memórias de uma professora de província

Maria Ezequiel Castanheira, a caminho da escola no burrico (anos 1950)
Foto: Espólio particular de Maria Albertina Castanheira Batista

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FOTOS FALADAS

– Eu até lhe quero dar uma coisa, que até é da minha irmã Maria Ezequiel…A minha irmã tem mais dez anos de serviço do que eu. Mais dez anos de idade. Portanto, eu tenho setenta e nove, a minha irmã tem oitenta e nove e nós somos assim nestas coisas muito parecidas, sabe? E ela contou-me coisas que eu tenho aqui registadas já há muito tempo a lápis, mas de certeza que lhe podem interessar que são dos anos…o que eu tenho aqui de São Pedro do Esteval é da minha irmã, nos anos 50, 51, talvez até 53, e há aqui coisas que ela diz que eu acho uma maravilha e que eu até vi com os meus olhos. Por exemplo, eu fui uma vez a uma festa que a minha irmã fez lá de Natal, e porque ela fazia estas coisas eu também queria ser professora como ela, porque gostava…

A sua irmã é mais velha?

– É. Tem mais dez anos do que eu. E esta minha irmã trabalhava numa escola que acho que já lá não está, mesmo ao pé da igreja de São Pedro do Esteval. Era uma casa normal, a sala era menos de metade desta com sessenta e quatro alunos. Quatro e cinco em cada bancada. Eu vi com os meus olhos! Era uma mesa, assim um banco, e depois era o banco corrido, estavam cinco ou seis meninos em cada banco. Eu vou-lhe dizer como é que eu vi! O da ponta estava assim, sentado com a perna aberta, todos, e eu perguntava à minha irmã porque é que os alunos da ponta tinham sempre a perna aberta. Estavam a segurar, senão os outros caiam todos!! Porque estavam tão encarnados…está a perceber? Eram sessenta e quatro alunos que ela tinha, das quatro classes e era uma amalgama. Eu não sei como aqueles miúdos…e eram bons alunos. Acredita que saiam daqui os melhores alunos do país?!… 

E a sua irmã dava aulas onde?

– São Pedro do Esteval. E ela dizia, escrevi aquilo que ela me disse “São Pedro do Esteval , escola de província, escola de concurso deserto…”, ela foi para lá, foi com concurso deserto. Ela concorreu, ficou logo lá colocada… “…ao fim de um mês ficava efetiva…”. Portanto, aquilo era por concurso deserto, ela ao fim de um mês ficou logo efetiva, isso era a lei desse tempo. E era obrigada a estar lá dois anos. Portanto, ela esteve lá não sei se dois se três, não sei. “Tinha sessenta e quatro alunos, as carteiras eram bancadas para quatro ou mais meninos, os dois das extremidades…”, assim, como eu lhe disse com as perninhas de fora para que todos tivessem direitos. “…com a perna de fora do banco. Bons alunos, 4º ano de 15 a 14, etc. etc.”. Depois lê isto tudo…“Porque é que são Pedro tinha sempre bons alunos?”, eu acho isto uma maravilha. Porque vinham fazer exame da 4ª aqui a Proença e eram sempre bons. 

Eram sempre bons alunos. 

– Eram… Apanhavam distinções e coisas do género e a minha irmã disse aqui porquê: “por causa do glúten”, porque eles só comiam muito glúten…o milho, aquilo não tinha mais nada, os terrenos era tudo trigo e milho, só cereais. E era à base do glúten que toda a gente se alimentava. Toda a gente comia muito pão e couves que os faziam assim espertinhos. 

A sua irmã tinha essa teoria?

– A minha irmâ…do glúten?…A minha irmã disse-me isso. Ela disse-me porque é que eles eram bons alunos: “O glúten do muito trigo, base na alimentação ao longo de gerações”, foi o que a minha irmã me disse que eu escrevi aí. Está a ver…Eu acho isto uma maravilha. E depois ela diz aqui outras coisas que eu também acho bonito. “O aluno, filho da viúva que teve de ir ganhar a safra da azeitona…”, portanto a viúva teve de ir para a azeitona para o Alentejo…,”só veio depois do Natal à escola”, pronto, a minha irmã sabia que a mãe ia para a azeitona, era viúva tinha de ganhar a vida. “À luz do petróleo, o menino apesar de ter vindo só depois do Natal, recuperou e era um bom aluno. Tinha outro que era um mau aluno, porque queria ser marçano nos Envendos…”. Marçano era um criado, vá, queria ir para os Envendos ser marçano. “…mas depois foi estudar e foi um bom aluno.” Ela contou-me assim muitas coisas que isso dava para lhe perguntar. E depois a minha irmã fez, quando foi no fim do ano, quando fazia lá…a gente tinha de fazer uns mapas…e fez um elogio a este miúdo que depois foi um bom aluno, etc. que queria ser marçano, que não queria andar na escola, mas depois ficou na escola, andou ate à 4ª classe e foi um bom aluno. E a minha irmã fez um elogio quando fez o mapa e mandaram-na tirar o elogio. Foram ver o mapa… ela depois ela escreveu aqui: “mandado retirar”. Portanto, nós não podíamos…eu tenho coisas assim antes do meu tempo de serviço…

Albertina Castanheira, em entrevista a Helena Cabeleira (28 Novembro 2019, Universidade Sénior de Proença-a-Nova)

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