Personalidades

VIDAS COM HISTÓRIA

BIOGRAFIAS – Pessoas notáveis da região do Pinhal Interior Sul

(em construção)

Apresentação

Homens de cultura / Eclesiásticos / Missionários/ Militares / Exploradores/ Cientistas / Investigadores / Juristas / Professores / Médicos / Empresários

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ALVES, Sebastião (1920-2012)

Nascimento: Amoreira, Proença-a-Nova (25/04/1920)

Morte: Lisboa (18/01/2012)

Biografia

Administrador de Empresas de profissão, foi seminarista, pintor de construção civil, estudante de medicina, deputado e empresário multifacetado de um império construído a pulso. Empreendedor de vocação, Sebastião Alves foi ordenado Comendador e ficou na memória dos seus conterrâneos como emblema e epitome do ‘selfmade-man’ e como um cidadão exemplar a seguir pelas gerações vindouras. 

Nascido na Amoreira (Concelho de Proença-a-Nova) em 1920, no seio de uma família modesta, entrou para a escola primária apenas aos nove anos, quando um irmão mais novo o substituiu no ofício de pastor. Prosseguiu os seus estudos, sempre com distinção, ingressando no curso de Medicina em 1944. Iniciou-se no mundo dos negócios nesse mesmo ano de 1944, como delegado de informação médica, numa pequena firma importadora de especialidades farmacêuticas, da qual assume a direcção comercial (e funções de gestão) em 1947. Parte nesse ano para África e Ásia e, em 1951, percorre o continente americano e a Oceânia, em busca de negócios que começam a transformar a pequena farmácia num próspero laboratório – o Laboratório ATRAL, Lda. Em 1965, inicia a produção de antibióticos, como a tetraciclina, a oxitetraciclina e de eritromicina. Constitui, em seguida, a CIPAN e depressa constata que esta só seria rentável se a produção se alargasse à escala mundial. 

Na sequência da aquisição, em 1955, de uma pequena empresa tipográfica, a GRIS Impressores, lança-se no mercado editorial. No ano seguinte associou-se ao escritor Fernando Namora para fundar a editorial ARCÁDIA, no simples intuito de ajudar o Dr. Fernando Namora a publicar os seus livros. Em 1958, perante a dificuldade em encontrar no mercado livros infantis para os seus filhos, surge-lhe a ideia de fundar uma empresa – a Editorial VERBO – que iniciou a sua produção em 1959. 

Alarga a sua área de intervenção em 1962, com a criação da CELULOSE DO TEJO, entretanto nacionalizada e actualmente integrada na PORTUCEL, ao mesmo tempo que avança com unidades de produção da ATRAL em vários países e continentes. Em 1967, reorganiza o EUROLABOR e colabora na sua implantação e desenvolvimento em Condeixa. Em 1969, avança com a CISUL – Cimentos do Algarve. 

Entre 1974 e 1976 foi impedido de viver no País, dando início à CIBRAN, fábrica de antibióticos no Rio de Janeiro, e à CESQUISA, fábrica de corticosteróides, em Segóvia. Regressado a Portugal, faz nascer, em Proença-a-Nova, uma grande indústria de aglomerados de madeiras, termolaminados e colas, a SOTIMA, prosseguindo a sua expansão neste sector através da aquisição de outras unidades industriais. As suas empresas, maioritariamente associadas ao sector farmacêutico, encontram-se espalhadas por cerca de 120 países. 

Ao longo da sua vida, o Comendador Sebastião Alves desenvolveu sempre um interesse especial pela investigação, atraindo os melhores estudantes para as suas empresas e encorajando a sua formação no estrangeiro. A ele se deve a promoção das Escolas de Farmácia de Coimbra e Lisboa, tendo obtido, para esta última, grande parte das verbas que permitiram a construção do seu principal pavilhão operacional. Ofereceu estágios em Portugal, nas suas múltiplas empresas, a investigadores de outros países. São inúmeras as patentes depositadas nas suas empresas em todo o mundo, quer de produtos que foram desenvolvidos nas suas fábricas, quer de muitos outros que foram igualmente desenvolvidos para dar apoio à venda de tecnologia. 

Foram vários os cargos que desempenhou ao longo da sua vida, entre os quais o de deputado da Assembleia Nacional entre 1965 e 1973 e o de consultor da UNIDO (Nações Unidas para a Indústria Farmacêutica). Foi agraciado com as Comendas da Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém (conferida pela Santa Sé), do Mérito Industrial e da Ordem do Mérito Civil, concedidas por Sua Excelência o Presidente da República. 

Em 2010 publicou a sua autobiografia: Mais Mundos Houvera – Memórias dum Viandante, que apresentou na Casa da Comarca da Sertã em Abril desse ano. No resumo do livro pode ler-se: “Neste livro são narradas na primeira pessoa as memórias de Sebastião Alves, um dos mais empreendedores portugueses do século XX que, durante a sua vida, com origens modestas no interior de Portugal, soube construir à custa do seu mérito e trabalho um império empresarial e industrial que se estende por várias áreas de actividade e por mais de 120 países”. Enquanto presidente do grupo ATRAL-CIPAN, aos 90 anos era ainda o rosto de uma das maiores multinacionais no setor farmacêutico. Faleceu a 18 de Janeiro de 2012, aos 91 anos. 

Doou a sua biblioteca particular à Câmara Municipal de Proença-a-Nova (sua terra natal), integrando o acervo da biblioteca municipal. Por testamento feito em Novembro de 2011, o empresário determinou que os seus livros fossem doados à Câmara Municipal (que, à data da sua morte, tinha já recolhido cerca de 100 caixas com essa coleção). Nos termos do testamento, o benemérito solicitou à autarquia que incumbisse a biblioteca de “manter e expor os livros que integram o legado separadamente dos demais que integram ou venham a integrar o seu espólio”, sendo ainda solicitada a colocação de uma placa identificativa da doação. Dada a importância do acervo em causa, assim como do contributo do empresário para a economia local, com a criação da antiga fábrica Sotima, o executivo municipal decidiu atribuir-lhe uma sala própria. A par dos livros que adquiriu por interesse pessoal, a biblioteca do comendador Sebastião Alves foi enriquecida pelo facto de ter mantido atividade na área editorial. 

A sua morte foi noticiada e lamentada na imprensa nacional diária e, sobretudo, na imprensa regional da zona do Pinhal. Alguns dos seus conterrâneos que então lamentaram o seu desaparecimento, recordam-no como “uma das figuras mais emblemáticas de Proença-a-Nova”: 

“Desde de miúdo que admiro a pessoa, o caracter e a obra de alguém que subiu a pulso na vida, fruto do seu mérito, da enorme e rara capacidade de trabalho e de empreendorismo e pela imagem austera e sóbria que sempre lhe conheci. Fez uma impar e admirável carreira ao serviço da economia nacional e internacional, no sector farmacêutico, no sector editorial, e noutros. Empresas como a Atral Cipan a Verbo a Arcádia a Tecnodidática e a Sotima foram disso prova. Também teve alguns reveses caso da Sotima, onde jogou todo o seu prestígio, e património, ainda por cima na sua terra natal, mas a vida tem desses sobressaltos. No entanto não podemos esquecer a importância que teve para o desenvolvimento e crescimento do nosso concelho onde trabalharam durante cerca de duas décadas mais de 600 pessoas, que construíram parte das suas vidas com o salário ali recebido, eu fui um desses e por esse facto estarei sempre agradecido. Também de referir que se o espaço Sotima não tivesse sido construído hoje não poderia ser o embrião de novas iniciativas empresariais que se estão a implementar. No atual momento social e económico do país precisaríamos de muitos empreendedores com o perfil de Sebastião Alves, porque a nação de todos precisa mas de bons lideres precisa muito. Paz a sua alma e que a sua obra tenha continuidade pela importância óbvia para a economia portuguesa e pelo respeito que merece a figura e o percurso do homem que marcou a nossa história e que serve de exemplo para as gerações futuras.” Vítor Bairrada (21-01-2012)

“Na altura que se aproxima a comemoração do 1º. aniversário da morte de Sebastião Alves é legitimo recordá-lo como pessoa, como ermpresário e como Beirão de Proença-a-Nova. Com os poucos recursos materiais com que nasceu mas dotado de grande capacidade empreendedora, guindou a sua vida ao estrelato empresarial. Trabalhou, estudou e lutou sempre para a estar nos primeiros lugares da industria farmaceutica, o que conseguiu como mostra, por exemplo, a sua ATRAL/CIPAN. Diria que qualquer país do mundo precisa de homens como este. Do Estado não se serviu mas serviu a sua terra, o país e o próprio Estado. Muito trabalho, muita luta. Criou empresas e postos de trabalho. Criou riqueza para o país e para o mundo. No passado, no presente e no futuro, homens assim são necessários para que o amanhã tenha futuro. Não é necessário que se seja de direita ou de esquerda para se ser um bom empresário e respeitador das suas obrigações. Um obrigado ao comendador no 1º. aniversário da sua morte e a Proença-a-Nova, também.” Higino Dias Júnior (16-12-2021).

“Sebastião Alves contou numa entrevista concedida a O MIRANTE em 2006 que aos seis anos guardava gado na aldeia de Amoreira (Proença-a-Nova). Anos depois liderava um dos maiores grupos da indústria farmacêutica. Foi pintor de construção civil, seminarista, estudante de medicina, deputado e empresário de um império construído a pulso. Com nove décadas de vida Sebastião Alves ainda era o rosto de uma das maiores multinacionais na produção de medicamentos.Aos 21 anos rumou a Lisboa para cumprir o serviço militar como enfermeiro. Concluiu os sete anos de liceu como trabalhador estudante em apenas dois anos. Inscreveu-se no curso de medicina e chegou ao terceiro ano. Enquanto estudava trabalhava num laboratório de uma farmácia e escrevia contos que vendia a 150 escudos cada a um jornal diário. Foi nas traseiras de uma farmácia de Lisboa que encontrou o ‘ovo de Colombo’ que o fez singrar na vida e transformar-se num dos homens mais poderosos do sector em Portugal. Nasceu no dia 25 de Abril, mas a data da revolução não lhe traz boas recordações. Tem três filhos e vários netos. Foi fundador e accionista da Editorial Verbo, empresário da indústria de celulose e do ramo imobiliário. Foi deputado mas nunca se inscreveu em qualquer partido e garantia em 2006 que as políticas de esquerda se confundiam com as da direita.” Jornal O Mirante (18-01-2012).

Em Maio de 2006, o Jornal Regional O Mirante publicou uma entrevista realizada ao comendador Sebastião Alves (então com 86 anos de idade), onde podia ler-se (no título e sub-título): “Empresário que escapou ao Seminário: Recusa utilizar o computador e garante que nunca lhe fez falta”. Como testemunho ímpar (e de viva voz) acerca da memória escolar da região do PIS, reproduzimos aqui a entrevista na íntegra:

Qual é o segredo para aos 86 anos ter uma lucidez invejável?  Nasci numa aldeia. É o bom ar. Não é o ar poluído dos caixotes das cidades. Os exageros das higienes deixam as crianças sem defesas. O facto de contactar ali com milhentas bactérias, agentes patogénicos, cria imunidades que hoje em dia as crianças não têm. Os meus netos também não terão. 

Nasceu numa aldeia. Aos seis anos guardava gado. Como foram esses tempos? (Longo silêncio, engole em seco, pede desculpa) Sou filho de agricultores. Remediados, mas muito pouco remediados. Porque éramos seis irmãos. O mais velho ainda é vivo e analfabeto. Os outros cinco sempre que podiam iam à escola. Mas antes guardavam o rebanho da família na aldeia de Amoreira. Comecei por guardar aos seis anos o pequeno rebanho do meu avô. Aos nove anos fui para a escola, em Proença-a-Nova. Dos 13 aos 15 anos estive num seminário na Guarda. Depois voltei para casa. Penso que por um problema de saúde. Fiz-me pintor da construção civil. Fui trabalhar com um mestre dois anos de borla para me ensinar. E depois fui trabalhar por conta própria até vir para o serviço militar. 

Nunca teve intenção de seguir a vida eclesiástica? A minha mãe encaminhou quatro dos seis filhos para o Seminário. Não havia outra maneira de estudar. Mas dois ordenaram-se. Já morreram. Um deles foi superior geral dos missionários e o outro foi professor. Tinha-se formado na Universidade de Friburgo. O meio é bastante religioso. Toda a gente que era convidada para ir para o Seminário ia. Não havia colégio. Não havia liceu. Não havia nada. Era uma saída. Dizer que fui mal intencionado, não. Fui à espera de alguma coisa. Mandaram-me para casa para descansar e voltar. Mas eu não voltei. 

Em Lisboa chegou a viver num Hotel. A partir de 1948 vivia no Hotel Tivolli. O hotel facilitava a vida. Não tinha que cuidar pessoalmente das minhas coisas. Por outro lado o hotel era de pessoas da região e isso facilitava relações.

Já utilizou várias vezes a expressão “Graças a Deus”. É católico? Sim. Vou à missa. O que é um mundo sem crenças? Eu tenho uma esperança. Quem não tem fé, só espera ser tijolo daqui a uns anos! Para mim a vida é uma passagem. 

Começa o dia muito cedo? Levanto-me todos os dias às sete e meia da manhã. Vivo em Lisboa e por enquanto à minha vontade. Vivo em Lisboa porque a minha mulher não quis viver fora. A minha mulher também é da aldeia. Pensei numa moradia. Nunca quis viver numa moradia porque tinha medo de lá estar. E a gente tem que respeitar essas coisas. O meu gosto seria viver numa quinta em Mafra, em Sintra ou em Loures. No Ribatejo…Numa quintarola.

Transmite aos seus filhos os princípios sociais que tem seguido? Acho que sim. Nunca nenhum me pediu um carro. O filho licenciou-se na Inglaterra e lá trabalhou em projectos. Agora é professor do Instituto Superior Técnico. Insisti várias vezes para que comprasse um carro. Comprou uma bicicleta. Uma filha doutorou-se m Glasgow em engenharia genética. A outra filha é economista e também nunca pediu um carro.

Tem tempo para as leituras? Muito. Deito-me às 21h30 e às 23h00 ainda estou a ler. Ultimamente estive a ler um livro do Renan, uma espécie de mago do racionalismo francês. Outro livro que li recentemente foi Averrois, um filósofo árabe, médico. Descobri que não é bem verdade que foram os árabes que trouxeram a cultura grega para a Europa. A cultura grega conservou-se sempre bem viva em Constantinopla. Até 1453, quando acaba a idade média. Quando os turcos ocupam Constantinopla a elite voou para o lado de cá com as obras que pode trazer. E é ai que se descobre grande parte disso. Os positivistas do século XIX não querem aceitar isso, mas a história é esta. 

É um homem de paixões? Sempre muito controladas. O empenho a esta causa foi uma paixão…Não lhe chamo paixão. Chamo-lhe determinação. Quando parti não sabia o que me esperava. Fui atrás das oportunidades. Uma coisa muito importante: não tenho consciência de ter prejudicado alguém na vida. Ajudar sim, ajudei muitos. Mas no mundo dos negócios diz-se que quando alguém triunfa outros têm que ser sacrificados…Viajei por África porque encontrei dificuldades no pequeno mercado português. Tinha dificuldades enormes em crescer porque havia uma indústria poderosa que se tinha feito durante a guerra. Fui para onde não competia com o que cá havia. Continuo a não ser muito competitivo aqui. Mais de 60 por cento da nossa produção é exportada. E esperamos em 2008 chegar aos 80 por cento. Passo ao lado e percorro o meu caminho. 

Qual é a sua relação com os computadores? Não uso. Quando quero estudar um tema encomendo um dossier com informação da Internet. Por ali vejo o essencial do problema. Se for preciso mais estudos mando fazer. Tenho de compreender o que estou a fazer. Se não compreender não faço. Tem que dominar a área em que está a investir…Não sou capaz de mexer em genética, mas compreender o que lá se está a passar, sim. O que as pessoas têm que fazer, sim. Tenho que medir os meios necessários para pôr em marcha qualquer iniciativa e tenho que medir os resultados que dai posso tirar. Se o negócio não tiver rentabilidade não vale a pena caminhar por ai. Caridade só a que a rentabilidade dos negócios permite.

Também faz negócios só por caridade? A mão direita não deve saber o que a mão esquerda faz. É do evangelho. Há coisas que a gente não as diz. 

E tempo para família? Talvez no princípio os filhos precisassem mais de apoio. Mas eu estava muito disperso. Em 1965 era administrador de várias empresas, era deputado, era vereador da Câmara de Lisboa. Não tinha muito tempo para a família. A minha mulher aguentou bem.

Qual é a sua equipa de futebol? Nunca fui a um jogo de futebol. As minhas selecções são livros. 

Tem por hábito ir ver espectáculos? Vi algum teatro e algumas das peças mais famosas. O melhor teatro que vejo todos os dias é o do mundo que vi e a memória guardou.

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Bibliografia

Mais Mundos Houvera – Memórias dum Viandante, Lisboa: Alêtheia Editores, 2010;

Trabalhos sobre o(a) autor(a)

AR (s.d). SEBASTIÃO ALVES Legislaturas: IX, XI.

BAIRRADA, Vítor (21/01/2012). Faleceu o comendador Sebastião Alves. Pinhal Digital.

JÚNIOR, Higino Dias (16/12/2012). Sebastião Alves, comendador, Proença-a-Nova. Blog.

UBI (s.d). Curriculum Vitae Comendador Sebastião Alves.

(24/04/2010). Comendador Sebastião Alves na Universidade Católica. Casa da Comarca da Sertã.

(2012-03-30). Biblioteca de Sebastião Alves doada à Câmara. Câmara Municipal Proença-a-Nova.

(18-01-2021). Faleceu o comendador Sebastião Alves da Atral Cipan. O Mirante.

(03/05/2006). Entrevista: O empresário que escapou ao Seminário. Recusa utilizar o computador e garante que nunca lhe fez falta. O Mirante.

FONTE (Texto): Curriculum Vitae Comendador Sebastião Alves. [Selecção e edição de textos para publicação neste website: Helena Cabeleira]

FONTE (Retrato)Casa da Comarca da Sertã. [Edição e arranjo gráfico da imagem: Helena Cabeleira]

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ANDRADE, António de (1580/81 – 1634)

Nascimento: Oleiros (1580 ou 1581)

Morte: Goa (19/03/1634)

Biografia

Geralmente apresenta-se o Padre António de Andrade, S. J. como o mais ilustre dos oleirenses de todos os tempos. Nas palavras de outro não menos ilustre Oleirense, D. João Maria Pimentel: “a principal delas [das pessoas notáveis] é incontestavelmente o padre António de Andrade, que honra sua Pátria pelos seus feitos admiráveis, e pelas suas grandes virtudes” (em Memórias da Vila de Oleiros, 1881: 161). Segundo o Bispo d’Angra, natural da mesma Villa de Oeiros, António de Andrade terá nascido ali, no ano de 1581, de Bartholomeu Gonçalves e Magdalena de Andrade. Contudo, a data (e até o local) do seu nascimento não é consensual entre os estudiosos e/ou historiadores que a seu respeito escreveram. A razão para tal dúvida quanto à data de nascimento desta pessoa notável saída de Oleiros, é a seguinte:

Não se encontra assento do seu baptismo, porque os livros do registo parochial começão no mesmo anno, certamente depois daquelle nascimento, mas encontrão-se nos seguintes annos assentos do baptismo d’alguns seus irmãos, como de Izabel em 1584, o que prova que o Padre António de Andrade é natural de Oleiros; e o dizem todos os Historiadores, a não ser Miguel Leitão d’Andrade que diz ser natural de Pedrógão Grande (…). (Pimentel, 1881: 161).

Padre António de Andrade é considerado um dos Heróis dos Descobrimentos. Destacou-se como missionário jesuíta e, para além de escalador dos Himalaias, notabilizou-se como o primeiro explorador Ocidental a ‘descobrir’ o Tibete. Nascido em Oleiros, no ano de 1580 ou 1581 – não se sabe ao certo a data, e estima-se que a sua família seja originária de Pedrógão Grande -, cedo partiu para a Índia para conhecer (e dar a conhecer) novas geografias e culturas. Juntamente com o seu companheiro de viagem, o irmão Manuel Marques, foi o primeiro europeu a entrar em terras do Dalai Lama, chegando onde nenhum outro tinha chegado antes. 

O jovem António, com 15 anos, entrou para a Companhia de Jesus (em Coimbra), a 15 de Dezembro de 1596, indo depois para Lisboa como noviço quando na capital abriu o colégio jesuíta. Em 1600 (a 22 de Abril) vai para a Índia na companhia de mais 19 padres e irmãos jesuítas (12 portugueses e sete italianos). Embarcaram na nau S. Valentim e faziam parte da comitiva da armada do vice-rei Aires de Saldanha. Após ter completado os estudos no Colégio de S. Paulo (em Goa, Índia), recebeu as ordens sacras e foi enviado como “superior visitador” para a missão de Mongol (em Agra). Aqui terá aprendido a língua persa com os muçulmanos caxemires, como era costume na época de um missionário jesuíta.

A 30 de Março de 1624, acompanhado do Rei Mongol (Jahangir, que viajava para Lahore), deixou Agra esperando atingir o Tibete. Em Deli juntou-se a uma caravana de peregrinos hindús que se dirigiam em romaria ao famoso templo/pagode de Badrinath (à altitude de 3170 m), situado entre a Índia e o Tibete. Acompanhado do Irmão religioso jesuíta, Manuel Marques, iniciava assim a primeira viagem que duraria cerca de três meses e que o levaria ao ocidente do Tibete. 

Em Maio estava em Srinagar, capital do Gahrwal (2300 m). Começou então a escalada das serras “mais fragosas e altas que parece a ver o mundo”, “caminhando até o alto de todas as Serras de onde nasce o rio Ganges de um grande lago, do qual também nasce outro rio carrega as terras de Tibete”. Transpondo o passo de Mana (a 5500 m de altitude), coube-lhe a glória de ser o primeiro europeu a atravessar o Himalaia e a descobrir o ramo principal das nascentes do rio Ganges. 

Para lá do passo de Mana estendia-se o grande planalto do Tibete. Em Agosto estava em Chaparangue (Tsaparang), capital do Reino de Guge, onde foi recebido favoravelmente pelo rei. No Lago Mansovar construiu a primeira igreja cristã e um centro missionário.

A viagem de António de Andrade, iniciada em 1624, teve (ainda que incompletamente) um precursor em 1607: a do açoriano Bento de Góis, reconhecidamente o primeiro europeu a entrar na China pelo ocidente e a identifica-la com o Cataio de Marco Polo. Por conseguinte, os primeiros europeus a atravessar o Himalaia e a atingir as nascentes do rio Ganges no século XVII (os jesuítas portugueses Bento de Góis e António de Andrade), foram protagonistas deste importante contributo da nação lusitana para o conhecimento, pelos europeus, desta parte do mundo. 

Foi assim que, em 1624, António de Andrade, partindo de Goa, atravessou a cordilheira do Himalaia descobrindo uma das mais importantes nascentes do rio Ganges e penetrou no Tibete onde estabeleceu acordos e relações amistosas com o respetivo monarca e autorização para ali instalar uma missão católica. Até lá chegar e ser recebido pela família real, identifica e localiza cientificamente (medindo a latitude, a longitude e a altitude) as principais localidades por onde vai passando  (Agra, Deli, Srinagar, Badrinath, Mana, Mana Pass e Tsaparang) – o que mostra os seus conhecimentos e aptidões para utilizar o astrolábio e as tábuas de declinação do sol, instrumentos que certamente o acompanhavam e que tinha aprendido a manobrar nas escolas jesuítas.

É pois, a este explorador jesuíta, nascido em Oleiros, distrito de Castelo Branco, que se ficou a dever a descoberta da nascente mais importante do rio Ganges ao transpor o Passo de Mana a 5500 m de altitude.

Por intermédio dos seus escritos, designadamente por uma Carta sua dirigida ao visitador da Índia, André Palmeiro (e editada em Lisboa em 1626), acedeu-se a importantes informações sobre a etnografia, o clima, a fauna e a hidrografia da região, o que possibilitaria ao ocidente clarificar os limites da fronteira noroeste da China e obter informações sobre um dos mais importantes rios do globo. 

Nas suas palavras (Carta Primeira): “com muita diligência, e maior alegria, começámos a subir as serras, são ellas as mais fragosas e altas, que parece pode auer no mundo, e bem longe estou de poder declarar a V.R. a difficuldade com que por ellas subimos” (1921: 47-48). E, mais adiante, “muitas vezes nos era necessário ir por cima da neve com o corpo, como quem vai nadando, porque doutra maneira nós afundávamos tanto… nos pés, mãos e rosto, não tínhamos sentimento, porque com o demasiado rigor do frio estávamos totalmente sem sentidos“.

Como refere o historiador holandês C. Wessels, os exploradores britânicos Webb e Rapper (a quem a historiografia britânica atribuiu tal mérito, em resultado da sua expedição de 1807, que foi relatada por S. G. Burrard & H. H. Hayden em A Sketch of the Geography and Geology of the Himalaya Mountains and Tibet), limitaram-se a seguir o percurso que Andrade fizera antes deles: “sem precursores, sem mapas, sem experiências anteriores, primeiros etnógrafos, os jesuítas portugueses dos séculos XVII e XVIII, foram os pioneiros dos Himalaias no sentido mais completo do termo”.

Chegado ao Reino de Guge, consta que o Rei, após algum tempo (e esforços diplomáticos do padre Oleirense), parece ter mostrado interesse pela religião cristã, acabando por autorizar não somente o retorno dos padres, como lhes prometeu permissão para o estabelecimento de uma missão em Chaparangue, no ano seguinte.

Após uma permanência de 25 dias, regressou à Índia prometendo ao Rei de Guge que regressaria no ano seguinte. Chegou a Agra sete meses depois de lá ter saído. 

A primeira viagem  foi descrita na Carta dirigida ao Provincial jesuíta, André Palmeiro (datada de 8 de Novembro de 1624, em Agra) – que é uma extraordinária fonte de informação. 

Para dar cumprimento à promessa feita ao soberano de Guge, sai de Agra em segunda viagem (a 17 de Junho de 1625) acompanhado do Padre Gonçalo de Sousa e do Irmão Manuel Marques (que já o havia acompanhado da primeira vez). Seguiram um caminho mais curto, demoraram menos tempo e chegaram ao destino a 28 de Agosto.

Não se sabe quanto tempo permaneceu no Tibete. Conhecem-se três cartas enviadas de Tsaparang (datadas de 2 de Fevereiro, 29 de Agosto e 2 de Outubro de 1627). Também se sabe que, em 1630, já estava em Goa, onde era Provincial da Companhia de Jesus na Índia e nessa qualidade mandou, em 1631, quatro religiosos em missão para o Tibete. 

A segunda viagem é narrada numa Carta escrita a 15 de Agosto de 1626 e constitui também importante documento histórico. Terminadas as funções de Provincial, foi nomeado Reitor do Colégio de Goa e promovido a “visitador” para o Japão e China. Mas António de Andrade viria a falecer repentinamente em Goa (supostamente envenenado), a 19 de Março de 1634, quando se preparava para retomar, com mais seis companheiros, a missão que tinha fundado no Tibete.

Na época da sua morte, António de Andrade era deputado do Santo Ofício (Inquisição). Segundo relatado pelo padre António Franco, em Anno Santo da Companhia de Jesus em Portugal: um judeu lhe deu veneno de que o Padre morreu (ao que parece terá tomado solimão, bicloreto de mercúrio.) 

Por coincidência, ou não, no dia em que morreu iria presidir a um auto de fé. Refere o mesmo autor que consta que pouco antes de morrer lhe teria aparecido a Virgem Nossa Senhora (o que muito o alegrou) e que depois da sua morte e enterramento, na pedra que cobria a sepultura se imprimiu/gravou a figura do padre. Pensou-se que fosse a exalação do veneno mas, esfregando a campa, verificou-se que a figura estava impressa na pedra. Aquele padre jesuíta também refere, sem especificar, que “obrou Deus por ele depois da sua morte cousas milagrosas”.

Com efeito, um dos mais preciosos legados de António de Andrade são as suas Cartas – importantes documentos históricos e devem ser lidas e estudadas à luz da mentalidade da época (e de um jesuíta em particular). Enquadram-se na linha da melhor literatura de viagens características da época dos descobrimentos.

Cartas do Tibete reúne as narrativas de viagem do missionário português que atravessou uma das mais altas cordilheiras montanhosas do mundo num caminho até um reino então totalmente desconhecido. Fundador da primeira missão católica no Tibete, António de Andrade deixou nas suas cartas um precioso registo histórico, cultural, religioso e geográfico. Publicadas pela primeira vez em1626 (com uma reedição comentada, em 1921), as cartas da autoria do padre jesuíta António de Andrade datam de 1624 a 1633 e foram enviadas desde Goa (Índia) para a missão jesuíta na Europa. Ao longo das cartas, sobressai o olhar de um europeu que – embora familiarizado com as paisagens montanhosas e o clima agreste da sua região natal (Oleiros) -, se achou assoberbado de espanto ao chegar àquela terra onde as serras são “as mais fragosas e altas que parece pode haver no mundo”. A missão fundada por António de Andrade no reino de Guge no Tibete, iria manter-se por vários anos até o próprio reino ser invadido por outro vizinho em virtude do que se crê ter sido uma conspiração entre alguns lamas que viam nos jesuítas uma ameaça ao seu próprio poder. 

A carência de fontes tibetanas (se existem e não foram destruídas) leva a que as cartas escritas por Andrade assumam um enorme valor histórico. A primeira edição em Portugal a reunir as cartas na totalidade foi publicada em 2016.

Á época, as Cartas de Andrade tiveram grande repercussão na Europa. A primeira foi publicada em castelhano (Madrid, 1626), depois em italiano (Roma, 1627 e Nápoles 1627 e 1827), em francês (Gand, 1627 e Pont à Mousson, 1628); em polaco (Cracóvia, 1628) e em flamengo (Gent, 1631). Há também edições em alemão (Augsburgo) e em inglês. A segunda carta foi traduzida para castelhano e italiano e publicada nos anos imediatos à sua edição em português. Nelas encontramos, em linguagem acessível e num estilo agradável, relatos das dificuldades encontradas, das vivências experienciadas, da fauna, da flora, dos costumes, da cultura e das religiões orientais. No fundo, informações históricas, geográficas, culturais e religiosas muito detalhadas. 

São documentos muito importantes para percebermos o encontro/desencontro de dois mundos e duas maneiras de o conceber e olhar. É clara a dificuldade reciproca de perceber o “outro”, neste caso a do beirão Andrade em perceber o oriental tibetano. Independentemente da religião, o modelo usado para comparação é sempre a matriz de um ocidental.

A primeira carta narra a primeira viagem. Através dela podemos conhecer a saga mais ou menos clandestina e secreta de Andrade e Marques que se disfarçaram no meio de um caravana de mercadores mas que, como não levavam mercadorias, viajavam com o pretexto de que procurarem familiares, um irmão de Andrade. Ao longo do texto somos levados a subir as serras, “talhadas a pique”, “as mais altas e fragosas que parece pode haver no mundo”, de manhã à noite, por caminhos tão estreitos que muitas vezes, quando cabe um só pé, pegados com as mãos para não resvalar”. Com os dois europeus nos arrepiamos também nas descidas “mais dificultosas e perigosas” que têm de ser feitas “como quem desce escada de mão, dando as costas ao caminho que vai fazendo”. [E eis aqui, porventura, os dois primeiros verdadeiros alpinistas europeus dos Himalaias]. 

Somos levados a sofrer as tormentas “excessivas”, “muitas vezes encravados dentro da neve, ora até aos ombros, ora até aos peitos, de ordinário até ao joelho (…) suando suores frios, vendo-nos não poucas vezes em risco de vida; sendo muitas vezes necessário ir por cima da neve com o corpo, como quem vai nadando, porque desta maneira não se encrava tanto nela”. E sofremos o que é possível sofrer com o frio ao ponto de “nos pés, mãos e rosto, não termos sentimento, porque com o demasiado rigor do frio, ficamos totalmente sem sentido, acontecendo que pegando não sei em quê, caiu-me um bom pedaço do dedo, sem eu dar fé disso, nem sentir ferida, se não fora o muito sangue que dela corria.” Até somos levados a esfriar a alegria sentida já quase no final, no alto das serras, ao avistar as campinas do Tibete porque “ já nesse tempo tínhamos a vista dos olhos quasi toda perdida (…) e nem divisávamos mais que tudo branco, sem poder discernir por que parte passar adiante.”

Na viagem somos também convidados a observar “pinheiros de várias castas e estranha grandeza, uns como os nossos, e outros mais frescos, que não dão fruto, mas muito melhor madeira”, pessegueiros, pereiras carregadas de muita fruta verde, limoeiros, árvores de canela, ciprestes, rosais com rosas sem número, silvas com amoras, “umas pretas como as nossas, outras vermelhas como medronhos, mas todas muito boas”, castanheiros, lírios … Uma única coisa fazia as serras mais aprazíveis aos viajantes: “as muitas fontes que delas correm, com água tão cristalina e fresca que não há mais que desejar”. 

Sobre os costumes alimentares daqueles povos do Tibete (diferentes dos indianos, para já não falar dos ocidentais), Andrade relata: 

“As gentes (de Siranagar) não degolam os carneiros e as cabras, que comem, mas afogam-nas, e dizem que ficando o sangue espalhado, faz a carne mais gostosa; e assim sem esfolar as rezes, com a pele chamuscada, e a carne mal assada, correndo-lhe o sangue, a comem.” 

[Segundo hipótese (inédita), avançada pelo historiador local António Manuel Martins Silva: nesta descrição poderá estar o gérmen (ou a origem) do ‘tradicional’ cabrito estonado à moda de Oleiros?].

Depois de Siranagar, mais próximo do Tibete: “comem carne crua, e assim como vão esfolando o carneiro, o vão comendo, principalmente toda a gordura que tem; e os nervos dos pés são para eles o melhor bocado; as tripas depois de mal enxaguadas na água, as fazem em bocadinhos e assim vão logo comendo; alguma porém cosem, mas não lhe esperam mais que a primeira fervura, dizendo que a carne muito cozida perde o sabor e a substância.” 

[Viriam daqui as conhecidas tripas à moda do Porto?] 

E nem é necessária a nossa presença em tamanha empreitada para nos espantamos com as crianças a comerem neve “como nós o pão ou o doce” e a mandarem fora as passas que lhe oferecemos em troca da neve. E que consolação deve ter sido sentida com a refeição de cevada assada e mel tomada às portas de Tsaparang! 

Chegados ao destino, como eram “gente muito estranha e nunca vista por aquelas paragens”, saiu a população às ruas para os observarem e “as mulheres às janelas para nos ver, como cousa mui rara.” O rei não apareceu, mas a rainha estava numa varanda do paço a observar os visitantes. Depois de esclarecidos os motivos da viagem, que nada tinham a ver com o comércio, mas tão só com o averiguar se havia cristãos naquelas paragens, e afastado o mouro que servia de intérprete e que deturpava intencionalmente o conteúdo das palavras de Andrade em benefício da sua religião, o nosso conterrâneo caiu nas boas graças do rei de Tsaparang, Thi Tashi Dagpa, que lhe deu carta-branca “para que não houvesse porta fechada em sua casa, e que a todo o tempo entrássemos e saíssemos, como se fez”, para além de abastecer os  desfalcados viajantes com variada e abundante alimentação: carneiros, arroz, farinha, manteiga, passas e vinho de uvas. 

Esta boa recepção e acolhimento de excelência, a par de uma vigilância apertada, pode ser explicada pois, possivelmente, o Rei de Guge logo se apercebeu que os dois jesuítas lhe poderiam ser muito úteis porque via neles  aliados para combater o poder da classe monástica local, da qual um irmão real era o lama principal. Andrade apercebe-se da situação e interpreta-a à sua maneira chegando a escrever que “só não baptisei logo o Rei e a Rainha, por não ter tempo bastante para os catequizar, e não os deixar arriscados a retroceder.” 

Mantendo-se o interesse do rei na presença dos jesuítas, Andrade prometeu regressar no ano seguinte apresentando algumas condições ao soberano: que lhe desse liberdade para pregar o cristianismo; que lhe disponibilizasse um local para construir uma igreja; que não o confundissem com os comerciantes; que, se  no futuro os mercadores portugueses viessem àquelas terras, ele não se imiscuiria nos negócios e, finalmente, que não acreditasse em nada do que os mouros de caxemire lhe dissessem. Com estas garantias escritas, Andrade prometeu voltar no ano seguinte e iniciou a viagem de regresso.

A segunda carta descreve a segunda permanência no Tibete, dois anos depois. Nela podemos constatar a construção da igreja, cuja primeira pedra foi lançada a 11 de Abril, dia de Páscoa, e conhecer muitas outras missões e episódios da vida individual e colectiva do Tibete. Interessantes são as discussões “teológicas” do jesuíta com os sacerdotes locais e a tentativa destes para o envolverem em disputas locais e pessoais como aquela em que ele foi acusado de proteger um ladrão. A verdade é que ele próprio refere que “muitos o tomam por terceiro” tal é o crédito que lhe dão nas disputas locais. Já tinha sido promovido a Juiz!

Extraordinária epopeia do oleirense António de Andrade. Os feitos deste padre jesuita – pioneiro Ocidental da descoberta do Tibete sempre foram reconhecidos pelos seus conterrâneos que lhe dedicaram um lugar importante na toponímia da Vila. Deram o seu nome à Escola Secundária e edificaram um Memorial no Jardim Municipal (mesmo em frente ao actual edifício dos Paços do Concelho). No ano de 1986, este ilustre filho de Oleiros foi homenageado, a título póstumo, e o historiador Veríssimo Serrão (com ligações familiares a Oleiros), evocou os seus feitos no local onde foi colocada uma lápide em sua memória.

“Considerado um dos Grandes Portugueses, em Oleiros, o seu legado está bem presente na perseverança das gentes locais e no memorial situado no Jardim Público, numa homenagem dos seus conterrâneos”. Em Julho de 2011, por ocasião da inauguração da nova zona envolvente aos Paços do Concelho, teve lugar a cerimónia de descerramento e bênção da estátua de homenagem ao Padre António de Andrade, colocada em destaque em frente daquele edifício. A cerimónia realizou-se na Praça do Município, após uma missa em sua honra, na Igreja Matriz. Este elemento de arte pública (da autoria do escultor José Leitão de Paula) representa o tributo prestado pelo Município ao missionário considerado “ilustre figura da História, nascida em Oleiros no século XVI e tido como uma das figuras mais universais da História do concelho”. A obra escultórica baseou-se em algumas descrições da fisionomia e dos hábitos do padre jesuíta, tendo havido a colaboração da Companhia de Jesus nesse sentido. Segundo um retrato a óleo existente (partindo de uma descrição do Bispo d´Angra, D. João Maria Pereira d´Amaral e Pimentel, em 1881) António de Andrade aparece representado “com o rosto ovado, cabelo e sobrancelhas pretas, assim como os olhos e barba, que é cortada à tesoura e com bigode; vestido com roupeta de jesuíta, com o chapéu na mão, contas ao pescoço, suspendendo nelas pelo dedo polegar o braço esquerdo; os olhos são vivos e com o cabelo da cabeça é cortado rente, tendo como um ângulo dele sobre a testa”.

Em 2007, a expedição do primeiro europeu a chegar ao Tibete, em 1624, estava a ser recriada em documentário pelo realizador Jorge Fialho. O argumento seguiu o percurso feito pelo padre jesuíta para promover a religião cristã, com as filmagens a começarem na Vila onde nasceu (Oleiros, no distrito de Castelo Branco), seguindo depois para a Índia, recordando a caminhada até ao Lago Mansovar, no Tibete. Nas palavras do realizador: ”O documentário pretende relatar as dificuldades de António de Andrade na travessia dos Himalaias, a 5.604 metros de altitude. Lutou contra o frio, a neve, falta de alimentos e desconfiança dos locais. Uma viagem que ainda hoje é um risco”. A expedição enquadra-se no “pioneirismo português” dos Descobrimentos da época, “mas por terra, em vez de por mar”.

A partir das descrições nos diários de viagem de António de Andrade, geólogos relacionaram a génese da maior cordilheira montanhosa do mundo com as paisagens características Oleiros. Carlos Carvalho (geólogo e director técnico do Geopark Naturtejo), foi um dos elementos que integraram a equipa responsável pelo documentário. António de Andrade “foi o português que pela primeira vez descreveu para o Ocidente as paisagens do Tibete e sentiu a universalidade dos processos de construção de montanhas”, afirmou o geólogo, acrescentando que “é por isso que esta história serve de ligação entre o único geoparque de Portugal e a China, onde existem 18”, referiu.

O documentário surgiu na sequência de um outro em rodagem sobre o Geopark Naturtejo (região de interesse pelas formações rochosas e outros monumentos geológicos naturais, classificada pela UNESCO) de que o concelho de Oleiros faz parte (a par dos municípios de Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Proença-a-Nova, Vila Velha de Ródão e Nisa). Para levar a cabo as filmagens na Índia, foram necessárias várias diligências e contactos com a China para chegar ao Tibete. 

Embora à data de realização do documentário, o nome de António de Andrade já constasse numa lápide (no centro da Vila de Oleiros), o então presidente da Câmara local (José Marques) admitia que “esta será a homenagem com maior visibilidade”. Segundo o autarca, já estava garantida a compra do filme por estações de televisão de vários países. O município foi uma das entidades a apoiar a realização do documentário.

Bibliografia

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Trabalhos sobre o(a) autor(a)

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FCG (2002). “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II”. Boletim nº 23 (Dezembro). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian; [a partir de “Viagens na Ásia Central em Demanda do Cataio: Bento de Goes e António de Andrade”, Introd. e notas de Neves Águas, Lisboa, Publ. Europa-América, 1988]

FRANCO, António (1719). Imagem da virtude em o noviciado da Companhia de Jesus no Real Collegio de Jesus de Coimbra em Portugal: na qual se contem as vidas, & sanctas mortes de muitos homens de grande virtude. Evora: Na officina da Universidade.

FRANCO, António (1930). Ano Santo da Companhia de Jesus em Portugal. Ed., Pref. e notas Francisco Rodrigues. Porto: Bibliotheca do Apostolado da Imprensa.

MA, Kehan (2019). Olhares cruzados sobre o Tibete: as cartas do jesuíta António de Andrade e Viagem ao tecto do mundo de Joaquim Magalhães de Castro. Tese de Mestrado. Aveiro: Universidade de Aveiro.

PIMENTEL, João Maria P. D’Amaral e (1881). Memórias da Villa de Oleiros e do seu Concelho pelo Bispo d’Angra D. João Maria Pereira d’Amaral e Pimentel, natural da mesma Villa. Angra do Heroísmo: Typographia da Virgem Immaculada.

RAMOS, Anselmo Casimiro (19/03/2009). Padre António de Andrade (1584-1634): Patrono da Escola Básica e Secundária de Oleiros – Castelo Branco, “O Padre António De Andrade 375 anos depois, visto por um geógrafo” – Palestra proferida no dia do Patrono. Publicado em 13 de Abril de 2011 no Jornal de Oleiros.

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(19/03/2009). 375 anos da morte do Padre António de Andrade. Município de Oleiros.

(14/07/2011). Estátua em homenagem ao Padre António de Andrade vai ser descerrada e benzida no próximo Sábado. Município de Oleiros.

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História: O Explorador Padre António de Andrade, no Tibete (Áudio). Youtube.

António de Andrade. Wikipédia, a enciclopédia livre.

Terras de Portugal – Oleiros. Wikidot.

FONTES (Texto): SILVA, António Manuel Martins (14/04/2012). Migalhas da História de Oleiros: De Andrade a Pimentel…Da Guerra Peninsular à República. Oleiros.; ROMÂO, José António Arez (12/03/2002). Bento de Góis (1607) e António de Andrade (1624). AAACSJB. [Selecção e edição de textos para publicação neste website: Helena Cabeleira].

FONTE (Retrato)Público.

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ANTUNES, Manuel (1918-1985)

Nascimento: Sertã (03/11/1918)

Morte: Lisboa (18/01/1985)

Biografia

Manuel Antunes nasce numa família muito humilde da Beira Baixa, filho de José Agostinho Antunes e Maria de Jesus, assalariados rurais. Em 1931 ingressa no Seminário Menor da Companhia de Jesus, que então se situava em Guimarães, onde começou a revelar grandes dotes e aplicação ao estudo. Com 18 anos de idade, dá entrada no noviciado da companhia de Jesus em Alpendurada (Marco de Canaveses), onde faz a primeira profissão religiosa e se torna membro oficial da Congregação de Santo Inácio de Loyola. Em seguida, completa os estudos humanísticos, tendo-se dedicado durante três anos, de modo especial, à Literatura e Cultura Grega e Latina, em que no futuro se haveria de notabilizar. Depois, matricula-se no Instituto Superior Beato Miguel de Carvalho, hoje Faculdade de Filosofia de Braga, onde, em 1943, se licencia em Filosofia, com uma dissertação sobre o “Panorama da filosofia existencial de Kierkegaard a Heidegger”. Terminando com distinção o curso de Filosofia, e dada a sua inclinação para os estudos clássicos, durante três anos foi chamado a ensinar Língua e Cultura Latina e Grega aos jovens estudantes da sua Ordem Religiosa, constituindo esta a sua primeira actividade docente. Frequenta, de 1946 a 1950, a Faculdade de Teologia de Granada (Espanha), onde obtém a licenciatura em Teologia, completando, por fim, a sua formação religiosa em Namur (Bélgica). Foi ordenado sacerdote ainda antes de concluir Teologia, como era hábito na Companhia de Jesus. No ano lectivo de 1951-1952, começa a ensinar Língua e Cultura Grega e Latina no Curso Superior de Letras da Companhia de Jesus. Em 1955, desloca-se para Lisboa, a fim de trabalhar na redacção da revista Brotéria, de que era colaborador desde 1940. Dedica-se a temas culturais, pedagógicos e filosóficos, bem como à crítica literária. Muitos dos seus artigos estão assinados com pseudónimos. Contámos mais de 120 pseudónimos com que assinou a sua profícua produção de textos editados na revista Brotéria, entre os quais Horácio Alves, Licínio Alves, Carlos do Amaral, Luís Dias Bivar, Jorge de Castro, Santana Claro. Em 1965, assume a direcção da Brotéria, que manteve até 1982, com uma breve interrupção entre 1972 e 1975. Entretanto, já em 1957, tinha sido convidado pelo professor Vitorino Nemésio, então director da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a leccionar as cadeiras de História da Cultura Clássica e de História da Civilização Romana. Mais tarde regerá também a cadeira de Filosofia Antiga e Ontologia. Participa na vida da comunidade académica, em Portugal e no estrangeiro, sendo admitido como sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. Em 1981, recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Lisboa e, dois anos mais tarde, a condecoração de Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada. 

Testemunhos de alunos e condiscípulos referem a sua vasta cultura, o seu poder de síntese, a clareza e o vigor da exposição, bem como um comportamento afável, acolhedor e de diálogo. Era considerado um autêntico pedagogo humanista que primava por uma arguta atitude crítica do passado e do presente e aplicava com sabedoria as lições da História do homem. Comenta Joaquim Coelho Rosa, assistente de Manuel Antunes na Faculdade de Letras, que dos fecundos anos de docência universitária ficaram, para as várias gerações de alunos seus, “a sabedoria”, “a afabilidade humana” e “o brilho humilde” de um professor cativante: “uma obra-prima de história e filosofia da cultura […], onde, a respeito de Gregos e Romanos, o leitor e o aluno é reenviado a si mesmo, à sua identidade de herdeiro de uma tradição milenária e multifacetada, aquilatada no verso e reverso das realizações Do espírito do tempo […]; a mestria irrepreensível da língua e o uso rigoroso e belo das palavras por alguém que viveu e chamou os seus contemporâneos Ao encontro da Palavra” (1989, p. 319). Entre diversos artigos, opúsculos e obras-síntese publicados ao longo da sua vida académica, podemos auscultar uma fecunda e original filosofia pedagógica, na qual sobressai uma teoria da educação baseada num personalismo humanista cristão militante. Segundo Manuel Ferreira Patrício, o pedagogo Manuel Antunes afirma a necessidade de fazer assentar uma teoria de formação do homem, numa antropagogia, ou seja, numa antropologia: Que podemos esperar? Que devemos fazer? Que podemos saber? (1985b, p. 540). Manuel Antunes entende que só “uma visão global do ser humano, retrospectiva e prospectiva, passada e antecipante, permitirá a organização de um sistema educativo digno desse nome” (1973, p. 43), um pouco na linha da filosofia pedagógica portuguesa contemporânea, de que são mestres Pascoaes, Leonardo Coimbra e Delfim Santos. Escreve Manuel Ferreira Patrício, que se considera um dos seus discípulos, que toda a obra do P.e Manuel Antunes é pedagógica, ou melhor, antropagógica: “Com efeito, o homem está no centro das suas preocupações. A vida de Manuel Antunes foi habitada pelo cuidado pelo homem. Ele não quis, no entanto, apenas conhecer e compreender o homem. Ele quis, com efeito, ajudar o homem a ser homem, a formar-se tão plenamente quanto possível como homem, a viver a sua vida de homem sob o signo do contínuo e exigente movimento do aperfeiçoamento” (1985a, p. 297).

Mais do que um humanista, Manuel Antunes era um personalista cristão. Defendia que o que deveria estar em causa eram os homens entendidos “como seres de carne e osso que não estruturas impessoais, seres com direitos e deveres recíprocos que não apenas abstractos”, “seres solidários de um mesmo destino terrestre e ultraterrestre”. A sua reflexão pedagógica insurge-se contra os homens esvaziados de humanidade, contra o “homem-máquina”, aquele que não é capaz de liberdade e responsabilidade, contra os “homens-espuma”, alucinados e alheios de si próprios. Manuel Ferreira Patrício (1986) acrescenta que “há todo um programa pedagógico transpositivista […], todo um programa de acção antropagógica no pensamento educativo deste pedagogo”. Neste sentido, defende o “primado das ciências do homem sobre as ciências da natureza”, contra a utopia do “cientismo míope” que distanciou o homem da sua interioridade, para que possa novamente caminhar no sentido de se conhecer melhor a si mesmo. Para Manuel Antunes, o fim da educação deve visar a entrega do homem a si próprio, a educação deve conduzir ao pólo oposto da alienação: homem sujeito e não objecto; pessoa em vez de coisa. Deve, portanto, combater o homem serial, que constitui a “multidão solitária”, o homem multidinário. Em sintonia com a doutrina do magistério eclesiástico, tal como é exposta nas encíclicas Pacem in Terris e Populorum Progressio e na Constituição Conciliar Gaudium Spes, do Concílio Vaticano II, bem como com a filosofia educativa expressa na Declaração Universal dos Direitos do Homem no tocante à educação e à cultura, acentua Manuel Antunes os traços salientes do personalismo cristão, onde a dignidade da pessoa constitui o leitmotiv de toda a acção educativa e cultural (Patrício, 1985b). Entende que uma teoria da educação tem de conter, necessariamente, uma teoria do Estado. Rejeitando todas as modalidades do Estado totalitário, argumenta, na sua obra Repensar Portugal (1979), que o Estado democrático, plural, tolerante é o único que é compatível com a liberdade e dignidade da pessoa humana. Na sua óptica, o Estado não deve ser o único, nem sequer o principal docente da Nação, mas sim um Estado aberto, que deve garantir a educação numa sociedade aberta. Mais: considera não ser possível uma verdadeira revolução política sem esta ter sido antecipada e preparada por um projecto educativo, ou seja, por uma teoria e uma práxis pedagógicas.

A sua obra mais importante, que condensa as reflexões mais significativas sobre a educação, reúne e aprofunda um conjunto de artigos compilados sob o título de Educação e Sociedade (1973). Aqui repensa a educação no plano dos princípios e dos fins, não deixando de adiantar sugestões práticas. Considera que “no contexto que é nosso, o sistema de educação, que se torna necessário redefinir, deveria girar em torno de dois pólos que mutuamente se atraíssem e influenciassem: a ciência e a sabedoria, os factos e os valores” (1973, pp. 13-14). Na educação pela ciência, qualquer que seja o ramo, valoriza o método em relação ao conteúdo propriamente dito: “Infelizmente, no ensino liceal entre nós vigente como, por vezes, no ensino superior, o que […] parece promover-se é a aquisição de dados e de conhecimentos, sem levar em suficiente linha de conta, nem a sua compreensão em profundidade, nem o caminho como a eles se chegou. Menos ainda parece exigir-se a sua integração numa totalidade mais vasta” (1973, p. 14). A ciência, no seu entender, deve ser fomentada com todo o empenho, mas deve essa dedicação ser acompanhada de sabedoria, de sensatez, de valores, de um sistema ético. Manuel Antunes foi também um pedagogo “prospectivista”. Nesta linha, entendia que a educação do futuro deveria ter em conta três vectores fundamentais – “fé na Ciência; confiança na Imaginação; abertura à Transcendência” (Patrício, 1986, p. 164) – para que todas as dimensões do homem sejam valorizadas e seja possível levar a cabo o seu programa ideal de educação: “a educação do homem todo e de todo o homem”, como projecto existencial de toda uma vida e da vida toda, de toda a sociedade e da sociedade toda. Nesta base teórica se funda a sua reflexão sobre a educação permanente. Considera que a educação deve ser enraizada na matriz cultural dos educandos; daí que ao repensar a educação em Portugal, repense na linha da sua integração valorizante da cultura portuguesa para que “a educação portuguesa seja educação e seja portuguesa” (Patrício, 1986, p. 181).

Manuel Antunes concebe o processo educativo como intrinsecamente relacional e dialógico entre o educador e o educando, e entre este consigo mesmo, de modo a conduzir a um aperfeiçoamento humano, a que ele designa de “capacidade educacional do homem” (1973, p. 139). De acordo com o seu pensamento, a teoria da educação deve fundar-se numa teoria da cultura, reivindicando uma ligação íntima entre ambas. Neste sentido, entende por educação “não o simples processo da didáctica escolar, mas, no sentido mais largo, toda a aquisição, transmissão, renovação e criação de ideias, de comportamentos, de formas e de símbolos expressivos”, ou seja, “mais sinteticamente: a educação é a reflexão e o projecto de uma cultura” (1973, p. 11). A sua filosofia educativa discerne a educação como um processo de humanização e de regeneração social, o meio certo para fazer face às crises inevitáveis da sociedade humana: “na crise radical que atravessa o mundo e à qual nenhuma nação e mesmo nenhum indivíduo escapam ou sequer, no limite, podem escapar, a educação constitui um dos básicos elementos salvadores” (1973, p. 35). Isto porque a “noção de educação remete, desde logo, para as concepções últimas do Homem, do Mundo e da Vida, para a questão dos fins e dos meios, para a floresta altamente embrenhada das implicações da natureza na cultura e da cultura na natureza, para o universo, mais delicado e embrenhado ainda, das relações entre indivíduo e sociedade, e, entre estrutura e génese, entre essência e história” (1973, p. 35). A filosofia e a teologia têm, na classificação e possível resolução desses problemas, uma posição fulcral. Mas, para o mesmo efeito, contribuem necessariamente tanto as ciências da natureza como as humanas. Na verdade, a totalidade do saber sobre o Homem, o Mundo e a Vida. Para tal, considera o método lexiológico insuficiente e também não é satisfatório o da “circum-navegação” pelas teorias e definições que da educação têm sido dadas e formuladas. A metodologia que se lhe afigura mais apropriada é a de “tentar relacionar certos temas que a educação implicar ou tentar justificar uma definição escolhida entre as várias possíveis” (1973, p. 38). O pedagogo entende que nada é mais perigoso do que orientar a educação por ideias incompletas, assumidas com cariz dogmático e totalizante. Neste sentido, escreve: “Uma educação ou é total ou simplesmente não é. Uma educação ou tem em conta todas as aspirações do homem ou não passa de um logro” (1973, p. 38). O seu pensamento pedagógico é essencialmente axiológico, isto é, pensa a missão da educação como uma acção promotora e instauradora de valores, pois o valor é entendido como o pólo aglutinador de tudo o que é educativo. A educação é um projecto construído a partir de uma relação interpessoal. A essência dessa relação é “nos seus termos mais simples uma consciência e uma liberdade” (1973, p. 39).

O autor escreve ainda sobre outras áreas temáticas no campo da educação, levantando questões e apontando sugestões. A sua grande preocupação consiste, sempre, em integrar criticamente os conceitos e as suas inter-relações significativas. Os seus diversos artigos publicados na Brotéria apresentam reflexões sistemáticas sobre problemáticas que vão desde a “Reforma do ensino superior” (1971) até às questões da “Educação Permanente” (1977). A sua análise aponta insistentemente para a necessidade de fomentar um espaço de participação alargada e crítica dos vários intervenientes na “empresa” da educação, para o incremento de uma criatividade aberta que promova e eleve o homem e coloque as estruturas acessórias ao serviço de uma maior eficácia e proficuidade de resultados. Isto porque tinha a intuição que o homem contemporâneo possui a consciência de que, actualmente, tudo está em questão: princípios e preceitos, formas e conteúdos, estilos e modelos de vida. Logo, os caminhos que se abrem ao homem são, como nunca foram, “impressionantemente numerosos e labirínticos”. Por isso, entende ser uma tarefa “fundamental e urgente, pensar a educação” (1973, p. 33).

Bibliografia

Ao encontro da palavra, Lisboa, 1960. Do espírito e do tempo, Lisboa, 1960. Educação e Sociedade, Lisboa, 1973. Repensar Portugal, Lisboa, 1979. Brotéria. Presença.

Trabalhos sobre o(a) autor(a)

António Leite, “Padre Manuel Antunes, S. J. (1918-1985)”, Brotéria, vol. 120, 1985, pp. 243-252. 

Manuel Ferreira Patrício, “Notas sobre o pensamento pedagógico de Manuel Antunes”, Brotéria, vol. 121, 1985a, pp. 297-316. 

Manuel Ferreira Patrício, “A antropologia de Manuel Antunes”, Brotéria, vol. 121, 1985b, pp. 540-554. 

Manuel Ferreira Patrício, “A educação para amanhã na pedagogia de Manuel Antunes”, Brotéria, vol. 122, 1986, pp. 163-181. 

Joaquim Coelho Rosa, “Manuel Antunes”, in Enciclopédia Logos, Lisboa-S. Paulo, 1989, pp. 318-320.

Biógrafo(a): José Eduardo Franco

FONTE (Texto): NÓVOA, António & BANDEIRA, Filomena (coord.). (2005). Dicionário de Educadores Portugueses, Biografia 64 [CD-ROM]. In A. Nóvoa, Evidentemente: Histórias da Educação. 2ª ed. Lisboa: ASA Editores. 

FONTE (Retrato): Toponímia de Lisboa: Rua Padre Manuel Antunes

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APARÍCIO, Sebastião

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BARRADAS, António de Matos Pereira

BERNARDO, Joaquim Nunes

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CASQUILHO, João de Oliveira (1834-1934)

Cidadão nascido em Ortiga (Mação), concedeu vários apoios financeiros destinados ao melhoramento desta localidade. Para além de elevada doação ao projecto do cemitério, consta que, em 1923, foi responsável pelo financiamento integral da construção da primeira fonte pública, no centro da Ortiga, da exploração e da rede de canalização da água potável desde a Corga das Figueiras, bem junto do Vale Grande, até à referida fonte. Respeitado industrial de Tomar (fundador da fábrica de papel da Matrena), terá exercido a sua influência política junto do Poder Central para a elevação da Ortiga a Freguesia (como aliás, consta, no preâmbulo do Decreto nº 15324, de 31 de Março de 1928, que cria a freguesia de Ortiga).

Praça Dr. João Oliveira Casquilho, Ortiga (Mação)

Bibliografia: [desconhecida]

Trabalhos sobre o(a) autor(a):

ROSENDO, Joaquim (dir.). A Freguesia de Ortiga: Revista comemorativa do 20º aniversário da fundação da Freguesia de Ortiga e do 50º da sua integração no concelho de Mação, Número Único, Setembro 1948, p.6;

SANTOS, Joana Rita (2018, 22 Abril). “Mação: Há 90 anos fez-se a vontade do povo e Ortiga nasceu freguesia,” MedioTejo.net

(s/a). “5002 – Praça Dr. João Oliveira Casquilho (PR4),” Rotas de Mação

Biógrafo(a): Joaquim Rosendo

FONTE (Texto): ROSENDO, Joaquim (dir.). A Freguesia de Ortiga: Revista comemorativa do 20º aniversário da fundação da Freguesia de Ortiga e do 50º da sua integração no concelho de Mação, Número Único, Setembro 1948, p.6; “5002 – Praça Dr. João Oliveira Casquilho (PR4),” Rotas de Mação; “João de Oliveira Casquilho,” Geneall.net

FONTE (Retrato): ROSENDO, Joaquim (dir.). A Freguesia de Ortiga: Revista comemorativa do 20º aniversário da fundação da Freguesia de Ortiga e do 50º da sua integração no concelho de Mação, Número Único, Setembro 1948, p.6;

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CASTANHEIRA, Acúrcio (1895-1979)

Nascimento: Pedrógão Grande (05/11/1895)

Morte: Queluz (13/06/1979)

Biografia

«Cabeça bem mobilada

A do Dr. Castanheira!

Em Proença, outra não houve

Que lhe tomasse a dianteira.»

Padre Paixão

Acúrcio Gil Carvalho Castanheira, nasce em Pedrógão Grande no dia 5 de Novembro de 1895, em casa já desaparecida do Adro da Igreja Matriz. A mãe, Maria Júlia Farinha de Carvalho Castanheira, era doméstica como todas as mulheres do seu tempo. Seu pai, Manuel Simões Castanheira, era farmacêutico pela Escola Médica de Lisboa e foi por largos anos, até 1934, o proprietário da farmácia de Pedrógão Grande. Sendo o mais novo de três irmãos (sobreviventes), Acúrcio foi o único a acolher como herança, pelo lado paterno, o gosto nato pela medicina. Já seu avô havia exercido, na freguesia da Graça (Pedrógão), a missão de cuidar de doentes: era “médico-barbeiro”, conforme se dizia naquele tempo.  Acompanhado por sua mãe, foi viver para Coimbra aos nove anos, para frequentar o segundo grau da instrução primária, na escola da Sé Velha. Nessa cidade cursou o Liceu e a Universidade, tendo concluído a formatura em medicina em 1919 com a classificação de 15 valores, nota pouco comum à época. Durante o curso universitário fez “sebentas” (textos de estudo para os colegas), e começou a ajudar os pais no suporte das suas despesas, dando explicações. Nascido e criado em tempos difíceis, desde cedo Acúrcio transpôs para a sua prática médica aquilo que aprendera pelo exemplo paterno: na farmácia de seu pai, ninguém ficava sem medicamentos mesmo que os não pudesse pagar (como ainda hoje o testemunham os mais idosos de Pedrógão Grande). 

Em 1919, após a conclusão dos seus estudos médicos, casou com Regina de Andrade Nogueira, também natural de Pedrógão Grande. Deste casamento nasceram três filhos, um, também de nome Acúrcio, falecido de acidente aos onze meses, e uma filha. Ficou viúvo em 1934. Contraiu segundo matrimónio, em 1935, com Lídia Antunes, natural de Crujeira, Proença-a-Nova, de cuja união nasceram cinco filhas. Toda a sua carreira profissional decorreu em Proença-a-Nova, exercendo funções de 1920 a 1976 como médico de província. Tomou posse do Partido Médico em 22 de Janeiro de 1920 tendo sido Médico Municipal e Subdelegado de Saúde do Concelho durante 45 anos, até à aposentação em 5 de Novembro de 1965, data em que, para funções oficiais, atingiu o limite de idade: 70 anos. Trabalhou, no entanto, mais uma década, afastando-se do exercício da medicina após ter completado 80 anos de idade. Por ocasião da sua aposentação, terá dito aos seus filhos: “Reformo-me, antes que os doentes me reformem” (Janeiro de 1976).

Num livro dedicado à vida e obra de seu pai, Maria Albertina Castanheira Batista recorda-o nos seguintes termos: 

“Era homem de baixa estatura. O seu Bilhete de Identidade registava um metro e cinquenta. Cabelo escuro, por fim grisalho, liso e sempre bem penteado em marrafa, sobre testa ampla, emoldurava um rosto simpático e expressivo iluminado por dois olhos grandes, castanho esverdeados, que alternavam entre o alheamento e a perspicácia, doces e meigos, autênticas janelas do seu estado de alma, riam ou choravam sem pedirem licença. As mãos, brancas e esguias, suaves e delicadas, não passavam despercebidas aos olhos dos doentes, que alguns ouvi recordarem-nas com ternura e mistério. Aspecto geral agradável e desenxovalhado, cuidava a imagem e a saúde com o ritual de quem precisa sentir-se bem na sua própria pele. (…) Prezava o conforto do vestuário e do espaço em que vivia; principalmente o gosto de possuir o que lhe proporcionava saúde ou satisfação, em detrimento do luxo, da propriedade, ou da conta bancária que nunca teve. Fora de casa ou do consultório, à sua pequena estatura, estava sempre associado o chapéu, a maleta e, no Inverno, o capote ou o sobretudo conforme o transporte, cavalo ou, mais tarde, carro. Do tempo do cavalo recordo, como sinal certo de saída para longe, os safões e os polainitos que tirava enlameados quando chegava a casa. Pelos caminhos, a pé, levava outro acessório: uma varinha de cana, já escura e polida pelo uso, porque tinha medo dos cães.” (BATISTA, 1999a: 16-17).

Segundo o próprio testemunho de Albertina Castanheira, em 1920 chegava-se a Proença-a-Nova por meio de “estradas de Mac-Adam: estreitas, sinuosas, medonhas”, sendo “lentos e rudimentares” os transportes que a ligavam ao mundo através de Castelo Branco, Sertã e Abrantes. Nesse tempo, poucas eram as casas que, fazendo jus a um progresso desejado, mostravam fachada caiada. Assim, triste e morena, a Vila aninhava-se junto à Igreja Matriz, Igreja da Misericórdia e Câmara Municipal, fechando o Largo Pedro da Fonseca com a “casa grande”, decadente, a Casa dos Minas. Com centro nesse espaço, a que se chamava Praça, por ser lá que se vendiam e trocavam os produtos da região em dias de mercado ou feira, os proencenses encontravam, em harmonia e simbiose perfeitas, respostas para as suas mais prementes necessidades. Na Igreja fortificavam a fé e buscavam consolo para as agruras da vida; no pequeno hospital da Misericórdia, na farmácia Roda, onde, na falta do mesmo, se improvisava o consultório, procuravam a cura para os males do corpo. Era junto à Igreja, na Pensão Condessas (propriedade das Senhoras Prudências), que se hospedavam os viajantes e funcionários que a esta terra vinham parar. Foi também aí que se instalou e deu consulta, o médico novo: Acúrcio Castanheira, quando em Janeiro de 1920, com apenas 24 anos, chegou a Proença-a-Nova. Tempos mais tarde, uma casa para habitação do médico havia de ser providenciada por um conterrâneo, o Sr. Francisco Luís da Silva, “pessoa com instrução e posses, muito generoso e amigo da sua Terra”. Á falta de outras casas disponíveis para alugar, e conhecendo as necessidades e limitações existentes no meio, foi o próprio Sr. Chico (como era conhecido localmente), quem facilitou a conclusão de um dos seus prédios, junto a S. Sebastião, para que o médico tivesse condições, trouxesse a família e se fixasse na Vila, para o lado das Azinheirias. O médico Acúrcio Castanheira habitou-a ainda sem estar rebocada por fora. Fez-lhe alguns melhoramentos com autorização do senhorio e, durante trinta anos foi abrigo do seu lar, espaço de consultório, cenário inesquecível da infância dos filhos.

Nos 23 anos que se seguiram viveu (e também teve consultório) no primeiro andar do prédio cor de rosa da Rua das Pereiras cujo senhorio era o Sr. Simão do Caniçal. Nos últimos dois anos que viveu em Proença habitou o rés do chão da casa de uma das filhas, no Bairro das Tílias. A Subdelegação de Saúde e, por alguns períodos o consultório, foi na Devesa, casa que faz esquina com a Rua das das Pereiras e que era propriedade do Sr. Fernandes do Galisteu. Aquela Proença-a-Nova dos anos vinte, marcada por um notório isolamento ao qual não foram alheias a instabilidade da Primeira República e as consequências da primeira Grande Guerra, não viria a modificar-se, significativamente, nas cinco décadas de vida activa de Acúrcio Castanheira. O progresso chegava lento. As receitas da Câmara eram irrisórias, as benesses do Poder central raras, os responsáveis políticos cristalizavam no Poder e a riqueza humana, principal alavanca do desenvolvimento, procurava noutras paragens o que ali não havia.

Poucas foram as obras de interesse público a marcar estes tempos, naquela região. As duas vilas do Concelho, Proença-a-Nova e Sobreira Formosa, adormeceram dentro de limites quase ancestrais e imutáveis. A indústria, caseira, ficou-se por uma fábrica de cortiça, outra de rolhas, poucas serrações de madeira e alguns lagares. As actividades culturais tinham fraca expressão. A capacidade de iniciativa não era apoiada. O crescimento urbano não existia. O analfabetismo era uma constante. Já nos anos sessenta, obrigou-se ao levantamento das estrumeiras, mas não se pavimentaram as ruas, não se fez o saneamento nem se deu energia eléctrica. As ligações com a Vila, só pontualmente, receberam beneficiação e a desertificação foi acontecendo, lenta e sorrateiramente, até à flagrante evidência dos dias de hoje.

Acúrcio Castanheira, sendo um médico e um homem do seu tempo, não se coibiu, apesar  disso, de constituir um exemplo de excepcional singularidade no meio socio-cultural onde habitou e onde foi um influente participante, quer como médico, quer como cidadão. A sua visão esclarecida e nítida sobre o futuro, bem como o alcance e persistência do seu legado nos dias de hoje, não poderá ser compreendido sem uma análise histórica das estruturas organizacionais do serviço de saúde de então – os Partidos Médicos – e os seus meandros sociais (naquele meio rural da província do interior-centro de Portugal). 

Os Partidos Médicos eram determinadas áreas geográficas com as respectivas componentes sociais, atribuídas aos cuidados de um médico. Criados pelas Câmaras Municipais, às quais cabia a responsabilidade pela assistência médica dentro dos respectivos concelhos, formavam-se baseados em critérios lógicos como área territorial, densidade populacional, distâncias, acessos e condições de fixação e sobrevivência para o médico. Ao titular de um Partido Médico chamava-se Médico Municipal. Os Partidos Médicos eram postos a concurso através do Diário do Governo, sendo as nomeações da competência das próprias Câmaras. A estas, cabia ainda, estipular e atribuir os vencimentos dos Médicos Municipais, determinar tabelas de preços para os diversos serviços clínicos, fixar tabelas de deslocação e contribuir com subsídios para o tratamento de doentes pobres que, por indicação do médico, necessitassem recorrer aos serviços dos Hospitais distritais ou centrais. Cabia, por sua vez, aos Médicos Municipais, o dever de prestar cuidados médicos na área do seu Partido – grátis às pessoas sem recursos – estar de serviço 24 horas por dia e não se ausentar sem autorização da Câmara e sem deixar assegurado o serviço por um colega, sob a sua responsabilidade material. De comum acordo e sem encargos entre si, acontecia substituírem-se, voluntária e mutuamente, dentro do concelho, os médicos dos vários Partidos.

O Concelho de Proença-a-Nova tinha, no início dos anos vinte, dois Partidos Médicos, o de Proença-a-Nova, vago, por ter pedido exoneração o Dr. José Pinto da Silva Faia, que compreendia as freguesias de Proença, Peral e S. Pedro do Esteval, e o de Sobreira Formosa, cujo titular era o Dr. Manuel Ferreira de Matos, na altura sem exercer funções, devido ao desempenho de cargo político distrital e que compreendia apenas a freguesia de Sobreira Formosa, cuja área era a mesma que viria a englobar, mais tarde, as freguesias de Alvito da Beira e Montes da Senhora. Em 1935 o Partido Médico de Proença-a-Nova foi dividido em dois, pela criação do Partido Médico de S. Pedro do Esteval.

Toda a área pertencente ao Partido Médico de Proença-a-Nova era, com excepções menores, de uma pobreza acentuada para os padrões da época e de miséria. Os caminhos íngremes, mal abertos, poeirentos ou enlameados, ligando as povoações entre si e à Vila, tornavam as distâncias penosas para quem tinha que as vencer. Homens, animais e carroças eram os meios de transporte que, por essas dolorosas vias, mantinham ligadas, para sobreviverem, as terras e as gentes. Vivia-se, quase exclusivamente, da agricultura familiar e de subsistência. Os cereais eram a principal moeda de troca para aquisição de outros bens essenciais, incluindo os serviços do médico.

Das hortas, da matança anual do porco e da capoeira alimentavam-se as famílias que, ciclicamente, tinham ou não para comer, conforme a terra, bem regada com o seu suor, se abria em colheitas férteis que até para o gado chegavam, ou se fechava adormecida na dança das estações, não restando para pôr na panela mais que as batatas, guardadas no palheiro, e as folhas de couve ratinha que resistiam às invernias rigorosas, “adubadas” com toucinho da salgadeira, se era ano de não haver azeite.

A generalidade da população vivia em casas pequeníssimas, escuras, sem conforto algum nem as mínimas condições de higiene. Nos quartos, onde a inexistência de janela era regra, cabiam apenas os bancos que suportavam a enxerga de palha centeia ou o colchão de capuchas de milho, arremedo de cama, sem lençóis, cujo único agasalho eram as mantas de trapos que as mulheres sabiamente rasgavam, torciam com o fuso e juntavam no tear. Nas cozinhas, térreas ou de lage, onde o castanho acinzentado do xisto das paredes, dava lugar ao negro retinto, provocado pelo fumo das lareiras, sem chaminé, fazia-se a vida social das famílias. Nas longas noites de Inverno só ali se acendia a candeia, única luz de toda a casa, que a mãe, sempre a última a ter direito ao descanso, apagava antes de se deitar.

Em cada povoação, uma ou duas casas sobressaía do conjunto nivelado pela pobreza. Maiores e mais arejadas, com vidros nas janelas, quartos com cama e lavatório de ferro, já tinham lençóis e toalhas de tear em linho ou estopa; na sala havia um relógio, de pé ou de parede, um louceiro, mesa e cadeiras. Foram as cozinhas destas casas que primeiro tiveram chaminé. Eram as residências de quem tinha mais propriedade, um criado, uma junta de bois, dois ou três porcos, um rebanho e um pastor.

Embora cada família trabalhasse e vivesse dos seus dispersos retalhos de pequeníssima propriedade, por ocasiões de tarefas específicas que requeriam mais braços, fazia-se vida de entreajuda nas ceifas, malhas e debulhas, na apanha da azeitona e matança do porco, nas festas de cada lar, no nascimento, na doença e na morte todos eram solidários. 

Para os mais abastados trabalhavam, à jorna, os que menos tinham. Porém, patrões e jornaleiros, dobrados à terra, curvados sob o mesmo sol, mourejavam, num esforço hercúleo, para conseguirem o pão de cada dia. Aos primeiros, sobrava-lhes o suficiente para porem alguns filhos a estudar num Seminário. Aos segundos restava-lhes a porta da emigração. O que a terra dava não chegava para as numerosas proles de cada família que, por isso, nem mandavam os filhos à escola primária, porque pô-los a servir, como criados ou pastores, era uma fonte de receita necessária ao agregado familiar, ajudando ao sustento dos mais novos.

As sopas de vinho, tão ironizadas hoje, como sinónimo de ignorância das gentes, eram, quantas vezes, recurso único para matar a fome aos que ainda não comiam da bacia comum, as couves, o toucinho, a farinheira e a broa de milho. Mergulhar bem nas dificuldades desse tempo, só superadas na crença profunda em um Deus-Pai que ampara e ajuda, é compreender como só vocações sacerdotais, de fora aqui chegadas, podiam ganhar raízes, quer fossem médicos, professores ou simples artesãos.

Mais desafogados viviam os poucos comerciantes que acumulavam a actividade com a sua casa agrícola e, podiam ajudar os que menos tinham, vendendo fiado em troca do cereal ou do azeite que lhes era entregue no tempo das colheitas. Eram como uma verdadeira banca de crédito, indispensável àquela gente pobre, mas lucrativa como toda a banca e, sem regulamentos definidos ou controlos, apenas dependente da boa consciência dos “banqueiros”.

Outra autêntica instituição financeira, verdadeira Bolsa de Valores, nesses tempos em que não havia pinhal, era a criação familiar de juntas de bois e o seu mercado mensal. Os bezerros adquiridos ajudavam na lavoura enquanto cresciam e engordavam para, meses depois, voltarem ao mercado e deixarem de lucro algumas notas. Tão importante este negócio para os pequenos lavradores que até tinham organizada uma mútua de seguros para as perdas por doença. Era esta a moeda que circulava na região, além dos magros ordenados dos poucos funcionários públicos.

Em cartas datadas de 21 de Abril e 2 de Junho de 1920, já Acúrcio Castanheira, ainda na descoberta de si próprio e do meio, levanta o véu às precárias condições do espaço físico e social em que trabalhava:

“Este mez não tem sido de muitos lucros, por enquanto, apesar de algum trabalho. Nem sempre podemos trabalhar para quem pode e às minhas obrigações não gosto de faltar. Não é meu feitio desprezar o pobre e como tal algumas sahidas tenho feito sem remuneração. Há dias deram-me duas perdizes, pagando serviços grátis. Eram do primeiro doente pobre que tive de socorrer fora da vila. Mesmo pobre conseguiu uma oferta!” (BATISTA, 1999a: 27).

“Se te disser que sahi de casa às seis horas da manhã. Fui ao Pergulho e d’ali até à Moita e depois Proença. Calculo ter andado umas cinco léguas, a cavalo claro está, tudo isto por causa das malditas dysenterias de sangue. Tenho tido sorte com elas. Já visitei dois doentes depois de sacramentados e bastante aperriados, mas com um bocadito de sorte salvei-os. Isto dá lugar a que não fique um dia em casa. Este caso de hoje, isto é, o pior, tenho também esperança em salvá-lo. Correndo-me as coisas assim ando bem disposto, embora com algum trabalho.” (BATISTA, 1999a: 27).

Vivia-se na época a dura realidade das consequências da pneumónica. Não havia família que não estivesse de luto. Ainda se choravam os mortos e rezavam Ofícios pelos que a epidemia ceifara, fora o número impressionante dos que, à parte os surtos epidémicos, morriam dos pulmões. Convivendo com a doença profissionalmente, já no último ano do seu curso – pois na fase mais grave da epidemia foram os finalistas de medicina que auxiliaram os médicos da província no combate ao flagelo – indigitado para prestar serviço na zona de Figueiró dos Vinhos, viveu impotente tragédias humanas terríveis. Famílias inteiras deixaram de existir. Ao longo da vida, Acúrcio nunca esqueceu esse tempo pandémico que marcou a sua iniciação na vida profissional de médico. A esses respeito contou aos seus próprios filhos como, para proteger uma mulher em plena doença, tratou do funeral do marido, morto no quarto ao lado, cujo corpo fez sair pela janela, sem que a doente se apercebesse da viuvez e continuou a fingir visitá-lo até que ela ficou fora de perigo. Também, como acompanhou a loucura do médico local que, não conseguindo dominar o pânico, se recusava a sair do quarto, trabalhar e receber visitas para não ser contaminado. Era o colega a única pessoa consentida junto de si. Foi ele, por isso, que um dia, na visita regular da manhã, o encontrou sem vida. Tinha posto fim à angústia pelas próprias mãos.

As doenças virais de contágio respiratório foram desde sempre o grande problema e o objecto maior da sua causa científica e humanística. Mas eram também um inimigo muito pessoal. Ora, a tuberculose não era uma epidemia passageira mas sim doença terrível, altamente contagiosa porque podia transmitir-se por muitas vias incontroláveis, desde o ar aos alimentos e, ao tempo, sem vacina nem antibióticos, o ano inteiro dizimadora da juventude desses tempos. Perdera um irmão muito querido que tratara, em Figueiró, vitimado pela pneumónica e, em 1920, já vira falecer de tuberculose dois cunhados e sabia outros dois doentes, que vieram igualmente a falecer, sendo a própria esposa uma esperada sobrevivente. Estes casos são uma forte amostra do drama real que foi a sua vivência das doenças pulmonares. O seu interesse nesta temática era de tal ordem que decidiu dedicar-se ao estudo da sua profilaxia e cura, tendo subordinado a este tema a tese de licenciatura: Tuberculose Pulmonar (Sua história e profilaxia), 1919. De tal modo se sentia preparado para o seu acompanhamento e tratamento possível que, no seu primeiro papel timbrado para receitas, podia ler-se: “Doenças pulmonares; Partos; Sífilis”. Um dia, ao ser confrontado com a pergunta da sua filha Albertina “Porquê Proença?”, Acúrcio Castanheira não hesitou em responder: “Pelo excelente clima. Quis o melhor para minha mulher e meus filhos. Tu sabes que os tios de teus irmãos sucumbiram a doenças pulmonares”. O micro-clima de altitude, caracterizado por ar seco e muito oxigenado, como definiu o clima de Proença, foi o álibi que fez dela terra de eleição para, por amor aos seus, em primeira instância, se fixar.

“Médicos a trabalhar em idênticas condições houve muitos por este país fora! Júlio Dinis, ele próprio médico, em As Pupilas do Senhor Reitor pintou o seu imortal João Semana. Mas criou-o seguramente à imagem de todos os que conheceu. E a verdade do retrato permitiu reconhecê-los por toda a parte neste país. Figuras de João Semana dispersas do Minho ao Algarve, passando talvez, sobretudo, pelos pobres Trás os Montes, Beiras interiores e Alentejos, desconhecidas a maior parte, não são tão escassas como distraídamente se imagina. Acúrcio Castanheira é um desses. Na terra que lhe aconteceu, Proença-a-Nova, trabalhou cinquenta e cinco anos, sem férias, vinte e quatro horas de serviço por dia, sem horários no consultório ou de visitas ao domicílio na Vila ou por caminhos, debaixo de chuva ou neve, fustigado pelo vento ou sob o calor de sol ardente, de dia ou na escuridão da noite para chegar às povoações, toda a vida mantendo o seu caracter pessoal: nem a pobreza e a falta de condições do meio, nem o isolamento, nem as agruras, nem o magro pão de cada dia, o fizeram demitir-se do dever, ou descair da Esperança!” (BATISTA, 1999a: 33).

“Na medicina acompanhou tudo: dos chás às papas de linhaça, das ventosas às sangrias e às pontas de fogo, das recomendações de ovos, de leite, de ares, de banhos, de longos repousos e de medicamentos receitados para aviar na oficina da farmácia – misture e mande, mais doze iguais; percorreu as vacinas sucessivamente descobertas, rejubilou com as sulfamidas e novos medicamentos que a química foi proporcionando; recebeu, feliz, a penicilina e todos os antibióticos que a seguiram. Usou os avanços dos meios auxiliares de diagnóstico. Tudo acompanhou, tudo desejou e com entusiasmo festejou, quando com o tempo iam chegando, e tudo usou, continuamente actualizado: pela sua biblioteca ao longo do tempo renovada – na Livraria Moura Marques de Coimbra teve sempre conta aberta – mas também, pelo relacionamento assíduo com problemas médicos e cirúrgicos através de contactos com professores e colegas amigos, indo ao seu encontro quando acompanhava doentes a Coimbra. A Ciência para ele era uma segunda religião. Acolhia as novidades com confiança total. Já não pôde conhecer grandes progressos na cura do cancro, mas acreditava que ela ia acontecer. No caminhar do mundo, a chegada da rádio, da televisão e a ida do Homem à Lua, no plano material tanto como no espiritual, o acontecimento religioso do Concílio Vaticano II, ou a esperança de progresso que poderia advir da mudança do 25 de Abril, mesmo quando o apanharam já na década dos seus setenta anos, foram vividos com exuberante alegria. Nos últimos tempos dizia um dia: ‘Não vou viver muito mais tempo e tenho pena. Porque vêm aí muitos prodígios da ciência e eu não vou ver!’ Tudo o que era para bem – crescimento e dignidade do Homem e da sociedade – tinha nele um estudioso, um entusiasta, um apoiante.” (BATISTA, 1999a: 33-34)

Durante toda a sua vida Acúrcio Castanheira foi um fiel apóstolo e combatente pela causa da Saúde Pública. Foi Subdelegado de Saúde do Conselho de Proença-a-Nova desde que tomou posse como Médico Municipal, embora a nomeação oficial para o cargo só tivesse sido publicada no Diário do Governo de 17 de Maio de 1920, até à aposentação em 1965. Foi devido à sua extremosa dedicação e zelo profissionais, nomeadamente, na aplicação exigente de medidas de prevenção, que desde a sua chegada ao Concelho de Proença (e não obstante a miséria e a ausência prolongada de hábitos e condições de higiene que ali persistiam), foi possível ver erradicadas do seu território, doenças mortíferas ou que deixavam marcas, como as (bexigas) varíola, o tifo (febre tifóide), o garrotilho (difteria) e a tuberculose. De 1920 até à criação do Centro de Assistência Social em 1947, realizou, sozinho, periódicas e diversificadas Campanhas de Vacinação que, ano após ano, empenhadamente solicitava e executava, quase que ao domicílio, por todas as freguesias e aldeias maiores ou mais distantes do concelho. Tinha apenas a colaboração dos párocos e dos professores primários. Os primeiros liam, nas Missas dominicais, os avisos à população. Os segundos, cediam as instalações das escolas e ajudavam incentivando as pessoas e fazendo o registo dos vacinados. Também o Sr. António Inácio, barbeiro de profissão e zelador da Câmara, foi seu “assistente e escriturário” nestas assíduas andanças profiláticas pelo concelho. Quando começou a ser necessário elaborar, em triplicado, mapas do serviço realizado, ao serão, a família ajudava, escrevendo dois, o que um terceiro ditava, porque não havia fotocopiadoras e o papel químico era manhoso e caro.

Em cartas datadas de Abril de 1920, Acúrcio Castanheira relata à família que só numa escola vacinou oitenta e cinco rapazes e raparigas e que no dia seguinte a vacinação continuaria, prevendo muito que fazer. Referia-se à vacina, já obrigatória, contra a varíola sobre cuja erradicação António Castanheira (irmão mais velho de Albertina, e médico também) comentava: “Não me lembro de ouvir falar de bexigas, desde criança, e quase desafio quem me desencante proencenses bexigosos.” Outros males como a lepra e o bócio, lhe mereceram igual atenção e acompanhamento na prevenção e extermínio. Segundo a sua filha Albertina: “ainda recordo a regularidade com que, os poucos que nos anos quarenta sofriam de lepra, iam ao consultório buscar os medicamentos que o Hospital Rovisco Pais de Coimbra enviava para tratamento ambulatório, sob responsabilidade do Subdelegado de Saúde. Conhecia-os porque, só a eles, a criançada da casa não devia abrir a porta, sem a presença de um adulto.”

Ainda segundo testemunhos de António Castanheira, (memórias dos seus vinte anos quando, com os estudos interrompidos, foi funcionário da Tesouraria de Finanças em Proença e, colaborador interessado e crítico do trabalho e das condições físicas e psicológicas em que o Pai o exercia): “existia lepra mas não era um flagelo na zona. Mesmo assim, o medo dela assustava a população perante a suspeita. Sobretudo depois da bem intencionada Leprosaria Rovisco Pais, as populações denunciavam os suspeitos. Lembro-me que fui um dia aos Carregais, serra fora, por causa de uma pelagra. Acompanhado pelo António Inácio, para impor respeito. Toda a gente fugia à nossa aproximação!”.  A pelagra é uma doença com manifestações nervosas e cutâneas nas áreas expostas ao sol, logo aparecendo no Verão Verão, em pessoas com avitaminose provocada pela exclusiva ingestão de pão de milho. A boroa era a dieta anual, lá vinha o calor e… mais lesões da pele. “Era preciso conhecer a lepra, mas também o que ela não era e Acúrcio Castanheira sabia-o.”

O bócio também afligia as comunidades locais com relativa frequência, especialmente na área sudeste do concelho. Principalmente mulheres, com um grande papo no pescoço, visível quando o calor as obrigava a desatar o lenço, era imagem muito comum até aos anos cinquenta. Foi por intermédio do Subdelegado de Saúde, através dos Serviços distritais, que nos anos sessenta chegou às escolas primárias das zonas mais atingidas o suplemento alimentar para as crianças que, com a melhoria das condições económicas, ajudaria a eliminar o problema. 

Porém, flagelo maior que os antes citados era o tifo, a febre tifóide, porque profundamente instalado como doença endémica, com seus picos sazonais, que, sem escolha de idades, matava todos os anos numerosas pessoas de entre as muitas dezenas de doentes. Vítimas do tifo eram, em primeira instância, as mesmas que no dia a dia sofriam de um cortejo de males provocados pelas más condições higiénicas gerais, do ambiente e dos costumes. Em segunda instância aqueles que, por se movimentarem no mesmo labirinto social, nomeadamente crianças, eram contagiados. “No tocante à febre tifóide, sou testemunha da calamidade da doença quando entre 1938 e 1942, depois de sair da Tesouraria, prestei cuidados de enfermagem por todas as aldeias dos arredores de Proença, a vigiar doentes, a dar injecções e administrar balões de soro e a assistir a grandes ansiedades, ver morrer jovens e velhos e saber que se contribuía para salvar mais alguns que os valentes, todos múmias vivas escapadas, viravam fomes sôfregas, quantas vezes sem terem com que as saciar!” – assim recorda António Castanheira.

Perante quadros tão comuns e desumanos, Acúrcio Castanheira não se coibiu de fazer sua  a missão de lutar contra o flagelo da febre tifóide em toda a área do concelho de Proença. Enquanto   Subdelegado de Saúde colocou em marcha uma Campanha de Vacinação, pesasse embora, sobre ele, uma grande responsabilidade e maiores trabalhos. A febre tifóide era endémica e, no começo das chuvas, muitos poços eram inquinados pela infiltração das águas poluídas pelas fezes depositadas em todos os terrenos e caminhos. Não existiam casas de banho, as pessoas faziam as necessidades em qualquer recanto e nos currais, cujo estrume servia para adubar as terras. Então, brotava o pico anual da endemia, que fazia doentes em várias casas em cada povoação e, muitas vezes, vários doentes em cada família. Não havia sulfamidas eficazes e estávamos ainda muito longe de chegar à cloromicetina.

Mas Acúrcio Castanheira sabia que na Grande Guerra de 1914-1918 a vacinação nas trincheiras tinha evitado já muitos mortos. Porém, apesar da eficácia ser conhecida, a vacina continuava a não ser ainda obrigatória. O Subdelegado de Saúde de Proença aproveitando o empenho e apoiando o Delegado de Saúde do Distrito, Dr. Lopes Dias, requisitou e obteve da Direcção Geral de Saúde de Lisboa, as doses de vacina necessárias para uma campanha concelhia. A vacina era injectável, e eram precisas duas inoculações, a meses de intervalo, para obter eficácia completa. No primeiro ano as pessoas não acreditavam, muitos fugiram ao incómodo ou ao desconhecido. Mas, no segundo ano da Campanha, não faltou ninguém. No fim do pico epidémico seguinte à primeira vacinação, só os não vacinados adoeceram. Todo o povo ficou rendido a este milagre da medicina. Passando até, nomeadamente, o ciclo da propagação pela conspurcação das terras e estrumeiras pelas fezes de infectados, o seu número reduziu-se e o grau da endemia caiu abruptamente. Estávamos nos anos da Segunda Guerra, por volta de 1943-1944, quando se fizeram estas campanhas de vacinação da febre tifóide. 

Quanto à tuberculose, nunca foi na zona, problema de maior. Salvo alguns casos isolados, apareciam para se tratarem “a ares”, alguns emigrados adoecidos pelas “Lisboas”. Acúrcio Castanheira acompanhava-os como a medicina dos tempos aconselhava. A sua sensibilidade para este terrível mal era não só profissional mas também sentimental. Diz Albertina Castanheira: “Estremecia quando ouvia alguém tossir!…E as crianças, no primitivo Centro de Assistência, foram sua particular atenção, na detecção das primo-infecções.” Para a cura de tosses persistentes, recomendava boa alimentação: ovos e gemadas diárias. Quando a vacinação com o BCG apareceu, empenhou-se nas campanhas de cobertura total da população infantil, como o fizera com outras doenças, nesses tempos já com a ajuda das funcionárias do Centro de Assistência.

A sua filha Albertina recorda esses tempos de grande azáfama no combate às doenças pulmonares: 

“Épocas houve em que as Campanhas de Vacinação lhe exigiam tantas deslocações pelo concelho que a Câmara lhe atendia o pedido de atribuição de subsídio para fazer face às despesas acrescidas com transportes, quer fosse cavalo ou carro. Carro e cavalo eram seus e essas ajudas, para desgaste, gasolina ou palha, eram “pequenas rações” que, logo a seguir eram cortadas, como se constata pelas actas das reuniões da Câmara próximas àquelas em que tinham sido concedidos, como suplemento adicional ao vencimento, ficando como sempre por sua conta as despesas com transportes ao longo dos tempos, porque estas, contabilizadas, teriam exigido certamente mais e maiores subsídios. Pela sua natureza, não raro, estas funções oficiais lhe acarretaram contrariedades devido à pouca instrução do povo aliada a interesses particulares que nem sempre coincidiam com a defesa da saúde pública e com a legislação em vigor que entendia dever cumprir. Lembro a falta de higiene pública, as fontes de mergulho, as estrumeiras nas ruas, os currais dos animais paredes meias com as habitações, as moscas e as doenças de Verão que elas transmitiam, como as disenterias e, consequentes desidratações, que muitas vidas de crianças ceifaram na primeira infância. Mas também o descontrolo no licenciamento da abertura de tabernas e ausência de horário de encerramento das mesmas, o mercado dos bois dentro da Vila, a urgência de saneamento público, foram questões quentes que se arrastaram por muitos anos, entre ele, as autoridades locais e alguma população. Oficiava, falava, fazia pedagogia formativa no jornal local e junto das populações, promovia palestras, propunha soluções de remedeio – baratas para evitar a desculpa de falta de verbas – como a construção de nitreiras, higiénicas e produzindo adubo de qualidade, melhor que o das estrumeiras e com os mesmos desperdícios deitados nelas mas, nada era ouvido.  Paciência!… Não se pode acordar antes dos outros abrirem os olhos!…Depois, até alguns voluntariamente cegos e moucos, vêm fazer, tarde demais, mas como se fossem iluminados o que há muito poderia ser orgulho seu e da Terra, tendo evitado doenças e contribuído para uma melhor qualidade de vida das populações, o que aliás, também não seria da sensibilidade geral desses tempos.” (BATISTA, 1999a: 44-45).

A Saúde pública foi para ele “um quebra cabeças – sempre!”. Mas Proença-a-Nova, neste domínio, não era um caso de excepção: era antes “o exemplo acabado daquilo que, por todo o interior do País se passava: serviços e poder enviesados, aturando-se ou ignorando-se mutuamente, adiando, voluntária ou involuntariamente, o progresso, até ao limite possível. Pelo meio, os que tinham perante a coisa pública, espírito de serviço e recta intenção, eram ignorados, perseguidos e silenciados” (BATISTA, 1999a: 47).

Acúrcio Castanheira viveu a sua profissão médica como se esta fosse uma vocação missionária. A sua própria filha Albertina reconhece que toda a carreira de seu pai se pautou por “valores vividos” que “fizeram dele um autêntico franciscano, um médico missionário, dentro dos apertados limites do Partido Médico de Proença-a-Nova, onde a pobreza era rainha e, juntamente com o analfabetismo, reduzia as pessoas à condição aparente de seres inferiores”. Entre esses valores contavam-se, por exemplo: a relutância em receber dinheiro por parte de quem não o tinha (prestava serviços médicos gratuitos sempre que suspeitava que o seu doente vivia em apuros económicos); a incapacidade de abandonar à sua sorte um doente pobre (pagava, por sua conta, medicamentos na farmácia destinados a doentes); o incómodo que sentia pelo facto de possuir bens não acessíveis a outros, pois acreditava que “todo o ser humano tem dignidade igual e o direito de a viver também materialmente”. Ao longo de toda a sua vida este médico não só limitou “voluntariamente” os proventos da sua profissão, como de facto “socializou”, a suas próprias expensas, os cuidados de saúde na região de Proença-a-Nova. Tudo lhe passou pelas mãos, e a nada ele se negou: “consultas, assistência ao domicílio, actos de enfermagem quando a não havia, tratamentos, pequenas cirurgias, partos, acompanhamento de doentes fora da terra e, nem a distância, nem o mau tempo, nem a noite, nem os maus caminhos, nem a perplexidade de uma emboscada, em tempos de ameaças, nem a certeza de que para além do serviço clínico, quantas vezes repetidamente continuado, tudo seria por sua conta, até à cura desejável, o desmotivavam”. Atendendo constantemente às emergências e condicionantes socio-económicas do meio rural e empobrecido onde vivia, durante toda a sua carreira de 55 anos Acúrcio nunca pôde, efectivamente, usufruir dos rendimentos que auferia como médico, pago pelo Estado. Se assim tivesse sido, certamente a sua existência (e a dos seus familiares) teria sido “bem mais desafogada”. Albertina Castanheira assim o relata: 

“Foi o agradecimento em géneros, pelos serviços gratuitos prestados, numa generosa reciprocidade e trilhando caminhos idênticos para socorrer ou agradecer, felizmente em grande escala, que tornou possível a Acúrcio Castanheira sustentar a família e educar oito filhos, com os sempre magros vencimentos oficiais que auferia e a soma dos valores simbólicos de cada avença, só significativa porque recebida junta. Das povoações próximas ou distantes, a pé, vinha muitas vezes em cesto carregado, feito quase sempre por quem o transportava, nele se empenhando em colocar: batatas, azeite, ovos, enchido, hortaliça ou fruta e até, no cimo de tudo, bem resguardados em folhas de couve, dois queijinhos frescos e, em guardanapo branco, as broas de mel ou as cavacas que o Sr. Doutor gostava tanto! Na mão, ainda, a cesta com uma galinha ou outro animal de capoeira!” (BATISTA, 1999a: 55).

Naquele tempo, a chamada “avença” era um sistema retributivo que permitia a alguns médicos de província (por conseguinte, residentes em meios pobres), garantirem a sua sobrevivência económica. Esta era uma solução viável para o acesso das famílias à assistência na doença, independentemente do número de pessoas do agregado familiar e das suas necessidades de saúde. Ali se incluíam os serviços prestados no consultório, ou em casa dos doentes, pelo período de um ano. Cada família contribuía com um pagamento anual único (por norma, um alqueire de trigo, mas também o centeio ou o milho, conforme a produção de cada ano e as posses de cada família). Todos contribuíam individualmente em beneficio daqueles que tivessem a infelicidade de estar doentes. Este sistema retributivo, por um lado, “tinha a vantagem de desinibir os que, por falta de meios, podiam deixar de recorrer aos serviços médicos de que necessitassem, evitando assim situações extremas, quantas vezes a morte” mas, por outro, “tinha a desvantagem de ser porta franca para se abusar do médico, muito especialmente das chamadas ao domicílio, sem justificação.” Foi no pós-Segunda Guerra Mundial (em finais da década de quarenta), numa época em que o pinhal começava a ser uma importante fonte de rendimento para a população em geral (através da exploração da resina), que esta avença passou a ser paga em dinheiro (cinquenta escudos ao ano). E assim continuou durante alguns anos. Subiu para oitenta e, à data da aposentação, o médico com setenta anos, era de cem. Com a passagem de Acúrcio Castanheira à situação de aposentado, terminou o sistema de avenças em Proença-a-Nova. Os serviços das Caixas de Previdência, já existentes, e depois da Casa do Povo, cobriram toda a população, sendo por isso desnecessária (BATISTA, 1999a: 56-58).

Na época do recém-criado Partido Médico de S. Pedro do Esteval (1935), Acúrcio Castanheira suspendeu as avenças, permitindo assim que cada família, em liberdade, escolhesse o médico que queria. O seu filho mais velho, António Castanheira, que nessa época cumpria horário na Repartição de Finanças, após encerrado o expediente ajudava o seu pai nos trabalhos de enfermagem na vila e, sobretudo, pelas povoações: dava injecções, verificava a febre e trazia referências sobre o estado dos doentes. Por este motivo estava a par de quase todo o trabalho do pai, verificando que raramente este fazia “registos”, e “muito menos cobranças”. Quando António chamou a atenção de seu pai Acúrcio para esta falta, ouviu em resposta: “A minha vida não é balcão” (BATISTA, 1999a: 58-59). Acúrcio Castanheira ainda hoje é lembrado pela filha Albertina como um “homem de fé” , “um crente nato e puro” que, não obstante, “necessitou de alguns períodos de afastamento da prática religiosa local, para marcar distância quando neles considerou haver beatismo ou clericalismo”. Proença-a-Nova, à semelhança de muitas províncias rurais portuguesas nessa época, era uma “terra de manifestações de crença”, com as suas “maravilhosas Imagens da Igreja Matriz ou da Misericórdia, tal como o Santíssimo Sacramento”, cujas procissões “eram uma ‘mó’ de povo!”. Embora ausente da prática religiosa pública, Acúrcio Castanheira respeitava e, a seu modo, integrava estes rituais simbólicos do Sagrado que marcavam o calendário e a devoção popular. Quantas vezes, do interior da sua casa, junto à janela se ajoelhou perante a passagem da “Custódia com o Santíssimo Sacramento, o Senhor dos Passos, o esquife com o Senhor Morto, ou qualquer das Imagens de Nossa Senhora”. Era devoto de Nossa Senhora, e no seu percurso das visitas aos doentes ou em família, rezava diariamente o Terço (BATISTA, 1999a: 66-69).

Albertina Castanheira testemunha os tempos difíceis vividos naquela região, e em todo o país, por todos em geral, e pelas pessoas de “fé” em particular. Relembrando os tempos que se seguiram ao seu regresso a Portugal, Albertina escreve, também a propósito de seu pai: 

“Quando em 1975 regressei de Angola, viviam-se em Proença-a-Nova e em todo o País, tempos difíceis. Quase não se sabia quem era quem e, os atropelos à dignidade, à honra, à crença e à liberdade de cada um, eram uma constante. Política e religião enovelaram-se de tal ordem que foi difícil manter equilíbrio, separar águas e ficar de pé. Noutras localidades da região teve que procurar os Sacramentos, porque aqui era incompatível ser-se cidadão livre e, simultaneamente, praticar-se a religião católica. No entanto, convicto de trilhar caminho que entendia certo, foi até onde os ideais da Revolução de Abril não colidiam com a sua convicção religiosa e Fé esclarecida. Magoado, contou-me:

– Vê tu, quiseram tirar a imagem de Nossa Senhora do átrio do edifício do Colégio. Não conhecem o Acúrcio Castanheira! Disse-lhes que isso só aconteceria se passassem por cima de mim. Escola Secundária e direitos do Povo não brigam com a Fé. É preciso ter limites. Escola de todos, para todos, sim. Banir Deus e Nossa Senhora da Escola, nunca!” (BATISTA, 1999a: 77)

(…) Alicerçado na velha máxima que assemelha o mestre-escola ao médico: Se a criança aprende – é inteligente, se o contrário se verifica – o professor não presta. Se a doença grave cura – é milagre; se o doente não resiste – a culpa é do médico.” (BATISTA, 1999a: 84)

Os aspectos da vida profissional de Acúrcio Castanheira, mais dignos de registo, estiveram sempre ligados à “coisa pública”, designadamente: a criação do Partido Médico de S. Pedro do Esteval (1935) e o Hospital de Proença-a-Nova (inaugurado em 1953), e o Centro de Assistência Social Materno-Infantil (1946). 

Quanto ao Partido Médico de S. Pedro do Esteval, importa antes de mais referir que a povoação e respectiva freguesia de S. Pedro do Esteval, situadas no extremo Sudeste do Concelho de Proença-a-Nova era, em 1930, uma das mais pobres e isoladas daquela região. 

“Os vinte quilómetros que a separavam da sede do concelho representavam, nos anos trinta, distância temível para quem tinha de a enfrentar a pé, de burro ou de carroça, por caminho mal acabado de piso irregular, poeirento ou enlameado. A aridez desta zona, a mais seca de todo o Concelho, nunca permitiu desafogos às suas gentes. Além da abundância de estevas, vegetação espontânea imortalizada na sua designação – Esteval – nada mais aparecia aos olhos do visitante, a quem, pelo caminho, forçosamente se punha a interrogação: de que vive esta gente? Era preciso embrenhar-se para as bandas da Lameira de Ordem e do Padrão para as hortas viçosas se mostrarem e as searas cobrirem outeiros, onde a esteva já não era a única planta capaz de sobreviver.  Riqueza, possuíam a mais digna: o carácter nobre e a inteligência das suas gentes. As crianças de S. Pedro distinguiam-se nos exames da quarta classe que, então, se realizavam na sede de Concelho.  Mas a freguesia era paupérrima. Na sede, uma loja onde se vendia de tudo: do bacalhau à chita, do petróleo ao açúcar, do nastro ao arame. Só dali se podia falar ao telefone, lá se bebia um copo, acolhido pela simpatia do proprietário, pessoa sempre pronta a ajudar e a resolver problemas de todas as espécies. Cedia espaço para que o médico desse consulta, fazia de enfermeiro nos serviços a prestar durante a semana e era, simultaneamente, presidente da Junta de Freguesia, apoio do professor, braço direito do pároco. Não havia: electricidade, farmácia, casas para aluguer, caminhos transitáveis a ligar as povoações… À Vila só se vinha em dia de feira e pela Semana Santa. Fora isso, só a urgente necessidade de serviços médicos fazia deslocar as pessoas. Embora todas as povoações do Concelho se nivelassem por pobreza idêntica, a verdade é que estavam mais próximo de recursos vitais e indispensáveis. S. Pedro do Esteval e, pelos mesmos motivos, a freguesia do Peral, sofriam no dia a dia, na pele, a culpa inocente de terem nascido longe. Até as tabelas, estipuladas pela Câmara Municipal, para as deslocações do médico (1º quilómetro 5$00 e os restantes a percorrer 2$50) marcavam essa culpa. Acúrcio Castanheira sempre discordou que aqueles que viviam longe pagassem mais pela deslocação do médico. Tentou, junto dos responsáveis, alterar a situação, mas nunca foi ouvido, nem por isso tendo deixado de agir segundo o seu critério, ficando ele próprio prejudicado. Sereno e convicto, punha a questão: Que culpa tem aquela gente de viver longe da Vila. Já lhes basta a distância que têm de vencer para virem chamar o médico ou comprar o medicamento, ainda hão-de pagar mais por isso?” (BATISTA, 1999a: 86-87)

Durante trinta e três anos (1920-1953), Acúrcio Castanheira dedicou-se ao exercício da medicina em todos os lugares remotos do Concelho de Proença-a-Nova, sem que existisse uma única estrutura de apoio ao seu labor. O Hospital só seria erguido já durante a segunda metade da sua carreira profissional. O Hospital, com capacidade de 21 camas e disposição preparada para mais 20, destinava-se a servir os 17000 habitantes do Concelho de Proença-a-Nova, foi inaugurado no dia 11 de Outubro de 1953 e só aberto ao público cerca de dois anos depois. O custo total da obra chegou aos 1.400.000$00. Para tal valeram os contributos de “patrícios” abastados, e então emigrados em terras de S. Paulo ao Pará, África e de todo o Concelho. Sem o auxílio destes particulares (e do Governo, na aquisição de equipamento), a obra seria “irrealizável”. O Hospital impulsionaria a criação do Centro de Assistência Social, por aprovação de 20 de Abril de 1946. 

No discurso que proferiu no dia de inauguração do Hospital, Acúrcio não se coibiu em manifestar o seu entendimento acerca daquilo que esta obra representava no quadro da assistência na doença em Portugal e, designadamente, nas regiões pobres e isoladas do interior. Perfilava-se, no seu entender, o advento de uma nova era para a realização profissional dos médicos e bem estar da população na doença. 

“A obra que acaba de inaugurar-se – o Hospital do Concelho – é o único melhoramento que na sua esfera de influência assistencial, mais de perto vem em auxílio da saúde individual e colectiva, enquanto que funcionará como instrumento de cura e de alívio ou de isolamento, como medida profiláctica, das doenças infecto-contagiosas.” (Acúrcio Castanheira, cit por BATISTA, 1999a: 102)

Porém, este feito inédito, longamente desejado e reclamado por Acúrcio Castanheira, relevar-se-ia mais uma fonte de decepção pessoal, e até desmerecimento, do que propriamente uma dignificação do médico e cidadão que, ao longo das décadas anteriores, havia servido incansavelmente, e como nenhum outro, a causa da saúde pública naquela região. No turbilhão de cenas e episódios que decorreram no antes e no depois da inauguração do Hospital, envolvendo várias instâncias de poderes locais instalados (nas suas habituais disputas por protagonismo e pelos lugares de destaque na organização e funcionamento do serviços hospitalares), Acúrcio Castanheira haveria de ser relegado para as funções de anestesista e, posteriormente, até desse cargo o haveriam de, injusta e traiçoeiramente, despojar. A longa série de eventos – dignos de “enredo de telenovela” – decorridos neste período da vida de Acúrcio Castanheira culminaria, inclusivamente, em ameaças por parte de colaboradores da PIDE em Proença. A respeito destes “maus tempos” vividos pelo seu pai, Albertina escreve:

“Se colocarmos nos pratos da balança, de um lado: o projecto inovador que Acúrcio Castanheira defendia para funcionamento do hospital, favorecendo a generalidade da população necessitada e a realização profissional de todos os médicos do Concelho, como ele refere no discurso que adiante transcrevo, mais o tempo de serviço que já contava, mais o mérito reconhecido desse serviço, mais a nota de formatura, mais o conhecimento profundo do meio, mais os cargos oficiais de responsabilidade de Saúde Pública que desempenhava na Terra e, no outro prato da balança: tudo o mais que fosse possível pesar para manter o statu quo, incluindo o pormenor de não ser Irmão da Misericórdia, fácil será concluir… Para que lado penderia ela?  (…) Seria lógico, e até justo, que Acúrcio Castanheira, como Subdelegado de Saúde e Médico Municipal, há trinta e quatro anos a exercer medicina no concelho, tivesse opinião sobre o assunto e, mais ainda, direito a expô-la e a ser ouvido. Mas assim não aconteceu. (…). Ao invés de júbilo por uma realização tão desejada, veio a frustração e o desânimo no culminar de uma bem orquestrada sequência de factos que o levaram a afastar-se e voltar a exercer clínica só no consultório e ao domicílio, com evidente dano para seu sentido elevado da profissão e claro prejuízo para si e seus doentes. Ao trabalho no hospital só voltou em 1962” (BATISTA, 1999a: 97-98, 107, 110)

Não obstante estas investidas, o seu “sentido lúcido da responsabilidade”, de quem “não se acomodava na apatia nem na indiferença”, não passariam despercebidos até nas mais altas instâncias. O seu evidente contributo no campo da Assistência Hospitalar, ao nível das regiões do interior do país, valeram-lhe “o convite que recebeu de esferas governamentais na sequência do discurso por ele proferido na inauguração do hospital, para fazer parte da Comissão de Saúde da Assembleia Nacional e mais tarde, do cartão de reconhecimento, enviado pelo então Ministro da Saúde, primeiro em Portugal – Professor Henrique Martins de Carvalho – pelo artigo sobre Assistência Hospitalar publicado no Jornal Comarca da Sertã, na sequência de outros subordinados ao mesmo tema e referentes especificamente à Beira Interior” (BATISTA, 1999a: 110-11).

Mas era o Centro de Assistência Social Materno-Infantil a “menina dos seus olhos”. Criado pelo então Subsecretário da Assistência, Trigo de Negreiros, por aprovação de 20 de Abril de 1946, iniciou as suas actividades em 16 de Abril de 1947, dependendo do Ministério do Interior e subordinado à Comissão Municipal de Assistência de que era presidente Francisco Farinha Tavares. Então Subdelegado de Saúde, com obrigações que lhe advinham do cargo, Acúrcio Castanheira conhecia melhor do que ninguém as profundas carências da população. Afligia-o desde sempre a sua incapacidade económica, e a sua falta de poder, para avançar com projectos que lhe permitissem minorar as causas do desaparecimento de tantas vidas na primeira infância. Sempre que uma lei ou decreto-lei vinha a público, “fazia-se luz no mundo contido das suas esperanças e o que lhe era possível, diligências oficiais e particulares, junto de quem detinha o poder, não o deixava por mãos alheias.” Aliás, seriam poucos, na época, os exemplos de centros sociais deste tipo em funcionamento nesta “vasta região do interior desprotegido”. O contacto assíduo com situações graves de mortalidade infanto-juvenil, agravado pela memória pessoal da infância dos seus próprios filhos, constituíram a maior motivação para que Acúrcio Castanheira pedisse insistentemente (e apoiasse, efectivamente, com trabalho e muita dedicação) a criação e funcionamento do Centro de Assistência Social. A esse propósito, confidenciou um dia à sua filha Albertina:

“- Calcorreei, a cavalo, todos os caminhos da serra que levavam às povoações mais distantes de Proença e de Oleiros, num sofrimento e angústia indiscritíveis! Dia após dia, à procura de uma mulher que amamentasse, e pudesse vir alimentar o teu irmão recém-nascido, porque a Mãe não tinha leite. Não imaginas, é um sofrimento atroz, pior que ver um filho morrer é sabê-lo com fome, dependendo do alimento, que não temos, para lhe dar.

Eu própria, de tenra idade, precisei de reforço alimentar dado por vizinha amiga que, tendo leite em excesso, ao contrário de minha Mãe, generosamente colmatava as minhas necessidades. Tal esse problema foi sentido em família que, existia lá em casa guardado como relíquia, um prato grande e bonito que pelo tamanho se distinguia da restante loiça. Era o ‘prato das amas’. Dizia-nos a Iria, nossa querida ama seca, companheira, amiga de todos nós:

– Tinham que comer bem para darem bom leite.

Tão valioso era esse bem que, quando o ordenado mensal do médico se ficava por 66$00, pagava ele a uma ama de leite 100$00, no mesmo período de tempo! A frequência com que lhe eram solicitados atestados de óbito para recém-nascidos e crianças que morriam na primeira infância, para muitas das quais nem sequer tinha sido pedida intervenção médica, era de tal dimensão, que o incomodava profundamente. Tantos ‘anjinhos’ vi passar à nossa porta a caminho do Carol! Havia dias de dois e era rara a semana em que não se enterrasse pelo menos um. De tão tenra idade que iam numa caixa, forrada de branco, à cabeça de um adulto! (…) Só mais tarde, quando a idade mo permitiu, percebi porque é que dia de funeral de anjinho era dia de Pai calado, ausente, preocupado. Andava de cá para lá e as chaves abanavam nervosamente nas mãos. Parecia que nem nos via.

– Come, homem, não remedeias nada!  Se tu adoeces ainda é pior. Animava-o minha mãe quando ele, à hora da refeição, chegava o prato para o lado dizendo:

– Não vai!

E não ia mesmo. Acúrcio Castanheira era assim: vivia e sentia o sofrimento dos outros como se fosse seu, ao ponto de perder o apetite. Ao ponto de se lhe marejarem os olhos, perante os «porquês» da minha inocência a querer desvendar problemas tão graves.” (BATISTA, 1999a: 114-115)

Com estes cenários de dificuldades evidentes, se defrontou Acúrcio Castanheira ao longo de toda a sua vida, como médico de província. Entre todas essas dificuldades, próprias do tempo e do meio sociocultural em pleno Estado Novo, a primeira e porventura a maior das quais era, precisamente, “a desmotivação das populações, anquilosadas em hábitos e tradições ancestrais”. Segundo Albertina Castanheira (evocando o depoimento da própria assistente do Centro Social, a “Menina Guilhermina”): 

“Foi necessária muita persistência, generosidade, dedicação e certeza de que valia a pena tanto esforço, para que o Centro mostrasse resultados evidentes na profilaxia das doenças e considerável redução da mortalidade infantil, para que os pais se rendessem à evidência e, voluntariamente, procurassem os seus serviços.  (…) ‘No princípio foi difícil motivar as mães. Era através de consultas regulares aos registos de nascimento, que o Registo Civil nos facultava, que se fazia a identificação das crianças nascidas e, por meio de um  bilhete postal, avisavam-se individualmente os pais para comparecerem no Centro dentro do período indicado. Fazia-se o despiste das doenças, vacinava-se as crianças, prescrevia-se a alimentação a seguir, dava-se, para uma semana, as doses individuais de leite ou farinha, embaladas manualmente, ensinava-se hábitos necessários de higiene, etc., etc., Vigiava-se a saúde das mães. Por exemplo deixou de haver peitos para lancetar, porque não chegavam a essa fase. Tudo isto sob a orientação diária e cuidada do Dr. Acúrcio que fazia as consultas, prescrevia e orientava o nosso trabalho.’” (BATISTA, 1999a: 117)

Também na sua faceta de cidadão, ativo e participativo nas coisas da comunidade local, Acúrcio Castanheira sobressaía. Para a inauguração do edifício da Escola Primária, em finais da década de 30 escreveu, musicou e ajudou os professores a ensaiar a revista que as crianças representaram, simbolizando flores, produtos hortícolas e aldeões. Cantada e dançada pelas crianças da escola, na mesma festa da inauguração, a marcha com letra da professora Leopoldina Calado, diz-se ter sido musicada por ele. Quando da criação do Grémio Recreativo incentivou e colaborou com os seus fundadores, dando-lhes entusiasmo, saber e o pouco tempo livre de que dispunha. Mais tarde, já com a casa do teatro construída, apoiou “o talento e carolice do Sr. Matos” e, noutra fase, “não regateou a sua ajuda ao Sr. Falcão” – “homens de grande valor, aos quais Proença muito deve pela sua entrega à promoção de actividades culturais e de solidariedade”.  Nos primórdios do Grémio Proencense, foi Acúrcio Castanheira o dinamizador e ensaiador da tuna e grupo cénico, que refere em artigo de sua autoria, conjuntamente assinado por mais dois dirigentes dos Bombeiros Voluntários da altura (Julho de 1968). Tanto no plano “recreativo” como no “beneficente”, “o cidadão Acúrcio Castanheira” aparece, dando brilho e incentivo a quem tem valor, nunca disfarçando “os sentimentos que nutre por Proença, pela cultura e pela promoção do meio e das suas gentes”. Para a inauguração da rede de saneamento e distribuição de água ao domicílio (1948 – 1949) escreveu estrofes e musicou-as: “foram mandadas copiar em pergaminho e entregues ao representante do governo, presente na efeméride, para serem oferecidas a Salazar, pois que a ele eram dedicadas” (BATISTA, 1999a: 125-137).

Serviu a Corporação dos Bombeiros Voluntários, como presidente da sua Assembleia Geral, durante 17 anos de 1956 a 1963 e de 1965 a 1975. Da sua autoria, em artigos diversos, é algum do historial não registado em documentos oficiais do primeiro quarto de século de vida daquela Instituição. Em Julho de 1973, na inauguração do Quartel próprio, com instalações também para as actividades culturais entendidas necessárias na Terra, referindo-se a elas na parte final do discurso que proferiu: “Tenciono doar a minha modesta biblioteca à Associação dos Bombeiros Voluntários”. E deu. Com dispêndio material significativo e muito carinho, chegou a mandar encadernar as obras de Júlio Dinis, às quais se seguiriam as de outros autores portugueses e adquiriu, propositadamente para o efeito, duas boas colecções uma da Europa-América outra da Editorial Verbo, cujas obras entendeu de interesse a uma biblioteca pública (BATISTA, 1999a: 138).

O cidadão Acúrcio Castanheira não se empenhou apenas no desenvolvimento cultural, pois “a promoção humana e social das pessoas e do meio era-lhe muito querida. Em nome delas escreveu, falou, protestou, pediu, agradeceu e rezou.” Prova disso, ao longo de cinco décadas de vida activa, proferiu inúmeros discursos, e encetou diversas intervenções esclarecidas, “sempre em ocasiões de interesse para o progresso da terra”. De variadíssimas formas exerceu os seus direitos e deveres de cidadania: “só não ia votar enquanto o regime foi de partido único.” Albertina Castanheira recorda um desses episódios:

“Num desses dias de eleições, em que só os homens tinham direito a voto, lembro-me do o ver chegar a casa irritadíssimo e desabafar:

– Isto é o cúmulo! Nem das nossa convicções somos donos… Então não veio agora além, ‘fulano’, ter comigo convencido que me tinha feito um grande favor:

– Vai para votar, Sr. Doutor?

– Não senhor. Vou para ver um doente.

– É que, escusa ter a maçada de lá ir. Já metemos o seu voto” (BATISTA, 1999a: 139).

Fez parte da Conferência de S. Vicente de Paulo, que existia na Paróquia. Tinha a convicção de que “ensinar a pescar era mais eficiente que dar o peixe”. Porém não encontrou eco. Dar 2$50 por semana ao pobre era mais cómodo. Acabou por sair, porque segundo nos dizia, até se envergonhava de levar a quem precisava tão irrisória quantia (BATISTA, 1999a: 139).

Deu apoio ao nascimento do Colégio Diocesano, desde a primeira reunião (promovida pelo Sr. Padre Alfredo Dias). Acúrcio Castanheira cedeu gratuitamente o seu diploma durante toda a vigência daquele estabelecimento de ensino particular, para colmatar a falta de professores diplomados. Além disso, deu aulas gratuitamente durante um ano lectivo, leccionando disciplina (ou disciplinas) da área das ciências, aos primeiros alunos que frequentaram o 2º ciclo. Preparava as suas aulas com o maior zelo e interesse, fazia e corrigia “os pontos”. Embora admitisse que este trabalho “o apaixonou”, dizia “não ser compatível com a vida de médico, pelas constantes interrupções que aquela obrigava”. Assim o recorda a sua filha Albertina, que seria professora: 

“Veio um dia junto de mim com um papel timbrado de receita, no qual trazia um pequeno escrito:

– Ouve lá, diz se gostas. É para rezar com a rapaziada no começo das aulas. 

– E leu: ‘A Ciência e o Bem promanam de Deus / Dá-nos, Senhor, inteligência para aprender / Coração sensível para o bem fazer.’” (BATISTA, 1999a: 141).

No dia em que se fez a cerimónia do lançamento da primeira pedra do edifício do Colégio Diocesano, redigiu e recitou um longo discurso, cuja passagem destacamos:

 “Os actos mais louváveis da governação em geral, não tenhamos dúvidas em colocá-los entre aqueles que tendam a melhorar a saúde pública e a educação popular das sucessivas gerações. Sem a esmerada educação do intelecto e da alma, impossível que vinguem grandezas ou progressos que se não afastem da Verdade. Indispensável, porém, que esta fé na educação e sua pedagogia activa se não restrinja ao ambiente colegial. Convirá que pela sua influência o meio exterior suba em cultura, bons hábitos, melhor moral e sã religião, àquele nível imprescindível ao prestígio do conjunto. Em contrapartida o esforço e boa vontade dos Proencenses ficarão esvaziados de sentido se, por seu turno, o meio exterior não colaborar condignamente com a actividade docente do ensino” (BATISTA, 1999a: 142).

Ainda a respeito de educação, naqueles tempos, Albertina Castanheira discorre:

“Quantos pais de famílias proencenses puderam, antes da existência do Colégio, dar mais que a quarta classe a todos os seus filhos? E quase todos os que o fizeram foi porque os Seminários e Colégios de Religiosas lhes facultavam condições possíveis de suporte económico. Acúrcio Castanheira, com a esposa, terão sido dos poucos que custearam sozinhos as despesas dos estudos de todos os filhos. Para além disso suportaram, como os outros, a saudade dos que só vinham passar férias, mas também a casa vazia, quando já todos rumavam às escolas que aqui não havia, a solidão conjugal, o rigor da partilha de um ‘orçamento’ minguado por duas casas durante quase duas décadas. Nesse tempo, até se pagavam propinas, e, apesar de se terem juntado quatro filhas a frequentar o mesmo liceu, quando as médias o permitiam, o pedido de isenção vinha indeferido devido à profissão do pai. Como não haveria Acúrcio Castanheira de apoiar, primeiro o possível e mais tarde o desejável, no tocante à instrução e à educação dos filhos de Proença-a-Nova?” (BATISTA, 1999a: 144-45).

O Colégio Diocesano resolvia problemas económicos e afectivos de uma parte da população Proencense. A necessidade de um ensino oficial foi-se impondo como inadiável, sobretudo ao nível do primeiro ciclo, e encontrou receptividade e vontade de concretização pelo então Presidente da Câmara, Dr. Eugénio de Matos que chegou a encetar diligências oficiais nesse sentido, mas que foram entravadas. Depois, colocou-se a necessidade da continuidade dos estudos para lá do segundo ciclo – 5º ano – que se fez sentir e, por último, esboçavam-se evidentes problemas de ordem administrativa e pedagógica que se reflectiam nos alunos e nas famílias. Chegado Abril de 1974, os ventos dessa “Primavera de mudança” soprariam em Proença, mas foram “efémeros e dolorosos.” Desse tempo, Albertina recorda:

“Ao contrário do que aconteceu por esse País fora, quem em Proença-a-Nova sofreu perseguições e vexames inconcebíveis foram aqueles, jovens, adultos ou idosos – Acúrcio Castanheira contava 79 anos – que rejubilando com os ideais de Abril, ousaram fazer escutar o que consideraram menos certo e que colidia com direitos fundamentais dos cidadãos, bem divulgados na altura nos grandes meios de comunicação social. Nomeado para presidir a Comissão Administrativa Provisória da Câmara Municipal, Acúrcio Castanheira, vê-se envolvido e responsabilizado no processo de oficialização do Ensino Secundário do qual, pelo lugar político que ocupava e pelos valores que lhe norteavam a existência, foi impossível alhear-se. Não é aqui o local próprio para historiar os factos. Os jovens de hoje, quem sabe, talvez os alunos de história da Escola E.B.2.3/S de Proença-a-Nova o devessem fazer com a isenção que lhes advém de nem sequer serem nascidos na altura e de usufruírem hoje de um benefício que tanta celeuma causou. Dariam uma visão bem mais real e interessante dos factos, nas exposições de trabalhos e nas comemorações que sobre o assunto levam a efeito, mas onde a realidade local tem ficado omissa” (BATISTA, 1999a: 145-46).

A vocação “missionária” de Acúrcio Castanheira – a sua paixão pela “coisa pública” -, estiveram igualmente inscritas na sua “faceta jornalística”, nomeadamente, nos frequentes artigos de opinião e divulgação científica que publicou com regularidade nos principais jornais da Região do Pinheiro (como então se apelidava a zona serrana da Beira-Baixa): O Concelho de Proença-a-Nova, Comarca da Sertã, Mensageiro Paroquial, Notícias da Nossa Terra, Eco de Pombal, Jornal do Fundão, Reconquista, República, entre outros. Na monografia que dedicou à vida e obra de seu pai, Albertina Castanheira compilou e publicou, em volume separado (Volume II), uma colectânea de Escritos por ele redigidos até 1974. Na introdução a este volume de Escritos, Albertina diz:

“Acúrcio Castanheira vivia a sua interioridade intelectual de forma muito intensa e solitária. Em Proença-a-Nova não havia, nesse tempo, muitas pessoas com quem pudesse repartir preocupações e saberes. Assim, a sua escrita é o resultado de vivências muito íntimas, leituras diversificadas, conhecimento do que se passava pelo mundo e profundas reflexões” (BATISTA, 1999b: 8). 

Nos seus artigos de jornal, encontram-se temas que vão desde a assistência médica, social e hospitalar, passando pelos problemas da saúde pública (salubridade, cantinas escolares, ciência da alimentação, asseio, higiene, vícios morais e sanitários, felicidade), até às questões relacionadas com o bem-estar da comunidade (emigração, associativismo, ensino oficial, discursos proferidos na inauguração de edifícios públicos). Sempre atento aos sinais do seu tempo, Acúrcio dedicou ainda longas reflexões e artigos de opinião a temáticas e problemáticas do foro espiritual: humanismo cristão, beneficência, caridade, cristandade, religião, ateísmo, milagres e aparições. 

Para além de artigos jornalísticos, Acúrcio foi um prolixo poeta e um exímio orador. São inúmeros os versos, sonetos, quadras e discursos que redigiu e dedicou a pessoas e instituições da sua estima, em ocasiões comemorativas, eventos culturais, inaugurações públicas. Nas palavras da sua filha, a escrita de Acúrcio Castanheira “é tão só outro ‘aperitivo’ para uma leitura mais completa do seu pensamento em ordem aos problemas sociais, culturais e de saúde pública de então que, além de nos legarem História, poderão servir de referencial na construção positiva e progressiva do futuro.” (BATISTA, 1999a: 131)

Bibliografia

Tuberculose Pulmonar: sua história e profilaxia (tese de doutoramento apresentada à Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra), Coimbra: Tip. Popular de J. Bizarro, 1919;

Artigos de jornal: “A propósito de assistência médica e social”, A Comarca da Sertã (10/06/1961); “Assistência hospitalar na região da Beira Serrana”, A Comarca da Sertã (24/06/1961); “Ainda a assistência hospitalar”, A Comarca da Sertã (19/08/1961); “O problema da salubridade”, Notícias da Nossa Terra (15/12/1960); “Cantinas escolares: reflexões úteis para o povo”, A Comarca da Sertã (13/10/1962)e Notícias da Nossa Terra (15/10/1962); “Cantinas escolares e ciência da alimentação”, A Comarca da Sertã (10/11/1962) e Notícias da Nossa Terra (15/11/1962); “Cantinas escolares e sua função polivalente”, A Comarca da Sertã (24/11/1962) e Notícias da Nossa Terra (01/12/1962); “Insalubridade e alcoolismo: quem nos acode?”, A Comarca da Sertã (27/01/1962); “Atenção Proença! Moral em desacerto”, Notícias da Nossa Terra (01/02/1962); “Atenção, Proença! Apontamentos para a felicidade”, Notícias da Nossa Terra (15/02/1962); “Atenção Proença! Apelo aos taberneiros”, Notícias da Nossa Terra (01/03/1962); “Atenção, Proença! Apontamentos para a felicidade”, Notícias da Nossa Terra (15/03/1962); “Atenção, Proença! Apresentação de desculpas”, Notícias da Nossa Terra (01/04/1962); “Atenção, Proença! Apontamentos para a felicidade”, Notícias da Nossa Terra (15/04/1962); “Fé e felicidade”, Notícias da Nossa Terra (01/09/1962); “Asseio sem higiene”, Notícias da Nossa Terra (15/01/1965); “Caminheiro da saudade, Benvindo sejas!”, Notícias da Nossa Terra (15/01/1961); “Emigração, problema atual”, Notícias da Nossa Terra (01/06/1971); “Divergências desconexas”, A Comarca da Sertã (04/02/1961); “Associação dos Bombeiros Voluntários de Proença-a-Nova”, Notícias da Nossa Terra (15/08/1968); “Discurso proferido na inauguração do Quartel dos Bombeiros Voluntários de Proença-a-Nova”, Conselho de Proença-a-Nova (01/08/1973); “Proença-a-Renovada?”, Notícias da Nossa Terra (01/03/1970); “Homenagem e testemunho”, Notícias da Nossa Terra (15/12/1964); “Colégio Diocesano, esperança da mocidade”, Conselho de Proença-a-Nova (15/07/1960); “Proença-a-Nova e o seu Colégio”, Conselho de Proença-a-Nova (15/10/1960); “Proença-a-Nova: epopeia do ensino oficial”, A Comarca da Sertã (27/12/1975); “Na esteira do progresso vicentino”, Notícias da Nossa Terra (15/05/1964); “Beneficiência paroquial”, Notícias da Nossa Terra (15/12/1966); “Caridade de vanguarda”, Notícias da Nossa Terra (01/12/1967); “Miragem do tempo”, A Comarca da Sertã (13/01/1962); “Política humanista em renovação?”, A Comarca da Sertã (23/06/1962); “Para os que saíram…incongruências do materialismo”, Notícias da Nossa Terra (15/07/1962) e Comarca da Sertã (16/06/1962); “O dinheiro e a nossa felicidade”, Notícias da Nossa Terra (01/11/1962); “O dinheiro e a felicidade II”, Notícias da Nossa Terra (15/01/1963); “O Natal e os nossos tempos”, Notícias da Nossa Terra (01/01/1963); “A eterna lição do Papa João XXIII”, Notícias da Nossa Terra (15/06/1963); “Amor em perigo”, A Comarca da Sertã (20/01/1968); “A Apolo XIII seu drama e meditação”, Notícias da Nossa Terra (01/05/1970); “O sentido da caminhada”, A Comarca da Sertã (24/02/1962); “No prosseguimento da caminhada”, A Comarca da Sertã (03/03/1962); “No prosseguimento da caminhada: o fenómeno humano”, A Comarca da Sertã (10/03/1962); “No prosseguimento da caminhada: Omnia Sunt Sacramenta”, A Comarca da Sertã (17/03/1962); “Cursos de cristandade”, Notícias da Nossa Terra (15/08/1962); “Vale a pena trabalhar pelo Rei Imortal”, A Comarca da Sertã (21/12/1963) e Notícias da Nossa Terra (01/03/1964); “Prévio itinerário/1”, A Comarca da Sertã (28/03/1964) e Notícias da Nossa Terra (01/04/1964); “Prévio itinerário/2”, A Comarca da Sertã (08/04/1964) e Notícias da Nossa Terra (15/04/1964); “Vivências de cursista/1”, Notícias da Nossa Terra (15/08/1964); “Vivências de cursista/2”, Notícias da Nossa Terra (15/11/1964); “A Deus pelo Saber”, Conselho de Proença-a-Nova (15/06/1960); “Deus é. Ateus nunca”, Conselho de Proença-a-Nova (30/06/1960); “Religião e amuletos”, Conselho de Proença-a-Nova (15/07/1960); “Fé por assimilação”, Conselho de Proença-a-Nova (31/07/1960); “A inteligência e a vontade no acto de fé”, Conselho de Proença-a-Nova (15 e 31/08/1960); “O Universo fala de Deus”, Conselho de Proença-a-Nova (01/10/1960); “As cifras astronómicas também falam de Deus”, Conselho de Proença-a-Nova (15/10/1960); “Os Monstros não rezam”, Conselho de Proença-a-Nova (30/10/1960); “Divagações espirituais”, Notícias da Nossa Terra (15/07/1963); “Deus infinito e o Homem imenso”, A Comarca da Sertã (07/03/1970); “Fátima incontestável – I”, Notícias da Nossa Terra (01/04/1972); “Fátima incontestável – II”, Notícias da Nossa Terra (15/05/1972).

Trabalhos sobre o(a) autor(a)

BATISTA, Maria Albertina Castanheira (1999a). Acúrcio Castanheira: O médico e o homem. Volume I. Coimbra: Gráfica de Coimbra.

BATISTA, Maria Albertina Castanheira (1999b). Acúrcio Castanheira: Escritos. Volume II. Coimbra: Gráfica de Coimbra.

Biógrafo(a): Maria Albertina Castanheira Batista

FONTE (Texto): BATISTA, Maria Albertina Castanheira (1999). Acúrcio Castanheira: O médico e o homem. Volume I. Coimbra: Gráfica de Coimbra. [Selecção e edição de textos para publicação neste website: Helena Cabeleira]

FONTE (Retrato): Fonte Própria, Espólio Particular de Maria Albertina Castanheira Batista

Referência da Citação: Quadra dedicada a Acúrcio Castanheira pelo poeta proencense, Padre Paixão (cit por BATISTA, 1999a: 48)

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DIAS, Alfredo

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FERNANDES, Alfredo (1888-1966)

Alfredo Fernandes

Nascimento: Galisteu Cimeiro, Proença-a-Nova (21/11/1888)

Morte: Lisboa (13/08/1966)

Biografia

Alfredo Fernandes nasceu em Galisteu Cimeiro (Proença-a-Nova) a 21 de Novembro de 1888, filho de José Fernandes e de Maria do Rosário Fernandes. Faleceu em Lisboa, a 13 de Agosto de 1966. Dedicou a sua vida ao ensino, tendo lecionado na Escola Comercial Rodrigues Sampaio, em Lisboa, e escrito vários livros de didáctica e pedagogia.

O seu livro mais conhecido, Cartilha Experimental: Processo Intuitivo, Analítico, Sintético, Inventivo, Fonomímico e Legográfico, é um pequeno e muito simples manual para ensinar crianças a ler e escrever. A primeira edição terá tido lugar nos primeiros anos da segunda década do séc. XX, mais precisamente em 1919. O autor diz  seguir o “método globalístico”, mas partindo da palavra e não da frase: “Apresento primeiro a palavra, depois a sílaba, finalmente a letra, porque a criança não começa a falar por frases mas sim por palavras.” (p. 5). O manual era acompanhado pelo Vialitra, quadro de leitura auxiliar da Cartilha, que consistia numa caixa-quadro com letras móveis, moldadas e coloridas (ver na contracapa da Cartilha, em cima da cadeira).

Sobre a Cartilha Experimental, é curioso constatar o conteúdo de uma carta enviada do interior Sul de Angola, na fronteira com a Namíbia, a 650 Km de Moçamedes, para sul de Ngiva (Pereira de Eça), por Joaquim Fernandes, um missionário laico enviado pela 1ª República, para ajudar a civilizar os Cuanhamas. De Ompanda, (antiga colónia alemã durante a 1ª Guerra Mundial e sede inicial da missão laica “Cândido dos Reis”), a 30 de Agosto de 1922, Joaquim Fernandes escrevia a Abílio Marçal, Director do Instituto das Missões Laicas, em Cernache do Bonjardim: “Antes de sair daí, um professor oficial, o Sr. Alfredo Fernandes, ofereceu-me um livrinho, para ensino da língua portuguesa, chamado Cartilha Experimental, de sua autoria. Meti-o entre os demais livros da minha bagagem, sem atento exame e para África o trouxe. Só no Lubango é que o li com atenção e confesso que foi boa a impressão que ele me deixou, e tê-lo-ia logo ali experimentado se a aula que eu estava regendo não fosse uma escola oficial pelo método João de Deus. Mas quando vim para aqui trouxe-o, logo com o propósito de o experimentar. Parecia-me que devia ser de êxito para ensino de pretos, e não me enganei. A cartilha é ilustrada com muitas gravuras representativas dos diversos objectos que nomeia, que muitas crianças brancas desconhecem quanto mais os pretos. As crianças que por essa cartilha ensinei mostraram-se desde o início extremamente interessadas, até mesmo entusiasmadas em ver as gravuras e conhecerem os objectos e as suas aplicações, que eu lhes ia explicando. Ao mesmo tempo que eu lhes ia ensinando a compor as palavras e a pronunciá-las, iam aprendendo e compreendendo a ideia do objecto e indelevelmente fixando o termo. E aprendiam em menos de metade do tempo.” (…)

Mais à frente nessa carta, o missionário laico, Joaquim Fernandes pedia a Abílio Marçal que lhe enviasse “uns 100 exemplares” e que, a título de experiência, lhe fosse permitido substituir a Cartilha Maternal de João de Deus pela Cartilha Experimental de Alfredo Fernandes. A verdade é que foram enviados os 100 exemplares e há registos de outros pedidos para as missões laicas a fim ser experimentado o método. Este manual e o método nele proposto foram adoptados em muitas escolas primárias da época, no continente e nas colónias, com resultados muito positivos. Há inúmeros registos de professores que confirmam o sucesso.

Animado pelo bom acolhimento dispensado à Cartilha Experimental, publicou, em 1932, a Vida Infantil: Leituras para a 1ª classe, que é a continuação do anterior, com o objectivo de “acompanhar a criança na sua evolução mental e afectiva, apresentando-lhe trechos cujo assunto se harmonize com os seus interesses, com a sua capacidade intelectual e com o meio em que vive”. No ano seguinte, em 1933, continua a saga didáctica escrevendo Baloiçando: Leituras para a 2ª classe do ensino primário elementar. Constitui a continuação da Vida Infantil e conta a história de uma criança da cidade que, como prémio da sua aplicação no ano anterior, vai passar um ano à aldeia e aí é posta em contacto com a natureza e as coisas da vida.​

Bibliografia:

Trabalhos sobre o(a) autor(a):

Biógrafo(a): António Manuel Martins Silva

FONTE (Texto): SILVA, António Manuel Martins (2013). “Alfredo Fernandes: Um pedagogo proencense”, Palestra proferida na Universidade Sénior de Proença-a-Nova (15 Outubro 2013). [Edição de texto para publicação neste website: Helena Cabeleira]

FONTE (Retrato): Fonte Própria (António M. Martins Silva)

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FIDALGO, José António

FOLGA, Joaquim

FOLGA, José Maria Pereira

FONSECA, José de Pina Freire da (General)

FONSECA, Pedro da

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FREIRE, Casimiro (1843-1918)

Nascimento: Pedrógão Pequeno, Sertã (08/10/1843)

Morte: Lisboa (20/10/1918)

Biografia

Casimiro Freire foi um comerciante, industrial, filantropo e um apóstolo da instrução e do combate ao flagelo social do analfabetismo do povo (educação popular). Foi dos primeiros propagandistas em Portugal do método do poeta João de Deus, do qual era admirador. Fiel simpatizante dos ideais republicanos, dedicou-se à causa da educação popular, suportando financeiramente diversas iniciativas de alfabetização: Associação de Escolas Móveis pelo Método João de Deus – Bibliotecas Ambulantes e Jardins-Escolas (1908), liderada por João de Deus Ramos, filho do poeta da Cartilha Maternal. Casimiro Freire foi promotor da implementação das bibliotecas e escolas móveis públicas, bem como de métodos pedagógicos destinados à instrução das crianças, incluindo a abertura de jardins-de infância pelo país.

Casimiro Freire defendeu a instrução popular numa época de elevados índices de analfabetismo. Nasceu a 8 de outubro de 1843, em Pedrogão Pequeno (Concelho da Sertã) e faleceu a 20 de outubro de 1918, em Lisboa (está enterrado na sua terra natal e onde tem uma rua com o seu nome). Era filho de José Inácio Freire e de Josefa da Silva Freire, oriundo de uma família humilde e, por isso, ainda jovem emigra para Lisboa, onde trabalhou em várias profissões. Começou por trabalhar como caixeiro (empregado comercial encarregado da venda a retalho), sendo o continuador do negócio do seu patrão (João Jacinto Fernandes), o que lhe permitiu singrar na vida pelos seus próprios méritos, de tal forma que se converteu no representante da firma. Fixou-se na capital, angariando uma grande fortuna e sendo reconhecido como um próspero comerciante e industrial. Casou com M.ª Madalena Battaglia (sogra de João de Deus) em segundas núpcias. Tornou-se numa figura social e económica do país, mas mantendo a sua lealdade às suas origens e tradições populares.

Este insigne republicano (membro do Diretório do Partido Republicano Português, desde 1862) e filantropo, mesmo sem estudos pedagógicos e sociológicos, interessou-se pelos problemas do ensino e da escola pública. Estreou-se como colunista na imprensa em 1873, escrevendo no jornal Democracia (dirigido por José Elias Garcia e fundado nesse mesmo ano).

Dedicou-se à tarefa da instituição de bibliotecas populares municipais (Dec. Lei de 2/08/1870), com a pretensão de levar a população a aprender a ler, incluindo a leitura domiciliária, seguindo as intenções educativas que seguiam outros países europeus. Publica, em 1881, um artigo no Jornal O Século com o título “A Instrução Pública e a Monarquia”, onde explica o estado catastrófico do povo em termos de analfabetismo, deixando no ar a necessidade de uma rede escolar pública destinada à instrução primária (as bases da Associação das Escolas Móveis vêm a ser publicadas naquele jornal, nºs 68-69 de 1882). Em 1897 publicou um outro folheto apresentado à Câmara dos Deputados, sob a epígrafe “A instrução do povo e o método João de Deus”, culpabilizando os governos monárquicos pela penúria da instrução primária e alertando para a necessidade de instruir o povo e baixar o analfabetismo.

Ao ser publicada a Cartilha Maternal do poeta João de Deus (designado Comissário Geral para o ensino da leitura em 1888), de quem Casimiro Freire era amigo e admirador, propõe o envio a todos os lugares do país, de missões pedagógicas de professores habilitados pelas escolas normais superiores, para ensinarem o povo a aprender a ler e a escrever com o método daquele do pedagogo algarvio (João de Deus escreve várias cartas a diversas personalidades da utilidade da ‘missão’ do método para instruir o povo, p.e. a Jacinto A.G. da Silva Alves, António d’Azevedo Castelo-Branco, Luís de Mascarenhas, Antero de Quental, Pedro Viana, etc.). Em maio de 1882 fundou, conjuntamente com João de Deus a Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus (com estatutos e regulamento próprio – alvará de 16/08/1882, passado pelo governo Civil), que constitui um acontecimento pedagógico importante na nossa História da Educação, já que intentou diminuir as taxas de analfabetismo (cerca dos 80%) e incentivar a criação de escolas por todo o país. O objetivo dessa Associação era o de ensinar a ler, escrever e contar pelo método João de Deus, todos aqueles que o solicitassem e até onde permitisse os seus meios económicos, de tal modo que se enviaram professores habilitados às diversas povoações para atacar o analfabetismo, especialmente o infantil.

A sua crença nos ideais republicanos leva-o a defender uma educação nacional e popular, na partilha dos ideais pedagógicos de João de Deus Ramos (1878-1952), filho do autor da Cartilha Maternal. Em 1908, a Associação altera os seus estatutos passando a designar-se por Associação de Escolas Móveis pelo Método João de Deus – Bibliotecas Ambulantes e Jardins-Escolas, tendo como objetivos fundamentais instituir jardins-escola para crianças (dos 3 aos 7 anos), onde fosse aplicado, em toda a sua plenitude, o espírito e doutrina do método de João de Deus. Naquele ano a Comissão Auxiliar das Escolas Móveis em Coimbra apresenta à Câmara Municipal da Lusa Atenas um projeto para proceder à aprovação e outorga-lhe o terreno destinado à construção do primeiro Jardim-Escola João de Deus, que veio a ser inaugurado em 1911. A Associação de Escolas Móveis pelo Método João de Deus, funcionou até 1922 e foi uma importante divulgadora da instrução popular e de uma educação de adultos, tendo sido frequentadas por cerca de trinta mil alunos em todo o país. Quando Magalhães Lima foi Ministro da Instrução Pública encarregou Casimiro Freire da organização e orientação, na Escola Normal Superior de Lisboa, do Museu Pedagógico (Cfr. Publicações do historiador da educação e Moreirinhas Pinheiro, que tratou o espólio documental da atual Escola Superior de Educação de Lisboa) reconhecendo a seu enorme labor pedagógico, ainda estando por estudar esse seu contributo educativo.

Casimiro Freire apresenta uma mentalidade reformadora, uma incessante luta por uma educação pública, que abrangesse todo o povo (rede escolar). Infelizmente não nos deixou uma obra de referências explícitas às suas ideias educativas. O seu filantropismo e experiência sobrepuseram-se à reflexão escrita, entendendo a pedagogia como um processo dinâmico e, por conseguinte, adaptável ao espaço e à realidade educativa em cada momento.

Levou à prática um projeto de instrução popular que tinha por objetivo o combate do analfabetismo e a criação de uma rede escolar nacional, apoiados no método de aprendizagem da leitura e da escrita (de João de Deus para as escolas elementares). O seu pensamento educativo perfila-se em inúmeras intervenções públicas, palestras, ensaios e, em particular, na orientação do Museu Pedagógico na Escola Normal de Lisboa (atual escola Superior de Educação), denotando ideais republicanos e influências do movimento da Escola Nova.

Entre os seus escritos e ensaios (com teor educativo ou pedagógico), destacam-se, entre outros: o ensaio A Instrução do Povo e o Método de João de Deus (1897), estando por analisar todo o seu pensamento e ideário educativo. A reflexão pedagógica da proposta de Casimiro Freire mistura o olhar geopolítico da época com a sensibilidade filantrópica que o levou a dedicar a sua vida ao ideal de erradicar o analfabetismo, flagelo social que se perpetuava como uma herança de décadas passadas, e que constituía um problema de debate nacional e, daí, a sua crença na necessidade de alfabetizar todos os indivíduos, incluindo os emigrantes portugueses. Está ainda por fazer um estudo histórico-educativo sobre os contributos deste ‘pedagogo por acidente’, defensor de uma pedagogia popular (prática e aplicada) no combate ao analfabetismo endémico do povo português na transição do século XIX para o século XX.

Bibliografia:

A Instrução do Povo e o Método de João de Deus, Lisboa, 1897;

Trabalhos sobre o(a) autor(a)

Deus, João de (1876). Cartilha Maternal ou Arte de Leitura (publicada pelo amigo Cândido J. Aires de Madureira – Abade de Arcozelo). Porto: Livraria Universal e Moniz.

Deus, João de (1881). Cartilha Maternal e o Apostolado. Lisboa: Viúva Bertrand & Cia e Sucessores Carvalho & Cia.

Diário do Governo (1897). A Instrução do Povo e o methodo de João de Deus – representação à Câmara dos Srs. Deputados – D.G. nº 163, de 26 de julho, pp. 10-11.

Garcia, F. (1997). João de Deus: Poeta e Pedagogo. Silves: Publ. Câmara Municipal Silves.

Martins, Ernesto C. (2005). Casimiro Freire – Apóstolo da Instrução Popular. In: Ernesto C. Martins (coord.), A Renovação pedagógica & La Renovación pedagógica – Atas do Vº Encontro Ibérico de História da Educação Coimbra/C. Branco: Alma Azul, pp. 522-524.

Nóvoa, A. S. da (Dir.). (2003). Dicionário de Educadores Portugueses. Porto: ASA Editores.

Pereira, I. (1999). Casimiro Freire e as escolas móveis. População e Sociedade, 5: 443-473.

Pintassilgo, J. & Ferreira, M. Isabel Freire (2020). Casimiro Freire: O republicanismo e a instrução popular. Lisboa: Edições Colibri.

Ramos, João de Deus (1908). A Instrução do Povo. Boletim das Escolas Móveis pelo Méthodo João de Deus, III ano, 2ª Série, nº1, pp. 9-10.

Rebelo, C. A. (2002). A difusão da leitura pública: as bibliotecas populares (1870-1910). Porto: Campo das Letras.

Sampaio, Salvado (1969). Escolas Móveis. Boletim Bibliográfico e Informativo do Centro de Investigação Pedagógica da Fundação Gulbenkian. Lisboa: FCG.

Sousa, J. M. (2000). O Tempo da Primeira República. Porto: Asa Editores.

Casimiro Freire, Wikipédia, a enciclopédia livre.

Casimiro Freire, Associação de Jardins Escolas João de Deus.

As Ruas de Pedrógão Pequeno: Rua Casimiro Freire, Sertã: Princesa da Beira.

Biógrafo(a): Ernesto Candeias Martins (IPCB/ESECB)

FONTE (Texto): Martins, Ernesto C. (2005). Casimiro Freire – Apóstolo da Instrução Popular. In: Ernesto C. Martins (coord.), A Renovação pedagógica & La Renovación pedagógica – Atas do Vº Encontro Ibérico de História da Educação Coimbra/C. Branco: Alma Azul, p. 522-524. [Edição de texto para publicação neste website: Helena Cabeleira]

FONTE (Retrato): Wikipédia, a enciclopédia livre.

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LALANDA, Anastácio

LEITÃO, José Parada e Silva

LOURO, Henrique da Silva

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MAIA, João Francisco

MANSO, Joaquim

MARÇAL, Abílio Correia da Silva 

MARTINS, João

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PADRÃO (Conde do)

PEREIRA, António

PEREIRA, Sebastião José

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PIMENTEL, João M.ª Pereira de Amaral e (1815-1889)

Nascimento: Oleiros (21/07/1815)

Morte: Angra do Heroísmo, Açores (27/01/1889)

Biografia

O 28º Bispo de Angra do Heroísmo, foi um renovador do ensino dos seminários, homem de espírito científico e pedagógico, para além de ser caritativo com os mais desprotegidos e um apreciador das belas artes. Na sua concepção pedagógica, a formação do educando devia consistir em três vertentes: educação intelectual, a educação moral e a educação física. Defensor da relação entre educação e civilização, considerava que deviam existir escolas normais no Seminário (após o curso regular e superior), de modo a tornar acessível aos padres a ‘aprendizagem do mundo’ (pastoral social), educado os padres como pessoas civilizadas e dotadas da missão de educar para os valores da cidadania. Na introdução da sua obra Memorias da Villa de Oleiros e do seu concelho (1881), D. João Pimentel cita Virgílio na Eneida, dizendo: “É provável que nos tempos vindouros seja agradável recordar estas coisas”. Deve-lhe a Diocese algumas iniciativas importantes, entre as quais a criação do Boletim Eclesiástico dos Açores, órgão oficial diocesano e primeiro do género no país, publicado em setembro de 1872, hoje o mais antigo periódico com publicação ininterrupta nos Açores.

A povoação da Vila de Oleiros (interior do Pinhal, Beira Baixa) remonta aos hospitalários (o seu primeiro foral, data de 1232), tendo sido uma das 12 Comendas da Ordem de Malta, do priorado do Crato. Em 1514, D. Manuel I concedeu a esta Vila um novo foral. Durante as Guerras Fantásticas, Oleiros terá sofrido perdas e danos pela passagem do exército franco-espanhol em 1762 e durante a 3ª invasão francesa, em 1811, que levou à ocupação e pilhagem da Vila, com fuga da população para as montanhas. Aquele que viria a ser um futuro insigne sacerdote, era filho de Francisco António Pereira Barata e de D. Maria Eugénia Marques de Amaral e Pimentel, família antiga em Oleiros, mas de fracos recursos económicos, o que obrigou o jovem João a trabalhar muito jovem para ter o seu sustento. Ficou órfão de pai aos dez anos tendo sido seu mestre e tutor o Fr. Simão Pimentel da Ordem de Malta, que era um afamado latinista daquela Vila do interior da Beira. Possivelmente pela influência do seu tio-avô, Frei Simão José Botelho Dourado, vigário de Oleiros e professor na Ordem de Malta, seguiu a vida eclesiástica. Estudou como aluno externo no Seminário de Cernache de Bonjardim (dirigido pelos Padres Lazaristas) onde realizou alguns estudos preparatórios em ciências teológicas, sendo um aluno distinto. Quando esta instituição missionária fechou (com a expulsão do seu corpo docente), o jovem João Amaral e Pimentel voltou para a sua terra natal onde abriu um pequeno colégio, dedicando-se ao ensino, numa zona onde havia muito poucas escolas e pessoas para ensinar. Teve que trabalhar para sustentar a mãe e as irmãs, tendo sido secretário do vigário capitular de Leiria (Oleiros pertencia então à Diocese de Leiria), recebedor do Concelho de Oleiros, escrivão da Câmara e advogado.

Vai para Coimbra, em 1842, onde frequenta a Faculdade de Direito continuando como um insigne explicador de muitos colegas, chegando a abrir uma litografia na Lusa Atenas. Ao formar-se em 1849 foi nomeado secretário do Bispo de Bragança, tendo ocupado vários cargos eclesiásticos e prestando um enorme contributo à remodelação da instrução do clero e do seminário diocesano. Este trabalho deu-lhe reconhecimento público pela sua competência pedagógica, levando o Governo a nomeá-lo Comissário dos Estudos e Reitor do Liceu de Bragança (1854), cargo que não ocupou pelo facto de ter sido transferido para Leiria como Deão e Vigário Geral. Nesta cidade publica a obra Ciência da Civilização (uma sinopse de muitos dos seus conhecimentos, tendo-se esgotado as várias edições). Tratava-se de um compêndio de apoio às aulas dos seminaristas no Seminário de Leiria.

Foi nomeado Bispo de Macau e encarregado de reorganizar o Colégio das Missões em Cernache de Bonjardim – como Superior, tendo sido educador de muitos futuros bispos, como de D. António Joaquim de Medeiros, D. João Gomes Ferreira e D. António Barroso. Aquele colégio converteu-se num seminário afamado ao introduzir algumas ideias pedagógicas (plano curricular) no ensino religioso na formação dos futuros missionários.

Em 1871 foi transferido para Angra do Heroísmo começando por melhorar a metodologia e o currículo de formação dos estudantes no seminário local. Como pedagogo, aplicou-se especialmente nos estudos preparatórios dos estudantes, premiando os mais distintos em sessões pedagógicas anuais. Aquele estabelecimento religioso passou a ter um nível literário, moral, filosófico e teológico elevado (bom corpo docente) e uma boa saúde financeira. Motivou nas populações a vocação eclesiástica, facilitando a entrada dos alunos de famílias pobres (nessa época havia escassez de estudantes).

A sua monografia Memórias da Villa de Oleiros e do seu concelho, foi publicada em 1881, nos Açores, e posteriormente reeditada pela Câmara Municipal de Oleiros. Contudo, a obra de maior interesse pedagógico para a História da Educação em Portugal e para a História da Igreja (na vertente do ensino ministrado nos seminários), é a Ciência da Civilização, que tem como epígrafe a frase evangélica “Sinite pueros venire ad me”. Define a educação (incluindo o conceito de pedagogia – ciência da educação, ou a ciência normativa e especulativa que dirige e forma o homem para o desempenho prático de todos os seus ofícios, sendo a aprendizagem motivadora para o aluno) de uma forma teológica, já que o fim supremo é ilustrar o entendimento e inclinar a vontade do educando. Daí que divide a educação em religiosa, individual e social.

Em termos pedagógicos considera importante na formação a educação intelectual (a memória, inteligência e o rigor no raciocínio), educação moral (as virtudes e os valores humanos) e a educação física. Preocupa-se pedagogicamente pela relação da educação com a civilização, considerando necessário nos seminários haver escolas normais de educação para que os padres, após o curso regular e superior, possam ‘aprender do mundo’ (pastoral social), como pessoas civilizadas e tendo a missão de educar. Considera que ‘o padre’ – enquanto pai dos povos –, é a quem compete também exercer a educação, pois é a ele que pertence cultivar o seu espírito, o seu coração, o seu corpo, numa palavra – civilizar o homem pela ilustração e moralização.

Eis o papel social e educativo do clero, sobretudo naquelas zonas do país onde haviam poucas escolas. Na verdade, umas das facetas mais importantes do pensamento educativo de D. João P. Amaral e Pimentel (e ainda por investigar), são a instrução religiosa, a remodelação do ensino (plano curricular) nos seminários diocesanos das terraspor onde passou (Bragança, Leiria Angra do Heroísmo e Cernache do Bonjardim).

Uma outra vertente de pesquisa historiográfica (ainda por explorar) é a análise às suas homílias, às visitas pastorais e a muita documentação eclesiástica por ele publicada, destinada a promover ações de combate contra a pobreza e miséria (a partir de 1875), à instrução do povo, ao culto religioso: Culto Católico, publicado em 1885 e, ainda, as abordagens a temas filosófico-teológicos no Boletim Eclesiástico dos Açores.

Outros aspetos dignos de pesquisa na sua Obra: as recomendações higiénicas (higiene social e escolar) e pedagógicas para o ensino (aprendizagem, atividades culturais, recreativas e religiosas), a economia doméstica e política, os elementos de direito civil (código de urbanidade), a formação do clero, etc.

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Breve Cronologia da acção do Bispo de Angra do Heroísmo (1871-86):

Fonte: Boletim Eclesiástico dos Açores, 1965-66

1871 – A 22 de dezembro foi confirmado D. João Maria Pereira do Amaral Pimentel como bispo de Angra do Heroísmo. Era bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra. Foi deão da Sé de Leiria e vigário geral e capitular da Sé de Bragança. Foi-lhe concedida a comenda da Ordem de Cristo e o título de Desembargador da Cúria Patriarcal. Já em 1865 tinha sido nomeado, pelo Governo, diretor do Colégio das Missões, em Cernache, tendo ali realizado uma grande obra de ampliação, renovação e adaptação do edifício ao ensino no seminário.

1872 — Desembarcou em Angra no dia 21 de agosto, sendo-lhe prestada uma grandiosa receção pelo povo (cais da alfândega), pelo governador do bispado e autoridades civis e militares. O castelo e a corveta de guerra ‘D. João 1’, fundeada no porto, deram as salvas de estilo. Ofereceu-se para caudatário do prelado o general da divisão dos Açores e, num pavilhão adrede preparado, o presidente da Câmara Municipal, general reformado Júlio Maria Silvano, leu uma saudação em nome da cidade. Na catedral assistiu-se a um Te Deum em sua honra. No adro da Sé estavam expostas, para serem distribuídas pelos pobres, centenas de esmolas de pão e carne, em homenagem ao novo prelado.

— A 9 de setembro anunciou em circular episcopal a publicação do Boletim Eclesiástico dos Açores, como órgão do governo da diocese, tendo sido o primeiro periódico diocesano que se publicou em Portugal, tendo sido posteriormente remodelado entre 1915 e 1923, pelo seu então diretor, o cónego Dr. José Bernardo de Almada.

— Conta o padre Manuel Azevedo da Cunha, o seguinte episódio, que julgamos interessante divulgar: “Em 1872 o Bispo D. João Maria Pereira de Amaral e Pimentel, chegado nesse ano a Angra e também muito amante da arte, manifestou ao mestre da Capela — Padre Zeferino o desejo que tinha de que na sua Catedral a musica das próximas Endoenças fosse de feliz escolha, para o que lhe oferecia as partituras dos ofícios pequenos de Casimiro Jr., que se executavam geralmente em todo o Portugal, e, que, asseverava o Bispo, eram muito boas. O mestre da Capela, que já conhecia a composição do dito Joaquim Casimiro Jr., obtemperou respeitosamente que aquela música era de um grande mestre, mas que para tal fim tinha melhor, sem comparação muito melhor, — os Responsórios do Sr. Padre Serrão. Surpreendeu-se o Bispo, pois tal compositor lhe era inteiramente desconhecido. Fizeram-se as Endoenças, cantando-se a instrumental, e com o grande órgão, a obra de Serrão. O Bispo ficou encantado com aquella excellente musica, magestosa, sumamente expressiva, de larga tessitura, e com a execução correta, distinta, exclamando entusiasmado que só uma vez, na Si de Braga, tinha assistido a Endoenças tão explendorosas, mormente quanto á parte musical” (In. Notas Históricas’, pág. 446 e 447).

1873 — No dia 7 de junho foi feita pelo prelado a primeira solene ordenação sacerdotal que se realizou na Sé Catedral de Angra e a 8 de outubro exonerou dos cargos de provisor e vigário geral o Dr. António Ferreira de Sousa, lugares que vinha desempenhando desde 1841, investindo nessas funções o Dr. Inácio Emílio de Magalhães, mandado vir do Continente para ocupar o lugar de vice-reitor do seminário.

1874 — Em 3 de Setembro declarou em provisão que eram obrigatórias as missas ‘Pro Infantado’, conforme o testamento do Infante D. Henrique, e que tinham caído em desuso na diocese. Simultaneamente naquele ano representou-se em Angra a peça ‘Os Lazaristís’ que provocou grave escândalo entre os católicos.

1876 — A 13 de janeiro, comunicou ter a Santa Sé aprovado a sua iniciativa de se promover, a 15 de fevereiro de cada ano, a festa do beato João Baptista Machado, anunciando ter encomendado uma imagem deste beato terceirense que tencionava colocar na igreja do Colégio, onde hoje ainda se encontra. A festa, porém, só se realizou a 30 de abril, por demora na receção da imagem que foi benzida solenemente e invocado como patrono da diocese, da ilha e da cidade. Em provisão de 15 de maio, anunciou a visita pastoral que ia fazer às ilhas de Flores e Corvo, nomeando, para tal motivo, governador do bispado durante a sua ausência, o vigário geral, Dr. Magalhães. Essa visita teve também por objetivo apaziguar os ânimos, muito exaltados por questões entre as comissões das festas do Espírito Santo na Fajãzinha daquela ilha e o respetivo pároco, a tal ponto exacerbadas que houve necessidade de para ali ser enviado um destacamento militar para manter a ordem. Pelo bispo foi feito um apelo às partes em litígio, tendo proibido o pároco de prestar assistência religiosa a qualquer das associações que se encontravam em divergência, até se tornarem a unir fraternalmente, como estavam antes’.

—Em 5 de setembro publicou uma circular, proibindo que saiam imagens de santos acompanhando as coroações do Espírito Santo e recomendou os párocos que se não intrometessem nos negócios temporais dessas associações, nem que se encarregassem ou tomassem parte na administração dos seus fundos e rendimentos; que não deixem de lhes prestar as atenções e serviços do costume, por pretexto de lhes não pagarem, não podendo fazer ajustes alguns sobre emolumentos, porque não tem autoridade para isso; mas receberão apenas o que voluntariamente lhes for oferecido, segundo os usos e costumes».

— Aos 21 de setembro, em sessão pública do Cabido, foi solenemente inaugurado o retrato de D. Frei Estevam, pintado por Giorgio Marini, na presença das autoridades, civis, militares e religiosas, encontrando-se entre os presentes o então secretário geral do governo civil, Dr. Abílio Guerra Junqueiro, que foi um dos primeiros poetas portugueses do seu século.

— Em 20 de dezembro demite o vigário geral Dr. Magalhães, nomeando novamente para aquele cargo o Dr. Ferreira de Sousa, por motivo da campanha jornalística que então se debatia na imprensa e estava a causar dissídios entre o clero.

1879 — Passou a exercer o lugar de mestre da capela da Sé o padre capelão José Pedro Soares.

1880 — Autorizou por alvará de 19 de julho que fosse demolida e reconstruída a ermida de Nª Sr.ª da Saúde, na Praça Velha.

1881 — A 28 de março publica uma circular em que reprova ‘(…) as coroas de lata que alguns usavam como emblema do Espírito Santo’ e regulamentando as coroações e outros atos inerentes àquela devoção. — A 16 de julho foi concedida ao padre António Mariano de Sousa a distinção de desembargador honorário da relação paroquial.

1882 — A 31 de dezembro publicou um manifesto a declarar: 1º, que considera como inimigo quem pretende coagi-lo a fazer, por empenho, o que doutro modo não faria; 2º, que não pode, de modo algum, prestar-se a servir de instrumento de vinganças e ódios particulares; 3º, que não procedia contra pessoa alguma, fundado em escritos anónimos.

1884 — A 26 de setembro publicou uma pastoral em comentário à Encíclica de Leão XIII sobre a Maçonaria, denominada ‘Humanum Qenus’, o que provocou a publicação de uma carta ao jornal ‘O Atleta’ desta cidade, verdadeiramente insultuosa para o prelado e para o clero. Em desagravo foi prestada ao bispo uma grande manifestação pública, na qual tomaram parte as principais autoridades, o clero da cidade e muita afluência de povo.

1885 — Em dias sucessivos se apresentaram no paço episcopal delegações de várias freguesias dos dois concelhos da ilha, sendo-lhe entregue uma mensagem com alguns milhares de assinaturas, bem como outras das dioceses de Leiria, Bragança, Braga, Funchal e Rio de Janeiro. — Foi nomeado bispo coadjutor da diocese D. Francisco Maria do Prado Lacerda.

1886 — O vigário geral, Dr. Ferreira de Sousa, nomeado nos fins do ano anterior por agravamento da doença do prelado, determina, em 9 de janeiro, que se façam atos de ação de graças pelas melhoras do bispo.

— Por iniciativa do jornal bracarense «Cruz e Espada», foi oferecida ao bispo de Angra uma cruz peitoral, adquirida por subscrição pública e lhe foi entregue a 25 de março pelo Dr. Diogo de Barcelos, presidente da comissão angariadora de Angra, em nome de todos os católicos. Era cravejada de vinte e cinco brilhantes e tinha a seguinte inscrição: ‘Os Católicos Portugueses ao Ex.mo Bispo de Angra’.  Desembarcou em Angra o bispo coadjutor D. Francisco de Lacerda, em 10 de abril.

1887 — A 24 de Outubro iniciou-se a publicação de ‘O Peregrino de Lourdes’, órgão católico local, que sustentou várias polémicas com o redator de ‘O Atheneu’ sobre a responsabilidade dos criminosos e com «A Evolução» sobre os milagres de Lourdes, publicando uma acerba crítica ao discurso proferido pelo Dr. José Nogueira Sampaio (Vid. «Breviário», pág. 370), na abertura solene do Liceu de que era reitor, acerca das «Origens da Vida», trabalho que foi publicado em livro, em 1895, voltando a ser objeto de larga controvérsia.

1888 houve desde 1886 graves dissensões entre este prelado e o seu coadjutor D, Francisco Maria do Prado Lacerda, as quais muito agravaram o estado de saúde do prelado, já bastante abalado pela campanha que lhe moveu a imprensa desde 1804 e jamais afrouxou até à sua morte. Da gravidade dessas disputas nos fornece concludentes provas: A Diocese de Angra na História dos seus Prelados, notável obra do cónego José Augusto Pereira. 1889 — A 27 de janeiro faleceu o 28.° bispo de Angra, D. João Maria Pereira do Amaral e Pimentel, ao tempo residindo na quinta da Estrela que adquirira e deixou em testamento à Mitra, nomeando testamenteiros e usufrutuários aos seus familiares, padres Manuel Maria da Costa e António Maria Ferreira- Após a proclamação da República, em 1910, que não reconhecia à Igreja o direito de propriedade, o referido prédio foi vendido em hasta pública e adquirido por um secular que mais tarde o vendeu ao padre Manuel Maria do Couto, seu atual proprietário. O cadáver de D. João Maria foi conduzido para a capela do paço episcopal, até ao dia seguinte em que se realizaram as exéquias na Sé Catedral. Foi bastante pranteada a sua morte, tendo o funeral constituído uma grande demonstração de pesar pois se tratava de um prelado bondoso, extremamente caritativo e benévolo para com todos os seus fiéis diocesanos. Dotou a sé com uma bancada de prata, própria para os pontificais, cuja cruz tem gravadas as armas de D. João Maria. Serviram de modelo quatro castiçais de prata que haviam pertencido ao extinto convento da Graça da Horta e foram cedidos pelo Governo à sé de Angra por portaria de 16 de fevereiro de 1877. Era escritor e publicou algumas obras, entre as quais avulta o folheto «Analisando, refutando e condenando o opúsculo intitulado Os Lazaristas nos Açores da autoria de Augusto Ribeiro (Cf. Breviário, pág. 161), em que este defendia a tese de António Enes, exposta, com grande escândalo dos católicos na peça «Os Lazaristas» representada em Angra no ano de 1874, por iniciativa de Mateus Augusto, depois diretor do «Diário da Terceira» (1878), o qual, com «O Chicote», «O Protesto», «A Ronda», «A Sentinela» e o «Atleta», para não citarmos os célebres jornais humorísticos.

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Bibliografia

Primeiras tres Pastoraes do Exmo. e Rvmo Sr. D. João Maria Pereira d’Amaral e Pimentel, Bispo d’Angra do Heroismo, Aos Seus Diocesanos, Angra do Heroísmo, Typ. da Virgem Immaculada, 1876; Pastoral do Exmo . e Rev. Sr. D. João Maria Pereira de Amaral e Pimentel Bispo d’Angra do Heroismo, de 27 de Setembro de 1876, Analysando, Refutando e Condemnando o Opusculo Intitulado os Lazaristas nos Açores, Lisboa, Typ. do Jornal a Nação, 1877; A sciencia da civilisação: curso elementar completo de educação superior, religiosa, individual e social, Porto: Livraria Internacional, 1877; Discurso que na inauguração da estatua do conselheiro José Silvestre Ribeiro na villa da Praia da Victoria, que recitou o Bispo da Diocese D. João Maria Pereira d’Amaral e Pimentel’, Angra do Heroismo, Typ. da Virgem Immaculada, 1879; Instrução pastoral, s.l., 187-; Memorias da Villa de Oleiros e do seu concelho. Angra do Heroísmo: Typographia da Virgem Immaculada, 1881; Carta Pastoral sôbre o protestantismo, Angra do Heroismo, Tipografia da Virgem Imaculada, 1883; O culto catholico, Angra do Heroismo, Typ. Virgem Immaculada, 1885;

Trabalhos sobre o(a) autor(a)

Caninas, J.C., Henriques, F., Batata, C. & Batista, A. (2004). Novos dados sobre a Pré-História Recente da Beira Interior Sul. Megalitismo e Arte Rupestre no concelho de Oleiros. Estudos de Castelo Branco, 3: 3-30.

Agostinho, J. (dir.) (1965-1966). Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, n.º 23-24 (Diretor: Tenente Coronel José Agostinho). Angra do Heroísmo: Junta Geral Distrito Autónomo de Angra do Heroísmo.

Governo dos Açores (1872/1886). Cartas do Bispo D. João Maria Pereira de Amaral e Pimentel. Tomo 3º 1826/1889. Angra do Heroísmo: Secretaria Regional de Educação e Cultura (Código de referência – PT/BPARPD/PSS/EC/0039/00006).

Medeiros, Octávio H. Ribeiro de (1996). A Igreja nos Açores – Último quartel do século XIX: índices do ‘Boletim Eclesiástico dos Açores (1872-1900) (Prefácio de Avelino de Freitas Meneses). Povoação: Santa Casa da Misericórdia de Povoação, p. 222.

João Maria Pereira de Amaral e Pimentel, Wikipédia, a enciclopédia livre

Biógrafo(a): Ernesto Candeias Martins (IPCB/ESECB)

FONTE (Texto): Martins, Ernesto C. (2005). Contributos de D. João Amaral e Pimentel à Instrução do Clero e Seminários. In: Ernesto C. Martins (coord.), A Renovação pedagógica & La Renovación pedagógica – Atas do Vº Encontro Ibérico de História da Educação Coimbra/C. Branco: Alma Azul, pp. 519-521. [Edição de texto para publicação neste website: Helena Cabeleira]

FONTE (Retrato)

Wikipédia, a enciclopédia livre; Wikimedia Commons, the free media repository;

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REIS, Alfredo Martins dos

REIS, Sebastião dos

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RODA, Assis (1890-1959)

Nascimento: Proença-a-Nova (05/06/1890)

Morte: Lisboa (30/03/1959)

Biografia

Assis da Silva Gonçalves Roda nasceu em Proença-a-Nova a 5 de Junho de 1890. Era filho de Francisco Martins da Silva Roda, farmacêutico e de Maria do Carmo Gonçalves Roda, doméstica, residentes na Rua das Pereiras, em Proença-a-Nova, onde nasceu o seu primogénito, Assis.

A 05 de Outubro de 1910 implantava-se, em Lisboa, o novo regime republicano que, por telégrafo, praticamente se estenderia a todo o país com mais ou menos rapidez e facilidade. Todavia, em Proença-a-Nova, as rotinas continuavam como se nada tivesse acontecido e, cinco dias depois, ainda a Câmara Municipal se mantinha monárquica. É apenas no dia 11 de Outubro que um grupo de 62 proencenses foi ao edifício da Câmara, hasteou a bandeira republicana, nomeou uma nova comissão administrativa e aclamou o novo regime. Entre esses “revolucionários” republicanos encontravam-se Francisco Martins da Silva Roda e o seu filho Assis da Silva Gonçalves Roda, de 20 anos de idade. As suas assinaturas constam do auto de aclamação que foi lido e depois lavrado no livro de actas da Câmara Municipal de Proença a Nova. O jovem, já licenciado em farmácia, então com 29 anos, casou civilmente no Posto de Registo Civil de Galveias, no dia 19 de Julho de 1919, com Ana Marques Couceiro, de 25 anos, natural de Galveias (Ponte de Sor), filha de Fernando Valadares Couceiro e de Ana de Jesus Marques Couceiro. A família Couceiro era uma das famílias mais abastadas da região e, para além de terratenente, era proprietária de uma farmácia naquela localidade. Talvez tenha sido a “botica” o elo de ligação entre os jovens, mas as diferenças económicas das duas famílias deveriam ser marcantes pois o casamento foi lavrado em regime de separação de bens. Assis Roda fixou residência nas Galveias. 

Apesar de viver nas Galveias, não esqueceu a sua terra natal. No início dos anos 50 do século XX, em terrenos que pertenciam à sua família, custeou a construção do edifício e doou ao Estado a importância de 500.000$00 para manutenção de uma cantina escolar destinada aos alunos da escola primária de Proença, frequentada diariamente por cerca de 150 crianças. Com essa verba, foi constituído um fundo em Títulos de Renda Perpétua, a 4% ao ano, e os juros revertiam a favor da instituição criada. Assim se geravam 20.000$00 anuais. Para se ter uma ideia dos valores envolvidos, lembro que o ordenado anual de um professor primário naquela época era de 18.500$00. O edifício da Cantina Escolar Assis Roda foi recentemente remodelado e transformado em salas para uso do ensino pré-escolar. Todavia, permanece no local o busto em homenagem a Assis Roda, o actual refeitório ainda hoje utiliza alguns talheres com as letras C.E.A.R. (Cantina Escolar Assis Roda) gravadas e, nas paredes, ostenta os retratos do benfeitor e de seus pais.

A 13 de Março de 1956, doou, por escritura lavrada no 12.º cartório, Rua de S. Julião, n.º 62, em Lisboa, à Santa Casa da Misericórdia de Proença-a-Nova a quarta parte dos seus bens descriminados na referida doação de que existe cópia no Arquivo da instituição beneficiada. No mesmo ano de 1956, doou ainda à mesma Santa Casa a importância de 100.000$00, convertida em títulos de dívida perpétua, para sufragar a memória de sua esposa, entretanto falecida em 1953. Para ajudar a construção do Hospital da Misericórdia de Proença, deu também 20.000$00 no último cortejo de oferendas em benefício da construção do mesmo.

A Misericórdia de Proença ainda hoje preserva a sua memória e o nome Assis Roda consta na galeria dos seus benfeitores, foi referido no estudo monográfico “A Santa Casa de Misericórdia de Proença-a-Nova” e, no átrio de entrada da casa de repouso, antigo hospital, estão bem visíveis dois medalhões com fotografias de Assis Roda e sua esposa Dona Ana Couceiro. Também a vila e a freguesia de Galveias beneficiaram da generosidade do proencense Assis Roda. Em 1954, ofereceu 1.500.000$00 para se construírem, através do Ministério das Obras Públicas, os edifícios destinados à Junta de Freguesia de Galveias e a um infantário na sede daquela freguesia. Sufragando a memória de sua esposa, determinava que os edifícios fossem entregues em propriedade à Junta daquela freguesia. O Ministério das Finanças recebeu a verba e foi-a libertando à medida que ia sendo necessária para a construção que foi executada pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Concluídas as obras, os edifícios foram cedidos a título gratuito e definitivo à Junta de Freguesia e Galveias, tendo o prédio destinado ao Infantário ficado isento de contribuição predial e a administração do mesmo sob a responsabilidade da Junta de Freguesia das Galveias. Receando que o saldo sobrante da construção e constituído em certificado de renda perpétua, a favor do infantário para garantia da sua manutenção, não fosse suficiente, Assis Roda doou à Direcção-Geral de Assistência, por escritura de 20 de Agosto de 1957, mais 3.000.000$00 para serem investidos, nas mesmas condições, em certificado de renda perpétua com a mesma finalidade. Ao mesmo tempo, colocava como condição que a direcção do Infantário fosse, sempre que possível, constituída por pessoas residentes em Galveias. Ao doador era reconhecido o direito de verificar pessoalmente a aplicação dos rendimentos doados.

No final de 1957, o edifício do Infantário estava concluído e foi marcada a inauguração para 11 de Janeiro do ano seguinte. A Direcção do Infantário, denominado “Infantário Dona Anita”, elaborou um programa detalhado (ver cópia) e a Junta de Freguesia distribuiu um Convite à População onde exortava à presença de todos e apelava a que os galveenenses enviassem de cartas e telegramas e por todas as outras formas fizessem chegar ao Senhor Comendador Assis Roda mensagens de agradecimento para a sua residência em Lisboa para que ele, doente e impossibilitado de estar presente, pudesse sentir a grandeza da sua obra social e a gratidão do povo de Galveias. A Junta também publicitava e explicava algumas deliberações tomadas, nomeadamente fazer descerrar, na nova artéria mesmo em frente ao Infantário, duas placas, com letras gravadas a ouro, dando o nome do Comendador Assis Roda àquela rua, na sequência de uma deliberação da Câmara Municipal de Ponte de Sor, tomada na sua reunião de 24 de Abril de 1957, por proposta da Junta de Galveias com o apoio de muitas instituições e toda a população. A inauguração contou com a presença do Arcebispo de Évora, do Ministro da Saúde e Assistência, do Governador Civil de Portalegre, do Presidente da Câmara da Ponte de Sor, do Pároco de Galveias, P.e Tavares Folgado, ainda vivo e com quem tive oportunidade de falar no passado dia 16 de Abril, e de muitas outras individualidades. De Proença-a-Nova estiveram presentes Luiz da Silva Reis e, em representação de Assis Roda, o seu primo, Farinha Tavares, outro benemérito de Proença a Nova.

À mesma hora, em Lisboa, na casa de Assis Roda, na rua do Conde Redondo, n.º 127, r/c, o chefe de Gabinete o Ministro da Saúde e Segurança, entrevistava o Comendador cuja saúde não permitira a deslocação às cerimónias inaugurais e testemunhava-lhe também o seu agradecimento pelos actos de benemerência. As formalidades concluíram-se no dia 16 de Agosto de 1958, com a entrega à Junta de Freguesia de Galveias dos edifícios onde funcionavam o Infantário e sede. A entrega foi feita pela Direcção Geral da Fazenda Pública, representada pelo chefe da Secção de Finanças da Ponte de Sor, Alberto Ferreira da Silva, e estiveram presentes o Presidente da Câmara da Ponte de Sor, Manuel Nunes Marques Adegas, todos os elementos da Junta, bem como Fernando Teixeira Valadares Couceiro, em representação de Assis Roda, seu tio, que continuava doente em Lisboa.

Em 2013 os edifícios continuam a cumprir os objectivos para que foram construídos, respeitando a vontade do seu instituidor. No que respeita ao Infantário, já teve frequência maior e acompanha as peripécias da natalidade local. Neste ano lectivo de 2012/13 é frequentado por 29 meninos e meninas. Todavia, não foram apenas as obras de natureza social o objecto único da generosidade de Assis Roda. Estando a capelinha da “Senhora das Almas”, à entrada da vila, do lado da Ponte de Sor, a precisar de recuperação, o ilustre proencense, em 1954, decidiu mandar restaurar o pequeno templo, com a intenção de sufragar a alma de sua esposa, falecida recentemente.

Como já deve ter sido percepcionado, nos últimos tempos, uma doença grave retinha-o no seu domicílio alfacinha, na rua do Conde Redondo impedindo-o de comparecer nas várias cerimónias onde a sua generosidade era reconhecida admirada e louvada. No dia 30 de Março de 1959, Assis Roda terminava os seus dias na sua casa de Lisboa. No dia seguinte, o funeral saiu da igreja do Coração de Jesus, em Lisboa, com destino ao jazigo da família no cemitério de Galveias. Era acompanhado de dezenas de carros, muitos deles de Proença-a-Nova, e era aguardado por uma multidão de populares e personalidades representando inúmeras instituições. De Proença fizeram-se representar a Câmara Municipal, o Hospital, a Junta de Freguesia, o Grémio Recreativo, o Posto da GNR, a Escola Primária, a Mocidade Portuguesa, os Bombeiros Voluntários e o Pároco. Além destas individualidades, esteve também muito povo e um autocarro transportou muitas crianças que frequentavam as escolas de Proença e que beneficiavam das refeições na Cantina Escolar por ele criada.

No dia 30 de Junho, três meses após o falecimento, por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Proença a Nova, realizou-se, na igreja Matriz desta vila, um Ofício Solene pela alma do Comendador Assis Roda. As cerimónias começaram às 12h e estavam presentes os párocos da Sobreira Formosa, Várzea dos Cavaleiros, Alvito da Beira, Ermida e, naturalmente, de Proença, com o respectivo coadjutor, bem como o P.e António Fernandes, das Cimadas. Dentro da igreja, junto à capela-mor, estavam as bandeiras e estandartes das entidades oficiais como a câmara Municipal, a Mocidade Portuguesa, os Bombeiros Voluntários e o Grémio Recreativo Proencense. Para além dos familiares, os representantes das entidades oficiais e o povo enchiam completamente a igreja matriz. Depois das cerimónias religiosas, organizou-se um cortejo rumo ao Hospital onde se descerrou uma efígie do falecido Comendador e usaram da palavra o Sr. Ezequiel Lopes Ribeiro, Provedor da Misericórdia, o Pároco e o Presidente da Câmara. Aqui surgiu a proposta de atribuição do seu nome à rua das Pereiras, onde havia nascido. Assim veio a ser decidido posteriormente pela Câmara Municipal. (Hoje, o seu nome está atribuído à artéria que vai do quartel dos Bombeiros Voluntários de Proença à estalagem das Amoras, passando pelo complexo escolar do 1.º ciclo do ensino básico).

Ficaram bem patentes as várias distinções e reconhecimentos com que as comunidades onde Assis Roda viveu e as suas instituições mais representativas quiseram distinguir o cidadão benemérito. Falta referir a atribuição, em 26 de Julho de 1955, pelo Presidente da República de então, General Francisco Craveiro Lopes, do grau de cavaleiro da ORDEM DE MÉRITO (antiga Ordem de Benemerência) atribuído a quem tenha praticado actos ou serviços meritórios a favor da colectividade. Era o reconhecimento público e oficial, ao mais alto nível, de tanta benfeitoria a favor das populações de Proença e Galveias.

Assis Roda era uma pessoa reservada e circunspecta, dedicado ao trabalho e à família. Só após da mulher, Dona Ana Couceiro, em 1953, e sem filhos nem netos com que se ocupar, começou a ter uma vida social relevante, em grande parte para dar visibilidade à memória de sua falecida esposa. É assim que, em 17 de Outubro de 1955, é admitido como sócio desta Casa e, neste mesmo salão, é homenageado uma primeira vez com a atribuição de uma condecoração entregue pelo ex-subsecretário de estado da Assistência Social, Dr. Pires da Cruz, a 13 de Outubro de 1957. A memória de ASSIS RODA está materialmente bem preservada em inúmeros locais e espaços como ruas e edifícios, em fotografias, bustos e em escritos particulares ou oficiais. 

Bibliografia:

Trabalhos sobre o(a) autor(a):

Biógrafo(a): António Manuel Martins Silva

FONTE (Texto): SILVA, António Manuel Martins (2013). “Um homem bom, de alma grande e coração generoso”, Palestra proferida na Casa da Comarca da Sertã, Lisboa, 11 Maio 2013. (fonte do autor)

FONTE (Retrato): Fundação Infantário Dona Anita

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SANTOS, Joaquim Pires dos (1864-1946?)

Bibliografia: [desconhecida]

Trabalhos sobre o(a) autor(a):

ROSENDO, Joaquim (dir.). A Freguesia de Ortiga: Revista comemorativa do 20º aniversário da fundação da Freguesia de Ortiga e do 50º da sua integração no concelho de Mação, Número Único, Setembro 1948, p.18;

Biógrafo(a): Joaquim Rosendo

FONTE (Texto): ROSENDO, Joaquim (dir.). A Freguesia de Ortiga: Revista comemorativa do 20º aniversário da fundação da Freguesia de Ortiga e do 50º da sua integração no concelho de Mação, Número Único, Setembro 1948, p.18;

FONTE (Retrato): ROSENDO, Joaquim (dir.). A Freguesia de Ortiga: Revista comemorativa do 20º aniversário da fundação da Freguesia de Ortiga e do 50º da sua integração no concelho de Mação, Número Único, Setembro 1948, p.18;

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SERRA, Libânio Vaz (1891-1971)

(em construção)

Libânio Vaz Serra nasceu a 16 de Fevereiro de 1891, no lugar de Matos do Pampilhal, freguesia de Cernache do Bonjardim. De origem humilde, emigrou aos 16 anos. Após alguns meses de permanência em S. Tomé e Príncipe fixou-se na ilha de Fernão Pó (Fernando Pó),  hoje denominada Bioko, na antiga Guiné espanhola, actualmente Guiné Equatorial ou República  da Guiné Equatorial. Libânio Vaz Serra começou a trabalhar nas propriedades de um conterrâneo. Algum tempo depois, por discordar dos métodos de produção, saiu e decidiu tornar-se empresário, exercendo várias actividades. Mais tarde adquiriu a sua primeira propriedade recorrendo ao empréstimo. Seguiram-se outras aquisições dando origem a um monopólio designado por Explorações Agrícolas Fernando Pó SA, que se estendida por 1200 hectares de cacau, café, óleo de palma e banana, tudo produtos destinados à exportação. Em poucos anos, empregava centenas de trabalhadores, inclusive mão de obra da Nigéria, e modernizava os métodos tradicionais de produção.


Por motivo de doença, regressou á sua terra natal. Em 1925 casou com Maria Celeste Lemos Vaz Serra. Desde casamento nasceram sete filhos. A obra de Fernão Pó continuou, mais tarde com a ajuda de alguns filhos, e tornou-se a quarta maior exploração agrícola da ilha. Neste local , Libânio Vaz Serra construiu um pequeno hospital, baptizado com o nome da sua esposa, para atender aos problemas de saúde dos seus empregados e abrigou os seus trabalhadores em moradias condignas. Por volta de 1927, o comendador fixou-se definitivamente em Cernache do Bonjardim e continuou a sua actuação empreendedora.

Financiou  a criação de um clube de futebol em 1948 mas, devido á falta de meios de clube, empregou todos os jogadores numa das suas empresas. Nasceu Grupo desportivo  Viação de Cernache, actualmente Grupo Desportivo Vitória de Cernache. Em 1950 fundou o Instituto Vaz Serra, a Companhia de viação de Cernache LDA. Bonjuma SARL; Serração de Madeiras; casa agrícola  Libânio Vaz Serra, que exportava vinho e azeite; moagem de farinha: investiu em propriedades florestais e na produção de resinas. Doou terrenos necessários á construção da casa do Povo e ao quartel dos bombeiros da Sertã, além de outros emprendimentos dentro e fora do concelho.

Em 1956, a pedido das autoridades espanholas, construiu em Fernão Pó, na cidade de San-Francisco , trinta e seis edifícios destinados á habitação e comércio. Faleceu em Cernache do Bonjardim a 9 de Novembro de 1971 vítima de broncopneumonia. No seu testado legou muitos donativos a pobres e diversas instituições.

Bibliografia:

Trabalhos sobre o(a) autor(a):

IVS (2011). Biografia de Libânio Vaz Serra.

Biógrafo(a):

FONTE (Texto): IVS (2011). Biografia de Libânio Vaz Serra.

FONTE (Retrato): IVS (2011). Biografia de Libânio Vaz Serra.

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SILVA, Luís José da

SOUSA, António da Silva 

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TAVARES, Joaquim da Silva

TEIXEIRA, Cândido da Silva

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