 Km de Moçamedes, para sul de Ngiva (Pereira de Eça), por Joaquim Fernandes, um missionário laico enviado pela 1ª República, para ajudar a civilizar os Cuanhamas. De Ompanda, (antiga colónia alemã durante a 1ª Guerra Mundial e sede inicial da missão laica “Cândido dos Reis”), a 30 de Agosto de 1922, Joaquim Fernandes escrevia a Abílio Marçal, Director do Instituto das Missões Laicas, em Cernache do Bonjardim: “Antes de sair daí, um professor oficial, o Sr. Alfredo Fernandes, ofereceu-me um livrinho, para ensino da língua portuguesa, chamado Cartilha Experimental, de sua autoria. Meti-o entre os demais livros da minha bagagem, sem atento exame e para África o trouxe. Só no Lubango é que o li com atenção e confesso que foi boa a impressão que ele me deixou, e tê-lo-ia logo ali experimentado se a aula que eu estava regendo não fosse uma escola oficial pelo método João de Deus. Mas quando vim para aqui trouxe-o, logo com o propósito de o experimentar. Parecia-me que devia ser de êxito para ensino de pretos, e não me enganei. A cartilha é ilustrada com muitas gravuras representativas dos diversos objectos que nomeia, que muitas crianças brancas desconhecem quanto mais os pretos. As crianças que por essa cartilha ensinei mostraram-se desde o início extremamente interessadas, até mesmo entusiasmadas em ver as gravuras e conhecerem os objectos e as suas aplicações, que eu lhes ia explicando. Ao mesmo tempo que eu lhes ia ensinando a compor as palavras e a pronunciá-las, iam aprendendo e compreendendo a ideia do objecto e indelevelmente fixando o termo. E aprendiam em menos de metade do tempo.” (…)

Mais à frente nessa carta, o missionário laico, Joaquim Fernandes pedia a Abílio Marçal que lhe enviasse “uns 100 exemplares” e que, a título de experiência, lhe fosse permitido substituir a Cartilha Maternal de João de Deus pela Cartilha Experimental de Alfredo Fernandes. A verdade é que foram enviados os 100 exemplares e há registos de outros pedidos para as missões laicas a fim ser experimentado o método. Este manual e o método nele proposto foram adoptados em muitas escolas primárias da época, no continente e nas colónias, com resultados muito positivos. Há inúmeros registos de professores que confirmam o sucesso.

Animado pelo bom acolhimento dispensado à Cartilha Experimental, publicou, em 1932, a Vida Infantil: Leituras para a 1ª classe, que é a continuação do anterior, com o objectivo de “acompanhar a criança na sua evolução mental e afectiva, apresentando-lhe trechos cujo assunto se harmonize com os seus interesses, com a sua capacidade intelectual e com o meio em que vive”. No ano seguinte, em 1933, continua a saga didáctica escrevendo Baloiçando: Leituras para a 2ª classe do ensino primário elementar. Constitui a continuação da Vida Infantil e conta a história de uma criança da cidade que, como prémio da sua aplicação no ano anterior, vai passar um ano à aldeia e aí é posta em contacto com a natureza e as coisas da vida.​

Bibliografia:

Trabalhos sobre o(a) autor(a):

Biógrafo(a): António Manuel Martins Silva

FONTE (Texto): SILVA, António Manuel Martins (2013). “Alfredo Fernandes: Um pedagogo proencense”, Palestra proferida na Universidade Sénior de Proença-a-Nova (15 Outubro 2013).

FONTE (Retrato):

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FIDALGO, José António

FOLGA, Joaquim

FOLGA, José Maria Pereira

FONSECA, José de Pina Freire da (General)

FONSECA, Pedro da

FREIRE, Casimiro

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LALANDA, Anastácio

LEITÃO, José Parada e Silva

LOURO, Henrique da Silva

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MAIA, João Francisco

MANSO, Joaquim

MARÇAL, Abílio Correia da Silva 

MARTINS, João

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PADRÃO (Conde do)

PEREIRA, António

PEREIRA, Sebastião José

PIMENTEL, João Maria Pereira de Amaral e

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REIS, Alfredo Martins dos

REIS, Sebastião dos

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RODA, Assis (1890-1959)

Nascimento: Proença-a-Nova (05/06/1890)

Morte: Lisboa (30/03/1959)

Biografia

Assis da Silva Gonçalves Roda nasceu em Proença-a-Nova a 5 de Junho de 1890. Era filho de Francisco Martins da Silva Roda, farmacêutico e de Maria do Carmo Gonçalves Roda, doméstica, residentes na Rua das Pereiras, em Proença-a-Nova, onde nasceu o seu primogénito, Assis.

A 05 de Outubro de 1910 implantava-se, em Lisboa, o novo regime republicano que, por telégrafo, praticamente se estenderia a todo o país com mais ou menos rapidez e facilidade. Todavia, em Proença-a-Nova, as rotinas continuavam como se nada tivesse acontecido e, cinco dias depois, ainda a Câmara Municipal se mantinha monárquica. É apenas no dia 11 de Outubro que um grupo de 62 proencenses foi ao edifício da Câmara, hasteou a bandeira republicana, nomeou uma nova comissão administrativa e aclamou o novo regime. Entre esses “revolucionários” republicanos encontravam-se Francisco Martins da Silva Roda e o seu filho Assis da Silva Gonçalves Roda, de 20 anos de idade. As suas assinaturas constam do auto de aclamação que foi lido e depois lavrado no livro de actas da Câmara Municipal de Proença a Nova. O jovem, já licenciado em farmácia, então com 29 anos, casou civilmente no Posto de Registo Civil de Galveias, no dia 19 de Julho de 1919, com Ana Marques Couceiro, de 25 anos, natural de Galveias (Ponte de Sor), filha de Fernando Valadares Couceiro e de Ana de Jesus Marques Couceiro. A família Couceiro era uma das famílias mais abastadas da região e, para além de terratenente, era proprietária de uma farmácia naquela localidade. Talvez tenha sido a “botica” o elo de ligação entre os jovens, mas as diferenças económicas das duas famílias deveriam ser marcantes pois o casamento foi lavrado em regime de separação de bens. Assis Roda fixou residência nas Galveias. 

Apesar de viver nas Galveias, não esqueceu a sua terra natal. No início dos anos 50 do século XX, em terrenos que pertenciam à sua família, custeou a construção do edifício e doou ao Estado a importância de 500.000$00 para manutenção de uma cantina escolar destinada aos alunos da escola primária de Proença, frequentada diariamente por cerca de 150 crianças. Com essa verba, foi constituído um fundo em Títulos de Renda Perpétua, a 4% ao ano, e os juros revertiam a favor da instituição criada. Assim se geravam 20.000$00 anuais. Para se ter uma ideia dos valores envolvidos, lembro que o ordenado anual de um professor primário naquela época era de 18.500$00. O edifício da Cantina Escolar Assis Roda foi recentemente remodelado e transformado em salas para uso do ensino pré-escolar. Todavia, permanece no local o busto em homenagem a Assis Roda, o actual refeitório ainda hoje utiliza alguns talheres com as letras C.E.A.R. (Cantina Escolar Assis Roda) gravadas e, nas paredes, ostenta os retratos do benfeitor e de seus pais.

A 13 de Março de 1956, doou, por escritura lavrada no 12.º cartório, Rua de S. Julião, n.º 62, em Lisboa, à Santa Casa da Misericórdia de Proença-a-Nova a quarta parte dos seus bens descriminados na referida doação de que existe cópia no Arquivo da instituição beneficiada. No mesmo ano de 1956, doou ainda à mesma Santa Casa a importância de 100.000$00, convertida em títulos de dívida perpétua, para sufragar a memória de sua esposa, entretanto falecida em 1953. Para ajudar a construção do Hospital da Misericórdia de Proença, deu também 20.000$00 no último cortejo de oferendas em benefício da construção do mesmo.

A Misericórdia de Proença ainda hoje preserva a sua memória e o nome Assis Roda consta na galeria dos seus benfeitores, foi referido no estudo monográfico “A Santa Casa de Misericórdia de Proença-a-Nova” e, no átrio de entrada da casa de repouso, antigo hospital, estão bem visíveis dois medalhões com fotografias de Assis Roda e sua esposa Dona Ana Couceiro. Também a vila e a freguesia de Galveias beneficiaram da generosidade do proencense Assis Roda. Em 1954, ofereceu 1.500.000$00 para se construírem, através do Ministério das Obras Públicas, os edifícios destinados à Junta de Freguesia de Galveias e a um infantário na sede daquela freguesia. Sufragando a memória de sua esposa, determinava que os edifícios fossem entregues em propriedade à Junta daquela freguesia. O Ministério das Finanças recebeu a verba e foi-a libertando à medida que ia sendo necessária para a construção que foi executada pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Concluídas as obras, os edifícios foram cedidos a título gratuito e definitivo à Junta de Freguesia e Galveias, tendo o prédio destinado ao Infantário ficado isento de contribuição predial e a administração do mesmo sob a responsabilidade da Junta de Freguesia das Galveias. Receando que o saldo sobrante da construção e constituído em certificado de renda perpétua, a favor do infantário para garantia da sua manutenção, não fosse suficiente, Assis Roda doou à Direcção-Geral de Assistência, por escritura de 20 de Agosto de 1957, mais 3.000.000$00 para serem investidos, nas mesmas condições, em certificado de renda perpétua com a mesma finalidade. Ao mesmo tempo, colocava como condição que a direcção do Infantário fosse, sempre que possível, constituída por pessoas residentes em Galveias. Ao doador era reconhecido o direito de verificar pessoalmente a aplicação dos rendimentos doados.

No final de 1957, o edifício do Infantário estava concluído e foi marcada a inauguração para 11 de Janeiro do ano seguinte. A Direcção do Infantário, denominado “Infantário Dona Anita”, elaborou um programa detalhado (ver cópia) e a Junta de Freguesia distribuiu um Convite à População onde exortava à presença de todos e apelava a que os galveenenses enviassem de cartas e telegramas e por todas as outras formas fizessem chegar ao Senhor Comendador Assis Roda mensagens de agradecimento para a sua residência em Lisboa para que ele, doente e impossibilitado de estar presente, pudesse sentir a grandeza da sua obra social e a gratidão do povo de Galveias. A Junta também publicitava e explicava algumas deliberações tomadas, nomeadamente fazer descerrar, na nova artéria mesmo em frente ao Infantário, duas placas, com letras gravadas a ouro, dando o nome do Comendador Assis Roda àquela rua, na sequência de uma deliberação da Câmara Municipal de Ponte de Sor, tomada na sua reunião de 24 de Abril de 1957, por proposta da Junta de Galveias com o apoio de muitas instituições e toda a população. A inauguração contou com a presença do Arcebispo de Évora, do Ministro da Saúde e Assistência, do Governador Civil de Portalegre, do Presidente da Câmara da Ponte de Sor, do Pároco de Galveias, P.e Tavares Folgado, ainda vivo e com quem tive oportunidade de falar no passado dia 16 de Abril, e de muitas outras individualidades. De Proença-a-Nova estiveram presentes Luiz da Silva Reis e, em representação de Assis Roda, o seu primo, Farinha Tavares, outro benemérito de Proença a Nova.

À mesma hora, em Lisboa, na casa de Assis Roda, na rua do Conde Redondo, n.º 127, r/c, o chefe de Gabinete o Ministro da Saúde e Segurança, entrevistava o Comendador cuja saúde não permitira a deslocação às cerimónias inaugurais e testemunhava-lhe também o seu agradecimento pelos actos de benemerência. As formalidades concluíram-se no dia 16 de Agosto de 1958, com a entrega à Junta de Freguesia de Galveias dos edifícios onde funcionavam o Infantário e sede. A entrega foi feita pela Direcção Geral da Fazenda Pública, representada pelo chefe da Secção de Finanças da Ponte de Sor, Alberto Ferreira da Silva, e estiveram presentes o Presidente da Câmara da Ponte de Sor, Manuel Nunes Marques Adegas, todos os elementos da Junta, bem como Fernando Teixeira Valadares Couceiro, em representação de Assis Roda, seu tio, que continuava doente em Lisboa.

Em 2013 os edifícios continuam a cumprir os objectivos para que foram construídos, respeitando a vontade do seu instituidor. No que respeita ao Infantário, já teve frequência maior e acompanha as peripécias da natalidade local. Neste ano lectivo de 2012/13 é frequentado por 29 meninos e meninas. Todavia, não foram apenas as obras de natureza social o objecto único da generosidade de Assis Roda. Estando a capelinha da “Senhora das Almas”, à entrada da vila, do lado da Ponte de Sor, a precisar de recuperação, o ilustre proencense, em 1954, decidiu mandar restaurar o pequeno templo, com a intenção de sufragar a alma de sua esposa, falecida recentemente.

Como já deve ter sido percepcionado, nos últimos tempos, uma doença grave retinha-o no seu domicílio alfacinha, na rua do Conde Redondo impedindo-o de comparecer nas várias cerimónias onde a sua generosidade era reconhecida admirada e louvada. No dia 30 de Março de 1959, Assis Roda terminava os seus dias na sua casa de Lisboa. No dia seguinte, o funeral saiu da igreja do Coração de Jesus, em Lisboa, com destino ao jazigo da família no cemitério de Galveias. Era acompanhado de dezenas de carros, muitos deles de Proença-a-Nova, e era aguardado por uma multidão de populares e personalidades representando inúmeras instituições. De Proença fizeram-se representar a Câmara Municipal, o Hospital, a Junta de Freguesia, o Grémio Recreativo, o Posto da GNR, a Escola Primária, a Mocidade Portuguesa, os Bombeiros Voluntários e o Pároco. Além destas individualidades, esteve também muito povo e um autocarro transportou muitas crianças que frequentavam as escolas de Proença e que beneficiavam das refeições na Cantina Escolar por ele criada.

No dia 30 de Junho, três meses após o falecimento, por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Proença a Nova, realizou-se, na igreja Matriz desta vila, um Ofício Solene pela alma do Comendador Assis Roda. As cerimónias começaram às 12h e estavam presentes os párocos da Sobreira Formosa, Várzea dos Cavaleiros, Alvito da Beira, Ermida e, naturalmente, de Proença, com o respectivo coadjutor, bem como o P.e António Fernandes, das Cimadas. Dentro da igreja, junto à capela-mor, estavam as bandeiras e estandartes das entidades oficiais como a câmara Municipal, a Mocidade Portuguesa, os Bombeiros Voluntários e o Grémio Recreativo Proencense. Para além dos familiares, os representantes das entidades oficiais e o povo enchiam completamente a igreja matriz. Depois das cerimónias religiosas, organizou-se um cortejo rumo ao Hospital onde se descerrou uma efígie do falecido Comendador e usaram da palavra o Sr. Ezequiel Lopes Ribeiro, Provedor da Misericórdia, o Pároco e o Presidente da Câmara. Aqui surgiu a proposta de atribuição do seu nome à rua das Pereiras, onde havia nascido. Assim veio a ser decidido posteriormente pela Câmara Municipal. (Hoje, o seu nome está atribuído à artéria que vai do quartel dos Bombeiros Voluntários de Proença à estalagem das Amoras, passando pelo complexo escolar do 1.º ciclo do ensino básico).

Ficaram bem patentes as várias distinções e reconhecimentos com que as comunidades onde Assis Roda viveu e as suas instituições mais representativas quiseram distinguir o cidadão benemérito. Falta referir a atribuição, em 26 de Julho de 1955, pelo Presidente da República de então, General Francisco Craveiro Lopes, do grau de cavaleiro da ORDEM DE MÉRITO (antiga Ordem de Benemerência) atribuído a quem tenha praticado actos ou serviços meritórios a favor da colectividade. Era o reconhecimento público e oficial, ao mais alto nível, de tanta benfeitoria a favor das populações de Proença e Galveias.

Assis Roda era uma pessoa reservada e circunspecta, dedicado ao trabalho e à família. Só após da mulher, Dona Ana Couceiro, em 1953, e sem filhos nem netos com que se ocupar, começou a ter uma vida social relevante, em grande parte para dar visibilidade à memória de sua falecida esposa. É assim que, em 17 de Outubro de 1955, é admitido como sócio desta Casa e, neste mesmo salão, é homenageado uma primeira vez com a atribuição de uma condecoração entregue pelo ex-subsecretário de estado da Assistência Social, Dr. Pires da Cruz, a 13 de Outubro de 1957. A memória de ASSIS RODA está materialmente bem preservada em inúmeros locais e espaços como ruas e edifícios, em fotografias, bustos e em escritos particulares ou oficiais. 

Bibliografia:

Trabalhos sobre o(a) autor(a):

Biógrafo(a): António Manuel Martins Silva

FONTE (Texto): SILVA, António Manuel Martins (2013). “Um homem bom, de alma grande e coração generoso”, Palestra proferida na Casa da Comarca da Sertã, Lisboa, 11 Maio 2013. (fonte do autor)

FONTE (Retrato): Fundação Infantário Dona Anita

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SERRA, Libânio Vaz (1891-1971)

(em construção)

Libânio Vaz Serra nasceu a 16 de Fevereiro de 1891, no lugar de Matos do Pampilhal, freguesia de Cernache do Bonjardim. De origem humilde, emigrou aos 16 anos. Após alguns meses de permanência em S. Tomé e Príncipe fixou-se na ilha de Fernão Pó (Fernando Pó),  hoje denominada Bioko, na antiga Guiné espanhola, actualmente Guiné Equatorial ou República  da Guiné Equatorial. Libânio Vaz Serra começou a trabalhar nas propriedades de um conterrâneo. Algum tempo depois, por discordar dos métodos de produção, saiu e decidiu tornar-se empresário, exercendo várias actividades. Mais tarde adquiriu a sua primeira propriedade recorrendo ao empréstimo. Seguiram-se outras aquisições dando origem a um monopólio designado por Explorações Agrícolas Fernando Pó SA, que se estendida por 1200 hectares de cacau, café, óleo de palma e banana, tudo produtos destinados à exportação. Em poucos anos, empregava centenas de trabalhadores, inclusive mão de obra da Nigéria, e modernizava os métodos tradicionais de produção.


Por motivo de doença, regressou á sua terra natal. Em 1925 casou com Maria Celeste Lemos Vaz Serra. Desde casamento nasceram sete filhos. A obra de Fernão Pó continuou, mais tarde com a ajuda de alguns filhos, e tornou-se a quarta maior exploração agrícola da ilha. Neste local , Libânio Vaz Serra construiu um pequeno hospital, baptizado com o nome da sua esposa, para atender aos problemas de saúde dos seus empregados e abrigou os seus trabalhadores em moradias condignas. Por volta de 1927, o comendador fixou-se definitivamente em Cernache do Bonjardim e continuou a sua actuação empreendedora.

Financiou  a criação de um clube de futebol em 1948 mas, devido á falta de meios de clube, empregou todos os jogadores numa das suas empresas. Nasceu Grupo desportivo  Viação de Cernache, actualmente Grupo Desportivo Vitória de Cernache. Em 1950 fundou o Instituto Vaz Serra, a Companhia de viação de Cernache LDA. Bonjuma SARL; Serração de Madeiras; casa agrícola  Libânio Vaz Serra, que exportava vinho e azeite; moagem de farinha: investiu em propriedades florestais e na produção de resinas. Doou terrenos necessários á construção da casa do Povo e ao quartel dos bombeiros da Sertã, além de outros emprendimentos dentro e fora do concelho.

Em 1956, a pedido das autoridades espanholas, construiu em Fernão Pó, na cidade de San-Francisco , trinta e seis edifícios destinados á habitação e comércio. Faleceu em Cernache do Bonjardim a 9 de Novembro de 1971 vítima de broncopneumonia. No seu testado legou muitos donativos a pobres e diversas instituições.

Bibliografia:

Trabalhos sobre o(a) autor(a):

IVS (2011). Biografia de Libânio Vaz Serra.

Biógrafo(a):

FONTE (Texto): IVS (2011). Biografia de Libânio Vaz Serra.

FONTE (Retrato): IVS (2011). Biografia de Libânio Vaz Serra.

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SILVA, Luís José da

SOUSA, António da Silva 

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TAVARES, Joaquim da Silva

TEIXEIRA, Cândido da Silva

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